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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

M 5 : O Aglomerado de Burnham-Asimov

           

         Quando falamos em globulares a separação entre o norte e o sul do planeta se acentua ainda mais que a já batida diferenciação econômica que permeou nossas aulas de geografia no ensino médio. Toda aquela besteirada determinista sobre fatores climáticos e o desenvolvimento vai para o brejo. Quando falamos em globulares os habitantes das terras meridionais levam imensa vantagem. Nas terras ao sul do Equador reinam soberanos Ômega Centauro, Tuc 47e M 22.
            Já para os habitantes setentrionais do planeta a trindade é composta por M 13, M 5 e M3.  A Comparação entre os santos é injusta. O terceiro colocado no hemisfério sul é muito maior e vistoso que o primeiro no Hemisfério Norte.
            Como falei no post a respeito de M 9 tudo é relativo ao observador. No caso ao lugar na terra onde o observador se encontra.
            Normalmente quando vou fazer uma apresentação de um objeto do Catalogo Messier a primeira fonte que busco é o Catalogo Messier. Bastante obvio.  Herschel pai e filho geralmente resolveram os objetos e são paradas obrigatória. A seguir geralmente chego a Smith com seu “The Cycles of Celestial Objects – The Bedford Catalog”. Smith é um amador “profissional” e suas descrições são historicamente fundamentais e geralmente bonitas.  E finalmente tenho como escudeiros meus contemporâneos O ‘Meara e Stoyan.  As páginas da SEDS e algumas outras (The Messier Objects e Astronomy Today) também são fontes que tenho na mais alta consideração.
            Mas de tempos em tempos me lembro porque Burnham e seu “Celestial Handbook” (anos de 1970) são meu guia astronômico favorito.  (Só será encontrado usado. Mas a Amazon pode ajudar... https://www.amazon.com/Burnhams-Celestial-Handbook-Observers-Universe/dp/B0020CBL5E/ref=pd_lpo_sbs_14_t_0?_encoding=UTF8&psc=1&refRID=1FG3WKY8V60ZP8P62WDJ )
            Em primeiro lugar porque Burnham é uma figura quixotesca e me identifico muito com conquistadores do inútil. E em segundo porque ele escreve muito bem e em três volumes é difícil deixar algo para trás. E assim ele me recorda que além de Smith existem outros autores clássicos (e que eu possuo no HD) que devem ser lembrados. Ollcot, Webb, Serviss e “last but not least” Mary Proctor são autores fundamentais.
            Finalmente tinha fotografado M 5. Uma das maravilhas globulares para os habitantes das zonas temperadas e desenvolvidas do Hemisfério Norte. Berço natural da Astronomia Amadora (não é exatamente um esporte barato...).
            Para ser sincero eu nem sabia que ele era essa maravilha toda. Mas com a missão auto imposta de fotografar todos os globulares Messier cheguei até ele na última comemoração da Aporema.  O fotografei de forma descompromissada já baixo no Horizonte Noroeste e realizei menos exposições do que eu gostaria e do que ele merece. Mas a poluição luminosa da Armação dos Búzios naquela direção e um céu de transparência duvidosa me levaram a crer que o ruído era excessivo e estava de bom tamanho. Afinal era apenas mais um dos globulares Messier em meio a massa e meu objetivo como astro fotografo está mais para registrar tudo que existe do que para arte...



Este é resultado de um Drizzle (2X). O Ruido da captura era absurdo e mesmo depois de passear por muitos softwares não melhorou muito. M 5 merece um outro esforço . A imagem que abre o post não passou por drizzle. São ambas resultado do empilhamento de apenas 10 exposições de 30 segundos  ASA 1600 em RAW. A foto acima foi do DSS para o PixInsight , depois Photoshop ( Vários processos e crop) e finalmente Noiseware. Não adiantou muito. A foto que abre o post É resultado do DSS , uma melhora do gradiente de Fundo no Fitswork e um ajuste de exposição no PhotoShop CS. 

Esta é Resultado do mesmo empilhamento com 2X drizzle no DSS e a seguir tratada apenas no Fitswork (sem crop) . Venho percebendo que em noites de muita umidade o ruido , especialmente na parte mais baixa do horizonte é bem cruel. A umidade (nebulosidade)é uma inimiga pior que a poluição luminosa. 


            M 5 se localiza em Serpens (Serpente). A única constelação do céu que se divide em duas partes e que se enrosca em Ophiuchus. Habita próximo a famosa “Nebulosa da Águia” (M 16). Talvez por isto tenha me passado desapercebido por tanto tempo.
            Burnham inicia nos contando que M 5 é um dos grandes shows do céu de verão (lá para eles. Aqui será inverno) ranqueando  junto com M 13 em Hércules e M 3 em Canes Venatici como um dos três mais belos globulares da metade norte do céu. Seu brilho garante o quinto lugar em todo o céu atrás apenas de Ômega Centauro, 47 Tucanae, M 22 e M 13.
            M 5 foi descoberto por Gottfried Kirch em 5 de maio de 1702 enquanto este procurava por um cometa. Isto segundo um relato de sua esposa. Kirch foi descobridor também de M 11 (Aglomerado do Pato Selvagem) e de um cometa em 1680 (C/1680 V1)
. A seguir Burnham segue o caminho de todos e apresenta a descrição de Messier   que eu não posso deixar de apresentar por aqui:
            “[Observado em 23 de maio ,1764]. Linda nébula descoberta entra Libra e Serpens próxima a estrela de sexta magnitude Flamsteed 5 Serpentis. Não contém nenhuma estrela, é arredondada e pode ser muito bem vista sob bons céus com um refrator simples de 1 pé. M. Messier a localizou na carta paro o cometa de 1753, Memoires de l´Acaddemie 1774 pag. 40. Observado novamente em 5 de setembro 1780 e 22 de março de 1781”
            Burnham segue o caminho natural das coisas e apresenta a bela descrição de Smith que destaca como M 5 possui um núcleo ainda mais brilhante que M 3.
O  Refrator de 1 m de Yerkes....

