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segunda-feira, 2 de abril de 2018

Ngc 5460: O Aglomerado de Moria


  


              Ngc 5460 é um aglomerado aberto exemplar. Serve como exemplo. Exemplo de como a astronomia amadora é uma forma de paixão. Na escala dos amores a paixão é um representante quase doentio. É o amor de Moria.  
                Um membro dos objetos de céu profundo que só será conhecido por aqueles tomados de um prazer quase obsessivo (quase é para parecer que ainda há alguma sanidade nesta busca).
                Mas existe um consolo. Descobri que além de mim outros já foram até lá e acharam este digno de nota.
                Observo sempre sem companhia. Mesmo que cercado de outras pessoas (no mais das vezes). E nenhum deles acharia tão fascinante este modesto ajuntamento de estrelas em formato bem delicado. Na verdade, adjetivos como delicado, colorido, charmoso e etc... não seriam sequer imaginados por um curioso.
                Em geral quando convido alguém, que não é do ramo, a olhar pela ocular este poderá se encantar com Saturno, Júpiter, a Lua e quiçá as Plêiades. Mas depois do segundo ou terceiro DSO o camarada perde o interesse. Isto quando realmente vê alguma coisa. O leigo olha, mas não observa. E telescópio não é binoculo. Demanda tempo para se aprender a perceber algo. DSO´s que demanda visão periférica, técnicas de respiração e esforço não são para qualquer um. Os americanos têm uma expressão que nunca consegui traduzir de forma apropriada, mas que descreve bem a situação. “Deep Sky die-hard”.
                Felizmente ao longo da história sempre houveram aqueles que levaram isto mais a sério e de forma não só compulsiva como sistemática.
                 E assim se chegou até Ngc 5460.
                James Dunlop é alguém que me acalma. Ao observar sua obra percebo que mantenho meu amadorismo dentro das baias da sensatez. Este inglês foi baixar na Austrália no século XIX como um “handyman” (faz tudo) de um nobre que era o chefão da astronomia lá por aquelas bandas. Haviam dois deles. Ele mesmo (o nobre inglês) e um astrônomo de relativo renome alemão. Acabaram brigando e Dunlop acabou fazendo (por um período) o trabalho que seria dos dois. Depois o alemão volta por cima da carne seca e Dunlop acaba com um observatório de fundo de quintal e com um telescópio feito por ele mesmo. Sem montagem equatorial e com um tubo pendurado em uma arvore. Podia observar os objetos durante sua passagem pelo meridiano (o melhor momento) ou um pouco para oeste ou para leste. Reza a lenda e a ótica que seu telescópio tinha um poder de fogo semelhante ao do “Newton” (meu Skywatcher 150 mm f8). Lógico que os céus eram bem mais escuros dos que costumo observar e ele bem mais “Caxias” do que eu...
                De volta a minha obsessão eu observo quando posso, de onde posso e em qualquer condição de céu. Durante muito tempo ouvi certos dogmas observacionais.
                - Tu não observarás nada da cidade grande.
                - Tu não observarás na lua cheia
                - Tu deverás ir a um clube de astronomia.
                - Tu gastarás rios de dinheiro para fotografar os céus.
                - Etc...