            Finalmente ele me lembra porque gosto tanto de seu livro. Ele localiza a belíssima descrição de Mary Proctor ( uma das maiores divulgadoras da astronomia amadora no início do século XX) no seu doce e gentil “ Evenings with the Stars” (1924)  onde  ela faz uma apresentação delicada de suas impressões sobre M 5 depois de observar este do maior refrator do mundo ( 1 metro de lente...) localizado no Observatório de Yerkes: “Miríade de cintilantes pontos brilhando sobre um fundo de bruma estrelada, iluminada como pela luz da lua, formando um incrível contraste contra a escuridão do céu noturno. Durante poucos momentos felizes, durante os quais o observador vaga por esta cena, sugere um verdadeiro vislumbre dos céus além…” (https://archive.org/details/EveningsWithTheStars )
            Neste momento Burnham se apresenta . Supondo que você é um astrônomo amador você certamente conhece um conto (que posteriormente se tornou um curto romance) do Isaac Asimov chamado “Nightfall” (“O Cair da Noite” em português. É o único livro até agora citado que foi traduzido para o português. Não é fácil levar as coisas a sério na Pindorama). Ele (Asimov) nos conta a história de um planeta (Kalgash) que habita um sistema sêxtuplo de estrelas e que desta forma só conhece a noite a cada 2049 anos. Desta forma seus habitantes não possuem defesas psicológicas para a escuridão total da Noite. Mas a história nos surpreende e pior que a escuridão é quando eles descobrem que habitam dentro de um imenso aglomerado. Quando o ultimo de seus sóis se eclipsa eles são aterrorizados pela maravilha de milhares de estrelas de primeira magnitude brilhado na sua noite... Quase todos enlouquecem.  
O Ritchey Cretien de 1m do Observatório Naval em Flagstaff

            Burnham leu o apocalíptico (é este o adjetivo utilizado ...) romance dois dias depois (eu li em uma noite) de observar M 5 pelo belíssimo refletor Ritchey-Chretien de 40 polegadas do Observatório Naval baseado em Flagstaff, Arizona. Burnham considerou a visão estonteante e foi como se “ Os vagalumes de um milhar de noites de verão tivessem se reunido, congelados para sempre no tempo, e suspensos entre as estrelas”.  Segundo ele Asimov não tinha nenhum aglomerado particular em mente quando escreveu “Nightfall” mas para o autor do “ Celestial Handbook” este será sempre M 5.
            Eu admito que para mim será sempre M 22. 
         
         "Nightfall" foi inspirado pelo seguintes palavras de Emerson no seu ensaio "Nature":
            "Se as estrelas pudessem aparecer uma noite a cada mil anos, como poderia o homem acreditar e adorar , e preservar por muitas gerações, a lembrança  da Cidade de Deus que lhe foi mostrada"
       Quem nunca leu o livro deve ler.( http://lelivros.stream/book/o-cair-da-noite-contos-isaac-asimov ).
Observando M 5 com o Newton (um refletor 150 mm) com 70X de aumento das terras de José Eustáquio (Armação de Búzios) eu não tenho tamanha emoção. Mas como já disse a noite era longe do ideal e o aglomerado já ia bem baixo no horizonte. Observei na mesma noite M 3 mais alto no horizonte e este me impressionou mais.  Agora comparando as fotos (especialmente as sem drizzle) M5 é claramente maior. Percebi um núcleo bem brilhante com um halo aonde, com visão periférica, piscam algumas estrelas. Estas sim como vagalumes. Um aqui, outro ali e um outro acolá.... Tudo é relativo e o que você vai ver junto a ocular de um telescópio é uma incerteza. Ele é percebido como uma pequena estrela enevoada pela minha buscadora 8X50 mm.
            M 5 se encontra a cerca de 25.000 anos luz de nós. Possui um grande número de variáveis, em sua maioria as típicas, para globs, RR Lyrae (95) registradas até 1975. Seu período médio é de 0,5 dias e a magnitude média destas é 14.9.
Harlow Shapley, em 1917, utilizou as variáveis de M 5 para testar a hipótese de que a velocidade da luz poderia variar levemente em função de seu comprimento de onda. Medindo a máxima tanto em estrelas amarelas como em azuis foi demonstrado que a maior possibilidade de diferença entre estas não poderia exceder uma parte em 20.000.000.000. É aceito hoje em dia (desde então) que não há diferença detectável e que toda energia radiante viaja a mesma velocidade pelo espaço.
            M 5 é um dos mais antigos globulares conhecidos e como a maioria destes é originando nos mais primitivos estágios da formação de nossa galáxia.  Sua idade é estimada entre 10 e 13 bilhões de anos.

              Localizar M 5 é tarefa relativamente simples. Localize Alpha Serpentis. É a estrela mais brilhante da constelação e facilmente localizável a sudeste de Arcturus. A partir dela caminho  entre dois e meio e três campos oculares ( você deve conhecer sua buscadora...) rumo SSO. O aglomerado será evidente mesmo baixo no horizonte e em una noite ruim. No mesmo campo habita 5 Serpentis  uma estrela dupla de 5 magnitude e visivel a olho nu em locais escuros. 