                Como tenho horror a dogmas e nunca quis ser escoteiro fiz disto tudo uma grande bobagem. É verdade que observarás mais e mais rápido se ouvir estes conselhos, mas talvez não observes nada...  Quanto a gastar um mar de dinheiro para fotografar os céus é bom lembrar que todo o catalogo Ngc foi fruto da observação visual. E é possível fotografar (boa parte dele) sem abrir falência. Embora o custo Brasil seja ridiculamente alto. E que nem só de DSO´s viva a astrofotografia.
                Visitei o aglomerado como parte da segunda parte de meu projeto “O Sul Profundo”. Neste quero apresentar os levantamentos de Lacaille (Já realizado e disponível na Amazon  no link:    https://www.amazon.com.br/dp/B0778XNDNM/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1510189139&sr=8-1&keywords=O+Sul+Profundo) , Os “100 de Dunlop” (os 100 objetos mais interessantes de Dunlop) e posteriormente um apanhado sobre as descobertas de John Herschel.
                Como parece ser evidente o primeiro a colocar os olhos em Ngc 5460 foi Dunlop. É a entrada de numero 431 de seu catalogo (D 431). Foi observada na noite de 7 de maio de 1826.
                “Uma curiosa curva de pequenas estrelas, de quase igual magnitude, duas estrelas de 7a magnitude ao leste.”
                A estrela dupla “ao centro do aglomerado é um de seus traços mais marcantes e cantada em verso e prosa. John Herschel é o próximo a conhecer a peça. Este as cataloga como h 3555. Este nos diz o seguinte em sua observação do aglomerado;
“Uma região de grandes e brilhantes estrelas de 8,9 e etc... magnitude. Um aglomerado bem disperso. Colocadas estas em um grupo brilhante, um dos quais uma estrela dupla da classe III. (h 3555)”.
                Pela descrição podemos perceber que o telescópio de Herschel (irmão gêmeo do que seu pai usou para descobrir Urano) era muito mais poderoso do que o de Dunlop e que o “Newton”.
                Observei Ngc 5460 em condições extremas. Casa cheia, todas as luzes acesas, as beiras de uma crise conjugal e  na lua cheia. Não o percebi pela buscadora e para diferencia-lo de um campo estelar  em meio ao campo com minha ocular de 40 mm foi um belo exercício. Com a 25mm ele começa a ser um aglomerado e com a 17mm o é.
                Na verdade, fiquei surpreso de não ser mais conhecido. É um delicado, colorido e charmoso aglomerado. Não é à toa que foi incluído por O´Meara em seu “Southern Gems”. Fiquei um pouco triste por achar que ninguém o tivesse o incluído em uma lista observacional e que assim ele se qualificasse também para o “Projeto Tudo que Existe”. Este foi remodelado e agora inclui apenas DSO´s que não pertençam a nenhuma lista observacional moderna (anteriormente era a impensável ideia de fotografar todo o catalogo Ngc...). Basicamente inclui objetos que tenham escapado do mais obsessivo que eu James O´Meara e sua série “Deep Sky Companions”. Apesar de parecer improvável existem vários objetos dignos de nota e ao alcance de telescópios “populares” que escaparam dele. Especialmente ao sul do equador celeste. Ao apresentar Ngc 5460 no DSO Browser só existem três fotos. Duas são minhas e a outra é do Projeto NGC /IC. Pouco visitado mesmo... Uma tremenda injustiça.


                Ngc 5460 é um aglomerado aberto de idade intermediaria (158 milhões de anos) localizado em Centauro. Não muito distante de Omega Centauro. Cheguei até ele pior acaso. Em noite de lua cheia e querendo visitar alguma novidade o achei no Stellarium e me pareceu factível em noite que tudo estava lavado e quase invisível. Mesmo M 35 era quase nada...
                A descrição do Stellarium é um pouco “exagerada”. Ele fala em forte aglomeração central, grande faixa de luminosidade dos membros do aglomerado e aglomerado moderadamente rico com 50 a 100 estrelas. É tudo mentira. A descrição de Dunlop é para mim perfeita. E a estrela central de Herschel é a cereja do bolo.

                Com o “go-to” do telescópio um pouco errante e a lua cheia localiza-lo foi um pouco mais difícil que imaginava. A grande “cola” é dar uma namorada no Stellarium e localizar Zeta Centaurus. Ou Alnair ou ainda Baten Centaurus. São todas a mesma pessoa. Ela será percebida na buscadora sem o uso de tortura ou a convocação do Bolsonaro.
                O aglomerado em si apresenta três grupos que se destacam do resto da paisagem e dão seu caráter aberto de forma bem evidente. A dupla central é muito legal. Esta compõe com mais cinco estrelas a parte mais central deste com algumas parentes um pouco mais afastadas (talvez por isto a ‘forte aglomeração central” descrita no Stellarium.), um triangulo de estrelas de magnitude semelhante a noroeste e uma estrutura trapezoidal com outras 4 estrelas (incrível.Um trapézio formado por 4 estrelas. Queria ver só com 3...) ao sul da curva que caracteriza a obra.
                As fotos aqui apresentadas foram empilhadas no Deep Sky Stacker (uma com 2X drizzle e outra com os frames completos) e “reveladas” com o auxilio do Fitswork para a remoção do gradiente de fundo com posterior visita ao Photoshop. Costumo usar uma rotina no Photoshop para destacar as estrelas. Mas foi necessário algum ajuste para neste processo não “emendar” a dupla tão característica no centro do aglomerado.  Como sou um astro fotografo “purista” (e que não gosta do dogma “dinheiro”) busco evitar muito processamento. (Purista ou preguiçoso?)


                Olhando para o desenho do O´Meara acho que fui bem honesto na composição. Gostaria de ter o talento para desenhar os DSO´s que observo. Assim poderia ser fiel ao que observo. Mas sou uma negação para o desenho e mesmo minha letra é pior que a de médico. Com o advento do computador me tornei praticamente um analfabeto a mão livre...
                Ngc 5460 é uma das joias menos conhecidas da coroa austral. Vale a pena a visita.   

domingo, 1 de abril de 2018

Astrofotografia, a Pascoa , uma Tamaron 70-210 mm e Softwares


              


             Semana Santa é sempre lua cheia... A Pascoa acontece no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio. Forte caráter astronômico e um mal momento para se observar. Não bastasse isto minha querida cunhada montou um bar de frente para o local onde sempre observo em Búzios. Para piorar isto colocou luzinhas de natal para decorar a fachada. E uma “mirror ball” na varanda dos fundos. Gosto não se discute. Se lamenta.  Nenhum governo ainda se dignou a promover uma “Bolsa Observatório”.
                Sem saber da radicalidade da reforma fui para Búzios na vã esperança de conseguir ao menos capturar M 68 e 53. Assim ficaria faltando fotografar M 72 para completar minha coleção de Globulares Messier.
                Na quinta feira  santa chego ao meio dia na Armação com os pés sujos. Pego uma praia com meu menor e volto no fim de tarde cheio de esperança. Quase acreditando em ressureição. Quero realizar um alinhamento polar “a sério”. Utilizando a técnica fotográfica.
Alinhamento Polar

                Esta consiste em com a câmera já montada no Newton (e com o eixo polar apontando grosseiramente para o sul celeste) realizar exposições de trinta segundos com telescópio apontando para o equador celeste. Durante os primeiros 5 segundos de exposição você nada faz. Depois desloca este para o oeste pelos próximos 15 segundos e para o leste os segundos restantes. Caso seu alinhamento esteja correto o resultado será uma linha. Caso contrário um “V”. Sendo um “V” ajuste a cabeça nos parafusos de Azimute até que o “V” se transforme em linha... É bem mais preciso que o método “preguiçoso” e menos chato que o drift. Para ajustar a altitude se faz o mesmo procedimento apontando-se para o horizonte leste ou oeste o mais baixo possível. E evidentemente se ajusta a cabeça no parafuso responsável pela altura. Quem quiser entender melhor o processo pode procurar por um vídeo do Compassi no You Tube. Nesta época do ano implica em apontar-se o telescópio para uma região com poucas e tênues estrelas. A Pascoa é um saco. Só salva o feriado prolongado.  A Aporema de outono vai ter que esperar. Tenho um trabalho começando dia 5 e que deve ir até 15. Há possibilidades de que este aconteça em Paraty. Será perfeito.