        Espero ter a oportunidade de observa-lo novamente de latitudes mais setentrionais em um futuro próximo.  E certamente vou dar uma nova chance a ele em condições mais favoráveis na próxima janela de observação.... 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

M 62 : O Globular Pulsante

             

             M 62 é o último globular Messier de Ophiuchus a ser apresentado aqui no Nuncius Australis.  Apenas por uma daquelas coincidências que nada tem a ver com leis fundamentais do universo. Até porque este é um dos mais estranhos globulares dos céus. Nas palavras de O ‘Meara estranho e místico são os adjetivos que melhor descrevem este DSO.
            Com uma magnitude de 6,7 e uma extrema assimetria M 62 é passível de ser percebido mesmo a olho nu de locais de céu muito escuro.
            É mais um com o selo “Messier Original”. Foi primeiramente observado por ele na noite de 7 de junho de 1771. Mas somente adentrou seu catalogo e teve sua posição determinada em 4 de junho de 1779   provavelmente já finalizando a segunda versão de seu catalogo que seria publicada em 1780:   
            [Junho 4, 1779 .62. 16h 47 min 14 seg (2510 48´24´´) – 290 45´ 30´´]
            “Nebulosa muito bonita, descoberta em Escorpião (posteriormente ela migrou...Reclamações com a IAU), lembra um pequeno cometa, o centro é brilhante e arrodeado de um suave brilho. Sua posição foi determinada a partir da estrela Tau de Scorpio. M. Messier já havia avistado esta nebulosa em junho 7, 1771 sem ter determinado sua posição. Observado novamente em março 22, 1781”.
            Como todos os globulares de Ophiuchus coube a Herschel resolve-lo em estrelas. Porém desta vez demorou um pouco mais. William nos fala que observou o objeto, pela primeira vez, em 1783 com seu refletor de 10 pés (D.F.) quando com 250 X de aumento disse; “Com 250, uma forte suspeita, quase uma certeza, de que consiste de estrelas”. Posteriormente, em 1785, com seus 20 pés ele confirma suas suspeitas.  Nos fala ainda que M 62 é uma “miniatura” de M 3.
 M 62 é o glomerado Messier mais próximo do centro galáctico e habita a população do bojo galáctico, sem nunca se afastar muito do “centrão”. A forte gravidade na região pode justificar sua forte assimetria. John Herschel e posteriormente Jones e Shapley notaram seu curioso formato. Mais especificamente a metade oeste do aglomerado é muito mais brilhante que a metade leste.
A foto que abre o post foi ampliada no DSS em 3 drizzle. Com cerca de 60 X de aumento você verá algo assim na ocular em um céu bem escuro. 

O ‘Meara nos conta que considera M 62 algo místico não devido a sua assimetria, mas porque seu núcleo parece piscar, tendo assim um efeito hipnótico sobre o observador. Ele nos diz que a mesmo tempo que o núcleo parece piscar ele muda de cor. Após algumas explicações sobre a fisiologia do olho humano e um pouco de psicologia (arghhh!!!) ele batiza o aglomerado como “The Flickering Globular”. A fim de manter alguma mística eu achei melhor traduzir isto para “ “O Globular Pulsante”. Meu coração de pedra não vai tão longe, mas, o aglomerado realmente apresenta um interessante degradê. A tradução “literal” do apelido seria uma piada pronta e de muito mau gosto...
Novamente descubro que Stoyan tende a colocar os globulares na região do centro galáctico muito mais distantes que todas as outras fontes. Enquanto o mundo nos diz 22.500 anos luz de nós ele parte para imensos 34.000 anos luz.  E com isto o aglomerado pode ocupar de 64 a 110 anos luz de latifúndio galáctico. M 62 é um globular que sofreu um colapso de núcleo o que o faz extremamente denso. Apresenta ainda outras características cosmológicas interessantes. Um grande número de variáveis (eram 89 RR Lyrae em 1973!!!) bem como alguns pulsares. Não bastando isto há indícios de um buraco negro de massa estelar em seu núcleo.



M 62 é facilmente localizado a cerca de um campo de buscadora (18X50 mm) a sudeste de Antares. Ele será discreto, mas evidente mesmo em condições suburbanas. Do Rio de Janeiro só o percebi pelo telescópio. Mas mesmo com pouco aumento (40 X) é obvio.  Meu bino 15X70 já faz o truque. 

M 9 , suas Distâncias e a "Relatividade"

      

        Continuando a apresentação dos globulares Messier em Ophiuchus chegamos a M 9. Apesar de ter sido um dos primeiros destes a ser fotografados sua imagem acabou ficando guardada no HD e somente agora cheguei até ele. Estou tentando zerar os objetos Messier que já fotografei e apresenta-los todos aqui no Nuncius Australis antes de entrar setembro. A primavera vai chegar com muito trabalho e como já disse quando tenho tempo não tenho dinheiro para observar e quando tenho dinheiro não tenho tempo. Espero chegar em outubro com esta equação mais bem acertada e poder tirar alguns dias para observar em um local bem escuro...
            Messier descobriu M 9 na noite de 28 para 29 de maio de 1764 (seu annus mirabilis) como “ uma nébula sem estrelas” e “ é arredondada e sua luz fraca, 3´de diâmetro. ”  Quase 20 anos depois (na verdade 19 anos ,11 meses e 5 dias) William Herschel descreveu que este é um DSO é, na verdade, um aglomerado estelar muito rico. E seguindo a ordem natural das coisas o Admiral Smyth, nos anos de 1830, o apresenta de forma mais detalhada:  “Este encantador objeto é composto de uma miríade de pequenas estrelas, aglomerando-se em uma chama em seu centro, e maravilhosamente agregadas, com numerosas estrelas externas sendo vislumbradas”. Lorde Rosse (dono do maior telescópio de seu tempo) menciona: “ Seu formato não é redondo; do lado sul há uma porção exterior separada de sua parte principal por uma passagem escura. ”  Heinrich d´Arrest por sua vez fala em um “aglomerado possuidor de um núcleo quase duplo e destaca uma elongação na direção Norte-Sul.
            Curiosamente nenhum destes jamais falou na elipsidade do último globular Messier que foi apresentado aqui no Nuncius Australis. E M 19 é muito mais alongado que M 9.

            Segundo Stoyan M 9 esta a aproximadamente 14.000 anos-luz do centro galáctico, situado do seu lado mais distante, além do bojo galáctico e a uma distância de nós de 46.000 anos luz. Em todas as outras fontes (e não foram poucas) que consultei este se encontra entre 5 e 7.000 anos luz do centro galáctico e entre 22 e 26.000 anos luz de nós. Pelo se tamanho aparente e brilho é difícil concordar com Stoyan. O que é curioso já que considero seu “Atlas of the Messier Objects-Highlights off the Deep Sky” (Cambridge Press 2008) um dos mais completos e belos trabalhos sobre Messier.  Sua massa total é ao redor de 300.000 sóis (desta vez sem muitas divergências).  21 variaveis RR Lyrae já foram catalogadas em M 9 e uma Cefeida do tipo II. Devido a sua localização no braço mais interno e oposto ao nosso M 9 sofre de muita absorção intergaláctica o que o apaga cerca de 1,5 magnitudes e pode tornar difícil o cálculo de distância. Mas nada tão exagerado como parece supor Stoyan (ele apresenta como justificativa para a distância por ele apresentada observações de algumas desta RR Lyrae feitas em 1999). Na verdade, M 9 é cercado por duas nebulosas escuras que são evidentes quando o observamos com binóculos. (B 64 e B 259). Sua idade é de aproximadamente 12 bilhões de anos.
            Apesar de sua magnitude (no Stellarium e outra fontes é de 8,4) e de diversas descrições falando que M 9 é um objeto Messier difícil eu sou obrigado a discordar. Concordo aqui com O´Meara e acho que sua magnitude é , na pior das hipóteses, de 7,8 (acho que 7,5 é um bom valor).   O observei de Búzios em noite de Lua nova. Em um mundo perfeito seria um céu Bortle 6. E este era pequeno, porém obvio em minha buscadora 8X50mm.  Utilizando o Newton (um refletor 150 mm f8) com 120X de aumento resolvi várias estrelas em sua borda mesmo com visão direta. Apesar de muito comentada não achei sua elipsidade tão óbvia (pelo menos nada comparável a M 19). A foto que ilustra este post é resultado de algumas dezenas de fotos e foi empilhada no Deep sky Stacker. Foi utilizado 3 drizzle de ampliação o que pode dar impressão de uma grandiosidade exagerada. M 9 não é grande, mas seguramente tem 5 a 6 ´de arco de diâmetro aparente. Reza a lenda que telescópios a partir de 300 mm o resolvem na integra. Acredito que é possível com bem menos que isto.  É importante frisar que a maior parte das descrições feitas é de observadores muito a norte. Desta forma são um pouco pessimistas. Sob a maior parte dos céus da Pindorama M 9 passa alto no céu  e ele nos revela bem mais detalhes do que dizem...


            Localiza-lo é fácil. Encontra-se a   cerca de 3o a sudeste de Sabik ou Eta Ophiuchi, uma estrela de 2a magnitude e a segunda mais brilhante da constelação. Outra possibilidade é imaginar uma linha entre Antares e Altair e almejar por um lugar no primeiro terço da viagem. Com binóculos é a melhor forma. O campo é lindo. Sempre que posso visito a região com meu 15X70. Neste M 9 é “quase granular”. E seus "apêndices" lhe dão um aspecto espiral. Quase galáctico. 
            M 9 é supostamente um dos mais apagados globulares Messier. Embora eu ache M 71 e diversos outros que viajam mais baixos no horizonte norte bem mais difíceis. Então aproveite para capturar um “DSO difícil” sem muito esforço. Tudo é relativo ao observador...



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

M 19: O Favorito do Serpentário


                De volta aos Globulares Messier em Ophiuchus e M19 é o meu favorito. Mas só descobri isto recentemente. Comprovando a máxima “que quem já viu um globular não viu todos” M 19 é um globular oblato. Não que trate-se de um leigo a se oferecer para trabalhar em alguma ordem religiosa. Em geometria, oblato é um dos formatos possíveis para um esferoide. Algo como uma abóbora. Uma esfera achatada nos polos. Algo semelhante também a uma elipse.
                M 19 é certamente assim visto da terra. Mas aí começam as dúvidas. Seria apenas uma impressão devido a grande quantidade de poeira entre nós e ele ou resultado de sua proximidade ao centro galáctico e de suas marés?
                M 19 se encontra “do lado oposto” do centro galáctico que nós. A distância deste para o sol é de 28.700 anos luz. E a distância do sol para o centro galáctico é entre 25.000 e 28.000 anos luz. Logo podemos concluir que só o fato de percebe-lo com uma magnitude aparente de 7.5 já é um grande feito. Perceber se sua forma é distorcida ou não pela poeira entre nós já é um pouco demais...
                Hubble em seu “The Realm of Nebula” nos fala que especular é preciso, mas que a maioria das especulações que vem sobrevivendo ao tempo (neste momento ele está falando de universos ilhas e de como foi feliz a especulação de Kant) tem por denominador comum considerarem uma boa ideia o “Princípio da Uniformidade da Natureza”.  E seu formato é bem menos interessante ou esquisito em imagens em infravermelho.
                Mas como aqui só poso observa-lo no espectro visível seu formato é realmente um diferencial e o torna único.  
                M 19 é um Messier Original. Foi descoberto pelo caçador de cometas em 5 de junho de 1764 durante a arrancada para a primeira versão de seu catalogo:
                “Na noite de 5 para 6 de junho, 1764 eu descobri uma nebulosa, situada no paralelo de Antares, entre o Escorpião e o pé direito de Ophiuchus: A nébula é arredondada e não apresenta nenhuma estrela; Eu a observei com um telescópio gregoriano o qual amplia 104 X, e possui cerca de 3´ de diâmetro. Alguém a vê muito bem com um telescópio comum (não acromático) de 3 e ½ pé (D.F.). Observei durante a passagem pelo meridiano e a comparei a Antares; Determinei a ascensão reta desta nébula como 252o 1´45´´ & sua declinação 25o 54´46´´ sul. A estrela mais próxima conhecida desta é 28 da constelação de Ophiuchus, segundo o catalogo Flamsteed, de 6a magnitude.

30X 30 seg ASA 1600 +16 darks DSS sem Drizzle.

Mesma captura submetida ao PixInsight para remover gradiente e depois PS CS 6 para outros ajustes. Bastante artificial . A foto acima desta é uma representação bem mais fiel do que esperar na ocular e ainda assim revela mais detalhes que a observação visual.  Mas nesta foto o caráter oblato esta bem evidenciado. 