                Logo de cara a montagem não funciona com a câmera sendo operada pelo APT. Vai ser manualmente mesmo. Quando estou quase lá as nuvens entram rasgando e deixo a precisão para lá. Já fotografei com alinhamentos bem mais toscos. E com a lua cheia, o novo bar e as nuvens rondando não tenho motivos para grandes esperanças. Já tinha voltado ao estado de descrença que me é normal...
                M 53 é um sonho impensável. Não consigo sequer ver Alpha Coma a olho nu. A lua cheia é a maior inimiga que um DSO pode encontrar. Nem mesmo a iluminação das pedras do Arpoador chega a ser um inimigo tão figadal.
                Para dizer que nada aconteceu nesta noite observei Castor. Esta eu nunca tinha dividido tão facilmente. Com apenas 45 X de aumento percebia ambos os componentes nos momentos de seeing estável. Com a Barlow era fácil. Outra dupla que compareceu foi Cor Caroli. Com e sem Barlow . Muito baixa no horizonte sofreu bastante com a instabilidade da atmosfera.
                Segue a noite e como dizem por aí “Tá no inferno abraça o Diabo”. Faço fotos da lua cheia de todas as formas possíveis. Com o telescópio e utilizando a minha Barlow OMNI da Celestron. Esta é uma “2X”. Curiosamente amplia mais que a minha “2X” da Skywatcher que veio junto com o Newton. Atualmente uso a carcaça da Skywatcher com a lente da Celestron. (a OMNI não tem rosca apara o adaptador da câmera...).  Faço também sem Barlow. Depois com a minha lente 300 mm da Pentax e com uma 70- 210 mm da Tamaron. Com nuvem e sem nuvem. superexposto e sub exposto. Etc., etc. e etc....



                Para não dizerem que não falei de flores faço algumas imagens da Caixinha de Joias de Herschel (Ngc 4755) e de Ômega Centauro.  
Caixa de Jóias (Ngc 4755) 7 x 30 Seg. + 4 darks (Raw) -DSS 2X Drizzle+Fits+Photoshop

Sem drizzle

Omega Cen- 10X30Seg- DSS 2 drizzle+PixInSight+PS+Noiseware. Esta foto foi submetida a varios processos em todos os softs citados. 

                A primeira noite se encerra junto com a   garrafa de Wiborowa. Não poderia deixar de comentar que houve um show da Anita na Armação para coroar o fracasso. Felizmente longe o suficiente da casa para não ter que escutar nada...
                Vai começar a segunda noite. Sexta da Paixão. Ao contrario de Cristo continuo vivo apesar da vodka. Tudo no lugar e a cabeça quase alinhada. O projeto da noite é modesto. Quero refinar o alinhamento polar pela técnica nova e só. O resto será lucro. Observar (e fotografar) na lua cheia é apenas um exercício. Mas como já dizia o poeta “homem é o exercício que faz.”
                A realizar o teste para o alinhamento para o azimute eu não poderia ser mais feliz. Estava cravado. (Aqui em Búzios eu sei aonde esta o sul de cor e salteado...). O topografo da região foi pai do caseiro e os lotes tem os muros alinhados no sentido Leste-Oeste com uma precisão de segundos. Pelo menos na Rua da Linguiça...
                Depois de alinhar o Synscan utilizando Acrux e Sirius e este se revelar bem preciso começo a observar em uma das piores condições que já o fiz. O Bar todo aceso, a cunhada fazendo bacalhau, a lua com 99.5% do disco iluminado, a pequeno febril e uma cachorrinha Chihuahua histérica infernizando a todos.  Mesmo assim aponto para Ngc 2516 no intuito de revisitar o maior número possível de “Lacailles” possíveis durante a noite. Com “O Sul Profundo: o Catalogo Lacaille” aberto sobre a bancada do bar planejo uma minimaratona para a clara noite. Os DSO´s descobertos pelo Abbe (em sua maioria) são dos poucos capazes de sobreviver a tanta agressão. Faço poucas exposições e percebo que o acompanhamento está muito bom. Apesar das “full conditions” (um termo inglês utilizado no montanhismo e que se refere a escaladas realizadas com muito frio, neblina, neve e sobre terreno desconhecido, mal protegido e pouco confiável) Ngc 2516 apresenta estrelas redondas e alguma cor. É um dos mais ricos aglomerados abertos dos céus.  Possui diversos apelidos: O Aglomerado do Corredor ( Sprinter cluster) e o Presépio Austral são os mais famosos.
Ngc 2516- 6X30 seg -DSS+Fits +PS. Pouquíssimo tratamento aplicado.