                Evidentemente quem resolveu M 19 em Estrelas foi William Herschel. Ainda que o tenha observado com seu telescópio “pequeno” e utilizando 250 X de aumento.
                Curiosamente nenhum dos autores clássicos (Smyth , Weeb , Olcott, Proctor e Cia. LTDA.) falam da elipsidade de M19. A primeira referência a esta localizei no “Celestial Handbook” do Burnham (que é dos anos 1970) e ele nos diz que H. Shapley ter contado duas vezes mais estrelas no eixo maior do eu no eixo menor de M 19. Este é alongado no sentido norte-sul. Já que estamos falando em Shapley M 19 é um aglomerado da classe VIII. Moderadamente concentrado em Direção ao centro. M19 possui  entre 11 e 12 bilhões de anos. Possui 4 variáveis RR Lyrae e quadro Cefeídas. Isto permite um cálculo de distância bem exato.  Com uma área (em fotos) de 17´ este se espalha por uns 140 anos luz de espaço (Diâmetro linear). E possui uma massa de 1.1 milhões de sóis espalhada em cerca de 300.000 membros (este valor pode chegar a 500.000 dependendo da fonte).

                Observando com o Newton (um refletor 150 mm f8) a 120x resolvo estrelas em sua periferia e um centro bem brilhante. Isto em um céu Bortle 7/8. Nestas mesmas condições o percebo de forma bem discreta, mas ainda evidente na minha buscadora de 8X 50 mm. O seu formato é evidente junto a ocular e salta aos olhos nas fotos feitas. Estas são resultado de 30 fotos com 30 segundos de exposição em RAW empilhadas no DSS e posteriormente com o gradiente de fundo melhorado no Fitswork. Sem grandes luxos.  A câmera utilizada foi uma Canon T3. ASA 1600. foram utilizados 16 dark frames para calibragem . Dark frames são fotos feitas com o telescópio fechado. O termo é autoexplicativo. A foto que abre o post é resultado de um processamento que inclui uma ampliação de 2 Drizzle. Já as outras mantém o enquadramento original da captura. 


                Localizar M 19 não é difícil Localize Theta Ophiuchus e ele estará na margem de sua buscadora. O campo é rico em estrelas mas 26 Oph dá a dica. Existem outros globulares próximos. Mas bem mais tímidos...

                Meu glob favorito em uma constelação que é conhecida como o Reino dos Globulares.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

M 3 : O Primeiro "Messier Original"

           

            M 3 foi descoberto por Messier em 3 de maio, 1764. Isto o tornou o septuagésimo quinto DSO a ser conhecido pela humanidade e o primeiro e ser descoberto por Messier. Tanto M1 como M2 já tinham sido observados por alguém antes dele...
            É um desafiador objeto para ser percebido a olho nu e suas estrelas são um excelente teste para telescópios. Diversas fontes (SEDS, The Messier Objects, O´Meara e cia. LTDA.) falam que o mesmo é perceptível a olho nu em céus de cristal (O ‘Meara nos fala de um alvo fácil a partir do Havaí) e de um esfuminho com qualquer auxilio ótico. Já com um telescópio de 100 mm este vai apresentar um núcleo compacto e brilhante envolvido em um arredondado e granulado e manchado brilho que desaparece lenta e uniformemente em direção a suas bordas exteriores; este não resolve o aglomerado, mas mostra algumas de suas estrelas mais brilhantes sob boas condições de transparência e seeing. Um 150 mm resolve os dois terços externos em fracas estrelas sobre um fundo de membro mais tênues do aglomerado. Um 200 mm mostra estrelas através de todo globular com exceção de seu círculo mais interno, o qual é resolvido por aparelhos com mais de 300 mm.
            M 3 é um dos mais brilhantes aglomerados dos céus e é extremamente estudado. Para os habitantes de terras boreais faz par com M 13 como um dos Globulares mais bacanas. Para nós austrais ele não chega a impressionar. Um belo aglomerado, mas que em comparação a Ômega Centauro, Tuc 47 e M 22 o mesmo fica um pouco a desejar...
            Foi um dos últimos globulares do catalogo Messier que observei.  Apesar de conhecer sua história e os elogios rasgados que são comuns a ele nos textos clássicos (e escritos no hemisfério norte...) eu acabava sempre vencido pelo difícil starhoop que conduz até o mesmo bem como pelas condições do horizonte norte em quase todos os meus locais de observação mais comuns. Tanto em Búzios como na Stonehenge dos Pobres (Rio de Janeiro) ele é bastante ofuscado pela poluição luminosa.  
            Conta a lenda que M 3 foi o gatilho para Messier realmente se empolgar e dar a partida em sua busca mais sistemática por nebulosas que pudessem confundir-se com cometas. As datas das observações parecem sustentar esta hipótese.   M 1 foi descoberta em 1758 e M 2 em 1760. Passaram-se 4 anos até a descoberta de M 3 no início de 1764. E até o final do ano Messier já havia chegado até M 40. E depois disto as entradas 41, 42,43,44 e 45 eram objetos já manjados e parece que entraram para este superar o número de entradas no catalogo organizado por Lacaille para a primeira versão do Catalogo Messier.
            Sua apresentação de M 3 também parece dar suporte a história: “ Em maio 3, 1764, quando trabalhando sobre um catalogo de nebulosas, eu descobri uma entre Bootes e os “Cães de Caça” (Cane Venattici) de Hevelius, o mais ao sul dos dois, exatamente entre sua cauda e suas patas, de acordo com as cartas de Flamsteed. (N.T. -Hevelius criou a constelação e as cartas utilizadas por Messier foram os planisférios (verdadeiras obras de arte) desenhadas por Flamsteed.). Eu observei esta nebulosa cruzando o meridiano & eu comparei com Mu Bootis: Sua ascenção reta foi achada como 202o 51´19´´, & sua declinação como 29o 32´ 57´´ norte. Esta nebulosa que examinei com um telescópio gregoriano de 30 polegadas (76,2 cm) de distância focal e com 104 vezes de aumento, não contém nenhuma estrela; o centro é brilhante e sua luz vai se apagando rumo ao exterior. É arredondada e pode ter 3 minutos de arco de diâmetro. Alguém a pode ver em um bom céu com um telescópio ordinário (não acromático) de um pé (D.F.) ”