                Dedicarei boa parte da noite me dedicando a caça de estrelas duplas. Afinal é Lua mais que cheia... E estas são resilientes. Conheço uma nova e muito interessante. 24 Coma.  Esta com sua componente primaria sendo uma gigante amarelada e sua parceira uma estrela de um pálido branco azulado. Belo contraste mesmo muito próxima a lua. Se separou com uma Barlow 2x e uma ocular de 17 mm. Separação 20.3´´.
                Depois tento 35 Coma.  É uma binaria visual. Os membros foram resolvidos com ótica adaptativa.
                Algieba é outra divertida. Também com a Barlow e a 17 mm. Com uma separação de 4´´ não a consigo fotografar. Ela se apresenta como uma estrela alongada. Não se separando de fato. Bem no limite de Dawes do meu conjunto óptico.

Cor Caroli com uso de Barlow 2X -Frame unico

Sem Barlow


                Não poderia faltar Cor Caroli. No limite do conjunto ótico sem o uso de Barlow.
                De volta aos DSO´s visito um apagado M 35. Este me prepara para o que me espera. Mesmo aglomerados bem claros serão discretos visualmente durante esta noite. Com o Synscan (sistema de localização da cabeça equatorial. Também chamado de “go-to”.) um pouco errante é bom manter o nível de expectativa baixo.
IC 2488- 9 X 30 Seg- DSS+PixIn Sight 1.0+PS(varios processos)+Noiseware. 

                Retorna a Lacaille e visito IC 2488 e IC2391. O primeiro bem discreto visualmente. Com a ocular de 40 mm parece apenas um agrupamento casual. Mas como é velho conhecido apelo para a 17 onde este se apresenta descolorido, porem mantendo seu caráter de aglomerado evidente. Faço pouco mais de 10 fotos. Murphy é um babaca. Em noite de Lua o acompanhamento se apresenta muito bom e consigo exposições de 45 segundos com excelente aproveitamento. IC 2391, A pequena Cassiopéia, é muito claro e evidente. Faço apenas uma exposição com este já cruzando o meridiano e com o Newton (um newtoniano 150 mm f8) quase tropeçando no tripé.
IC 2391- Frame unico. Apenas convertido de Raw para Jpeg no PS. 

                Quando visito Ômega Centauro perco qualquer esperança com relação a M 53 e M 68. O gigante é pouco mais que um fantasma. Mas faço pouco mais de uma dezena de exposições deste e com um foco raro para meu focalizador de pinhão e cremalheira.
Ngc 5460- 10X30 seg- DSS+Fits+PS

                Resolvo passear por Centaurus e acabo conhecendo um belo e discreto (em noite de lua cheia...) aberto pouco visitado. Ngc 5460. Muito apagado visualmente requereu uma navegação um pouco mais elaborada para se render.  Faço muitas fotos. Este merece uma nova visita em noite mais digna. Muito delicado e totalmente fora do circuito. Um clássico do “Projeto Tudo que Existe”. Este foi fruto da melhoria da qualidade de vida no Observatório. Com todos na Armação fiquei eu e meu pequeno em casa. E assim a vizinhança baixou um ponto na Escala Bortle. Fechei o Bar, apaguei tudo que dava e coloquei o APT (software para astrofotografia) para funcionar. Deixei o computador fazer o trabalho sujo da captura e fiquei um pouco com meu filho levemente febril. Definitivamente preciso fazer mais isto. Com um alinhamento polar bom consigo 45 segundos de exposição sem acompanhamento. Por cerca de 10 fotos. Depois um leve ajuste e mais um round agora apenas com 30 segundos de exposição.
M 7 -6 X 30seg -DSS Pix+PS