Sem Drizzle. Visualmente ele ainda é mais discreto. Pelo menos em céus suburbanos ( bortle 6/7)

            William Herschel é o primeiro em resolver o aglomerado em estrelas. Mas cabe ao Admiral Smyth a mais bela descrição do período clássico de M 3 e apresentada em seu “The Bedford Catalog. ” Bedford foi o local de onde Smyth observou (com um refrator de 150 mm) todos os objetos que estão no catalogo Bedford e que compõe o segundo volume de seu ‘The Cycles of Celestial Objects”.  Como quase todos os guias observacionais clássicos ou modernos nunca foi traduzido para a língua de Camões. E assim espero não assassinar o texto em um inglês Vitoriano:
“ Um brilhante e lindo globular congregando não menos que 1000 pequenas estrelas, entre o Cão Austral e o Joelho do Boieiro; este brilha esplendidamente em direção ao centro e possui anexos (outliers) em todas as direções, exceto a sf (South following. Sudeste), onde é tão comprimido que com suas retardatárias, possui um que da figura da luminosa criatura oceânica chamada de Medusa pellucens. Este nobre objeto é situado em um triangulo formado por três pequenas nos quadrantes n.p. (North preceding, Noroeste), nf (north following, NE. e sf (South following, SE) as quais por seu brilho comparativo acrescentam ainda mais beleza ao campo. É próxima a distância central entre Arcturus e Cor Caroli, a 11o noroeste da última estrela. Esta massa é uma daquelas bolas de compactas e cunhadas estrelas cuja as leis de agregação são impossíveis de determinar; mas que a rotundicidade de sua figura nos dá uma completa indicação de um vínculo geral de atração. Foi descoberto em 1764 por Messier que a descreveu como uma “ nébula sem estrelas brilhante e arredondada”. Seu instrumento deve ter sido bastante modesto para não resolver este objeto, e a matéria de arrependimento que os esforços de tal homem terem sido restringidos por seus meios. Posteriormente foi descrita como uma Nebulosa granulada. Mas em 1784, Sir W. Herschel atacou com seu refletor de 20 pés a resolveu “um lindo aglomerado de estrelas, de 5´ou 6´em diâmetro”. Pelo processo de calibração, o qual ele descreveu na integra, ele estimou a sua profundidade como de 243a ordem. ”


            O sistema de calibragem de Herschel tem hoje caráter puramente histórico, mas o significado das palavras é de que M 3 se encontraria 243 vezes mais distante que Sirius.
            Observei M3 em condições bem abaixo do ideal. Já baixa no horizonte noroeste e sob um céu suburbano. Com o “Newton” (um refletor de 150 mm) devo concordar com as possibilidades descritas por quase todos. Sou capaz de perceber um núcleo bem brilhante e algumas estrelas no entorno. Poucas. Com visão direta nenhuma... isto com 120 x de Aumento. Com o auxílio luxuoso da tecnologia e de uma Canon T3 resolvo o objeto como um 200 mm. Creio eu...



            M3 é um belo aglomerado e um belo desafio para observadores no tropico de Capricórnio. Sempre tentei realizar o star hoop utilizando um caminho semelhante ao descrito por Smyth. Um chute culto entre Arcturus e Cor Caroli. Mas só acabei chegando até ele com o a ajuda de Mlle. Herschel (Uma cabeça equatorial HEQ 5 pro) que fez o serviço sozinha.


            As fotos aqui realizadas são resultado do empilhamento de 12 frames de 30 segundos (captura em RAW) mais o uso de 12 darks para calibrar o fundo. O stacking foi realizado no DSS e utilizei o Fits para melhorar o gradiente de fundo. Posteriormente ajustes no Photoshop CS.
            M 3 é um dos mais estudados aglomerados da galáxia. Localizado a 38.800 anos luz do centro galáctico e em direção oposta ao centro galáctico foge um pouco do esquadro. Possui uma rota bastante eclíptica e inclinada em relação ao plano galáctico.  Mesmo distante brilha com magnitude 6.2. Aceitando-se um diâmetro de 18 ´ ele se espalha por uma distância linear de 180 anos luz.  Mas seus “braços gravitacionais” podem se estender por 760 anos luz de diâmetro.
            M 3 possui também uma diversidade incrível de tipos e gêneros estelares. São conhecidas 235 variáveis. 187 RR Lyras (muito comuns a globulares), muitas Blue Stragglers (Gigantes azuis que há muito deveriam ter deixado de existir e que são fruto da interação de 2 ou mais estrelas na história do globular e que assim parecem ter bebido do elixir da juventude, e mais dezenas de outros tipos de variáveis... um rico campo de prova e que assim tem sua idade bastante discutida. As apostas vão de 8 a 20 bilhões de anos. Muito rico em metais (para um globo) M 3 serve como protótipo para os aglomerados do tipo Oosterhoff I.  A classificação Oosterhooff é uma dicotomia entre globulares e um tópico recente na cosmologia destes DSO´s
            M 3 é um belo alvo de interesse visual, histórico, cosmológico e outras cositas más. Uma parada obrigatória...  


sábado, 5 de agosto de 2017

M 23 : O Aglomerado Pérola Negra

        


          Com o projeto “Sul Profundo” (um livro sobre a obra de Lacaille e seu Catalogo de Nebulosas) em seus retoques finais tenho me dedicado muito em organizar minhas observações e fotos do Catalogo Messier. Com quase todos os globulares deste já fotografados me deparei com uma foto perdida em meu HD de M 23. Fiquei feliz em poder mudar um pouco de espécie.  Um belíssimo aberto em Sagitário. A primeira coisa que me ocorreu é como este DSO escapou do escrutínio do Abbe Lacaille em seu pioneiro trabalho realizado em 1751/52. É um alvo evidente com qualquer auxílio ótico e perceptível mesmo a olho nu em céus bem escuros. Tudo bem que habita uma região tão rica da Via Láctea que pode ser considerado uma espécie de primo pobre. Fosse este encravado em quase qualquer outra região do céu e seria cantado em prosa e verso.  Se localiza próximo demais das famosas Nebulosa da Lagoa (M8) e da Nebulosa Trífida (M20) mas, ao contrário de M 21 (que reside bem ao lado destas), longe demais... E desta forma muito vezes é relegado ao esquecimento.  


            M 23 (Ngc 6494) se localiza a noroeste do asterismo do “Bule” que é formado pelas estrelas mais brilhantes de Sagitário. Mais precisamente a 2,5o norte e 3,5o oeste do belo sistema múltiplo formado por Mu Sagittarii.
            Messier descobriu esta joia e a inclui já na primeira versão de seu catalogo de nebulosas publicado em 1771:
            “ Na noite de 20 para 21 de Junho de 1764 , eu determinei a posição  de um aglomerado de pequenas estrelas o qual é situado entre a extremidade norte do arco de Sagitário e do pé direito de Ophiuchus , muito próximo de uma estrela de 6a magnitude , a sexagésima quinta da última constelação ( Oph) segundo o Catalogo de Flamsteed: Estas estrelas são muito próximas umas das outras e não há nenhuma que possa ser vista facilmente com um refrator comum ( não acromático) de três pés e meio (distância focal) e que foi utilizado para estas pequenas estrelas. O diâmetro geral é de cerca de 15 minutos de arco. Eu determinei sua posição comparando o centro com a estrela Mu Sagitarii: Eu achei a ascenção reta de 265o 44´50´´ e sua declinação de 18o45´55´´ sul. ”


            Conforme passou-se o tempo e melhores telescópios foram apontados para M 23 o aglomerado cresceu. Ainda no séc. XVII Herschel já nos fala em “ ... um aglomerado de lindas e esparsas estrelas de magnitudes quase iguais (visível em minha buscadora), se estende por muito além do campo que o telescópio abarca, e que pela buscadora parece se estender por cerca de meio grau. ”
            Flammarion , o astrônomo espirita que psicografou algumas entradas póstumas para o Catalogo Messier, destaca  um círculo de seis estrelas junto a seu centro com “nove estrelas em arco” na porção NE do aglomerado.  
            Burnham já no século XX nos fala em 25´e apresenta as observações de K.G. Jones (1968) onde este vê “três ou mais” das cadeias de estrelas parecem ser porções de arcos concêntricos os quais parecem focalizar a brilhante estrela (mag. 8.23) no lado NE do aglomerado.
            Dados ainda mais atuais nos dizer que M 23 possui 27´. Classificado como um aglomerado I 2 r na escala Trumpler implica que este possui uma forte concentração central, se destaca das estrelas do campo a seu redor (I), suas estrelas possuem uma moderada variação de brilho (2) e é um aglomerado rico com mais de 100 membros (r).
            M 23 possui 176 membros confirmados. A maioria de suas estrelas encontra-se 10a e 13a magnitude e mais de 100 de sus membros estão acima de 13a. Seu raio é algo entre 15 e 20 anos luz e com no mínimo de 220 milhões de anos pode ser um aberto “antigo”.

            Quando observado com binóculos (10x50 mm) percebo o aglomerado como uma condensação de luz com algumas estrelas no limite da resolução. Uma brilhante estrela de magnitude 6,5 9 (HR 6679 ou HIP 87782 ou HD163245) vai se destacar no canto noroeste. Não é um membro verdadeiro do aglomerado. Está a apenas 320 anos luz de nós enquanto M 23 esta a mais de 2100. Com meu 15X70 mm algumas estrelas do aglomerado se resolvem com mais dignidade. Com o “Newton” (um refletor de 150 mm f8) com 60X de aumento diversas dúzias de estrelas se resolvem e o aglomerado começa a ser espetacular.

            Como localizei a foto perdida de M 23 poucos minutos depois de saber da morte do meu querido sambista “bluseiro” e devido a elegância discreta , poética e com um que de maldito deste DSO não resisti e tive de apelida-lo como o “Aglomerado Pérola Negra”. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

M 71: Um Globular "Aberto"

        

       M 71 é um dos globulares Messier menos densos. Dependendo da fonte ele é um globular classe X (escala Shapley). E assim mais denso que M 55. Em outras fontes ambos dividem a classe XI. Da mesma forma que M 55 sua aparência recorda em muito aglomerados abertos extremamente densos com M 11 ou Ngc 2477. Quando comparo sua imagem com estes me inclino mais para a classe X. Cada um com seu cada um. M 71 e M55 não poderiam ser visualmente mais diferentes do que são. 
            Na verdade, sua classificação como aglomerado globular é controversa.  O próprio Shapley o classificou como um aglomerado do tipo “g” (sua categoria para abertos superdensos). Shapley criou escalas tanto para aglomerados globulares como para abertos. A dúvida se arrastou por várias décadas.
            Em 1943 James Cuffey, do Observatório Kirkwood, chegou à conclusão que este pendia mais par um frouxo aglomerado globular. Posteriormente, em 1959, o mesmo Cuffey obteve um diagrama de Cor-magnitude que retornou M 71 para a seara dos abertos.
            Atualmente M 71 é considerado novamente um globular. Mas um “todo estranho”. Sua metalicidade é extremamente elevada (17% dos elementos pesados presentes no sol). Não possui nenhuma variável do tipo RR Lyrae, que são típicas de globs e não bastasse isto tem uma velocidade radial que embora controversa é muito baixa. E ainda por cima possui uma estrela, Z Sagittae, que é uma das poucas gigantes do tipo M conhecida. Até o momento existem apenas mais 5...
            Só por isto ele já seria um alvo de grande interesse. Mas tem mais. Ele é extremamente jovem para um glob.   Com apenas 9 ou 10 bilhões de anos.
            Com a evolução do nosso conhecimento das estruturas estelares no universo o modelo paleolítico de que globulares se formaram nos primórdios do universo e são habitantes exclusivos do halo das galáxias se tornou um pouco duvidoso. Hoje acha-se que a maior parte destes se formou naqueles tempos. Mas acredita-se que imensos aglomerados abertos muito jovens podem vir a tornar-se estruturas semelhante a globulares no futuro. O aglomerado que habita o coração da Nebulosa da Tarântula na Grande Nuvem de Magalhães e Westerlund 2 na nossa galáxia são candidatos ao processo.  M 71 é uma espécie de elo intermediário.