                Para finalizar uma rápida captura de M 7 que vai brotando por trás da aroeira. E claro, a lua com 99.6 % do disco iluminado.
                Sábado de Aleluia chega a outra cunhada com o marido francês e mais duas crianças. Churrasco. Não é motivo para entoar-se o Gloria. Para não aproveitar nada da temporada Eustaquiana monto Mlle. Herschel (minha montagem equatorial HEQ 5 pro) com a Canon e sua 18-55 mm “de fábrica". Em meio as carnes e os vinhos farei algumas fotos de caráter mais artístico. Uma espécie de Fairnbarns dos miseráveis. (Espero que ele me perdoe algum dia por isto.) Uma pena que com a lua cheia exposições muito longas sejam inviáveis. Com o alinhamento polar bom conseguiria exposições de 2 minutos facilmente com uma distância focal tão curta. Não sou muito de fazer composites. Mas tenho algum material para treino.
1 Frame 30 seg . Cruzeiro -PS - Percebam que a arvore é iluminada por uma luz fluorescente verde por baixo. Astrofotografia com luz de compensação de filme do Zé do Caixão... É dura a vida de um astrônomo amador.
                Acabo encurtando as exposições devido a uma noite mais nublada. E acabo aproveitando para testar as potencialidades de uma Tamaron 70-210 mm f4 que herdei. Faço varias fotos com a mesma e ela se revela bem superior a Vivitar 70-150 mm f3.8 que reformei recentemente. Não é uma lente Zeiss mas vai dar para o gasto. Meu sensor está precisando passar por nova faxina.  Infelizmente com o churrasco e com a casa muito cheia a casa se encontra muito clara. Luzes de todas as cores acesas e descubro que meu irmão e minha cunhada tem medo de escuro... Em uma varanda com pouco mais de 25 metros quadrados existem 10 lâmpadas e todas sempre acesas. Vergonhoso.
Tamaron Single frame- PS.-O sensor esta imundo...

Mimosa e Ngc 4755 -Tamaron @ 210 mm - 6X 30 seg- DSS+Pix+PS
Rubiacea.

                Mas a Tamaron localiza Ômega Centauro e a Caixa de Joias e faz interessantes composições. É bom fotografar em f4. Mas com ela toda aberta percebo algum cromatismo ao redor da Mimosa (Beta Crux). A lente mantém o foco conforme mudo a distância focal. Ponto para ela. Usando o APT faço varias brincadeira com um plano de captura para 10 fotos com 40 e depois 30 segundos de exposição. Apesar de nuvens passageiras muitas fotos são aproveitáveis. Infelizmente as fotos com a Tamaron esta noite foram capturadas apenas em Jpeg. Uma distração minha atribuída ao vinho. 
                Para encerrar a temporada apresenta-se um enorme halo lunar que vai se formando aos poucos. Minha 18 mm é pouco para abarcar sua imensidão com todas as honras necessárias para tamanho espetáculo.  Mas consigo o registro. Um halo enevoado e diferente.

                Resta empacotar as coisas e aguardar a manhã seguinte para esconder os ovos e depois voltar para Rio. Infelizmente as crianças estão em aula e a maior não pode mais faltar por razões tão mundanas. E o halo e o vento me dizem que o tempo vai nublar.
                Depois disto ainda é necessário “revelar” as fotos. Especialmente quando sua captura acontece em RAW (e deve acontecer) são muitas as possibilidades. As vezes penso em primeiro “brincar” com as imagens a serem empilhadas uma a uma no Camera Raw do Photoshop e depois empilhar estas “pré-tratadas”. Mas sempre me dá uma enorme preguiça e nunca o fiz...  Seguindo o curso normal todas as imagens de cada um dos alvos vão passar pelo DSS para serem “stackeadas” (adoro poder assassinar duas línguas simultaneamente com uma única palavra...) e posteriormente visitar ou o Fitswork ou o PixInSight para a remoção dos gradientes de fundo.  Reparei que o Fits, embora mais rápido e fácil, adiciona ruído as fotos após a remoção deste. O Pix, que possui uma interface mais complexa e é mais trabalhoso, apresenta   resultados melhores. Depois disto tudo ainda visitarão o Photoshop para os ajustes finais. E poderão ainda ir ao forno no Noiseware, mas este é um versão para lá de genérica e não chega a mudar muito as coisas. Geralmente eu realizo um stacking inicial no DSS com os frames integrais. E depois um segundo Stacking onde utilizo o drizzle para conseguir imagens mais detalhadas e ampliadas. Evidentemente que alguns DSO´s não nasceram para o processo de drizzle (Ngc 2516 é um exemplo clássico) pois ocupam uma região maior do frame do que a área admitida para o drizzle.   Abertos, em geral, (uma opinião pessoal) se descaracterizam um pouco no procedimento. Já Nebulosas Planetárias se beneficiam do mesmo.
                Ao longo do post vocês puderam observar algumas destas diferenças. O workflow das fotos finais está descrito sob cada foto.
                Que venha a lua nova. Estou louco para poder atacar o aglomerado de Virgem na Aporema adiada de Outono.  E capturar logo M 53 e M 68.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Vivitar 70-150 mm f 3.8: Não façam o que eu faço e nem façam que eu digo