            M 71 é facilmente localizável. Ele habita no centro da linha que liga Gamma Sagittae e Delta Sagittae na discreta, porém obvia constelação de Sagitta. Esta é perceptível mesmo em céus suburbanos encravada no famoso “Triangulo de Verão” (aqui de inverno.Quase primaveril.) que é formado pelas Brilhantes estrelas, Deneb, Vega e Altair.
            Pela buscadora ele é pouco mais que um esfuminho e não o considero um alvo fácil binocular. Diversos autores o consideram obvio. Céus escuros devem ajudar muito neste caso. Como é um aglomerado pouco denso seu brilho de superfície é baixo e seu núcleo é a única parte que percebo claramente com minha buscadora 8X50 mm. Utilizando um refrator de 70 mm não chego a resolver estrelas. Mesmo com o “Newton” (150 mm f8) é necessário o uso de visão periférica. Embora não o tenha observado alto no céu e o horizonte norte me ser desvantajoso.
            M 71 é uma descoberta de Philippe Lois de Chéseaux em 1746. Mas com seu trabalho levantamento de nebulosa não foi publicado até o trabalho de Bigourdan o tenha feito público em 1892 o objeto foi redescoberto de forma independente por Johann Gottfried Koehler em algum momento entre 1772 e 1779, em 28 de junho de 1780 por Méchain (“sócio de Messier) e finalmente observado por Messier em 4 de outubro de 1780.
            A descrição de Chéseaux é bastante completa e interessante: “ Finalmente uma outra nebulosa que nunca foi observada anteriormente. É de uma forma completamente diferente das outras. Tema forma perfeita de um raio, ou de uma cauda de cometa. Com 7´ de comprimento com 2´ de largura. Seus lados são exatamente paralelos assim como seus dois extremos. O centro é mais esbranquiçado que as bordas...”
            Messier por sua vez diz: ” Nebulosa descoberta por Méchain em 28 de junho 1780, entre Gamma e Delta Sagittae ... Sua luz é bem fraca e não contém nenhuma estrela. Qualquer luz a faz desaparecer ...”  Sua descrição me leva a crer que ele não tenha utilizado seu melhor telescópio na observação (Um Dollond 90 mm).

            A ciência (de fato) tem uma qualidade fundamental. Um dogma que é o contrário do dogma. Ela não é estática. Suas verdades podem mudar. Seja por observações, experimentos, tecnologia e/ou todos acima e mais alguns... A definição de aglomerados globulares está em constante evolução. Bem como o que se supõe serem suas origens. Atualmente sabe-se (ou achamos saber) que diferentes globulares podem ter histórias cosmológicas distintas. O que os separa de galáxias destripadas ou de abertos vai variar de globular para globular. Parâmetros são parâmetros e só.
            M 71 é um excelente exemplo disto. Mesmo hoje ainda cabe uma dúvida (o motor da ciência) se este se encaixa melhor em um aberto denso e antigo ou em um globular frouxo e jovem. Diversos parâmetros indicam para um lado. E outros para o outro. Embora minha opinião não importe em nada (opiniões não fazem parte da ciência) eu acredito que trate-se de um Globular. Burnham no seu mais que clássico “Celestial Handbook” toma uma acertada decisão, quando o apresenta na tabela que inicia a apresentação dos diversos objetos que ele considera cosmologicamente significativos em cada constelação, de dizer que M 71 não possui uma classificação definida. (Class not Certain). Seu livro é de 1978.
Burnham Celestial Handbook.

            Ele  nos diz que “M 71 é um daqueles incomuns aglomerados cuja a classificação é alvo de dúvida”. Levanta ainda a dúvida se este foi, de fato, observado por Chéseaux e nos diz que a primeira observação deste é provavelmente a realizada por Koheler.
            Coube (como quase sempre) a Herschel resolver o aglomerado em estrelas.  “Muito grande... um rico aglomerado, com estrelas de 11... 16a  magnitude.
            Caminha a ciência e Stoyan em seu também clássico “Atlas of the Messier Objects” (2008) assina ‘ Aglomerado globular”. E associa algumas características deste não só a M 68 (um frouxo globular “strictu sensu”) como também a Ngc 104 (Tuc 47). Curiosamente M 104 é muito mais denso e poderia ter como origem uma galáxia destripada. E espertamente nos diz que o objeto embora seja considerado atualmente um globular bonne fide é ainda alvo de alguma discussão.
            M 71 foi um dos globulares Messier que mais resistiram a minhas investidas. Diversas vezes fracassei em sua busca. Embora , teoricamente, seja um fácil “Starhoop”. É , sem dúvida, um DSO digno de nota e visita.
            Em céus poluídos é um alvo que considero difícil e por isto mesmo alvo digno de caça.
2 X Drizzle no DSS + Gradiente no PixInsight+ Photoshop CS 6

            Suas fotos revelam muito mais que o que observo na ocular. A que abre este post foi resultado de 19 frames com 30 segundos de exposição utilizando ASA 1600.  A foto acima é resultado da mesma captura. A câmera utilizada foi uma Canon T3 sem modificação e o Telescópio foi o Newton (refletor 150 mm f8) montado sobre Mlle Herschel. (Uma equatorial HEQ 5 pro).

            Um globular “aberto”...