         A astronomia é uma ciência de muitas ciências. Na busca pelo entendimento do comportamento do céu a humanidade acabou por desenvolver a geografia, todos os ramos da física, da química e arrisco dizer que todas as ciências ditas humanas tem um pé no céu. Na verdade, não gosto muito desta dicotomia. Ao contrário de vários colegas, que dividem as ciências em exatas e em humanas, eu acredito que todas estas sejam humanas. Até que me apresentem alguma outra espécie capaz de fazer ciência e buscar entender leis universais ou não continua a Ciência sendo uma tarefa humana.  Estou junto com Humboldt ...   
Como nos disse Serviss em seu “Round the Year with the Stars”: Certamente não há nenhum outro campo da contemplação humana tão maravilhosamente rico como a astronomia! É tão fácil de ser alcançada, tão sensível a cada humor, tão estimulante, inspiradora, divertida e infinitamente consoladora. Nem todo mundo pode ser um químico, geólogo, um matemático, mas todos podem ser e devem ser, de uma forma modesta e pessoal, um astrônomo. Já que olhar as estrelas (star-gazing) é o grande remédio da alma”.
Mas o mais divertido na pratica astronômica é que você aprende muitas coisas sobre muitas coisas... Meu avô, que era advogado, advogava (sem medo da redundância...) que seu trabalho era estimulante pois a cada caso ele era obrigado a aprender sobre outros saberes. Em um famoso desmoronamento, que levou a muitas mortes, seu cliente foi responsabilizado pelo infortúnio. Depois de muito estudo e de praticamente tornar-se um engenheiro (segundo conta a lenda) ele descobriu que seu cliente (que era o calculista) havia sido levado ao erro pela geotécnica. Substrato errado, conta errada... Cliente absolvido.
A astronomia é muito desta forma para mim. Me faz torneiro, ótico, marceneiro... Apesar de admitir que o neófito deva procurar por outros astrônomos, buscar por um clube de astronomia (em tempos pré internet isto era ainda mais valido...) e etc... eu mesmo nunca o fiz. Sempre fui muito autodidata em meus hobbies. E mesmo em meu trabalho. Me formei em geografia e trabalho com elétrica móvel. Aprendi trabalhando e tomando muito choque. Felizmente sobrevivi. Nunca fui muito afeito a nada que cheirasse a escotismo (embora tenha chegado a escalar bem na juventude. Sobrevivi a isso também.)
O mar de ruido é fruto dos fungos. A imagem lavada idem. A foto foi uma unica exposição de 30 seg em ASA 1600. M 42 merece melhor sorte...

Embora as luzes do Vidigal não sejam um adversário a altura percebo  uma melhora evidente. A foto tremida é culpa minha e não da lente...


Desta forma quando ganhei diversas lentes de “herança” e descobri que uma delas se encontrava coberta de fungos achei que deveria procurar por um técnico para limpa-la. A forma como descobri que a mesma estava coberta de fungos já foi atípica. Bastaria olhar através da mesma contra uma lâmpada e a “teia” densa e branca seria mais do que obvia. Afinal todo o obvio é ululante.  Mas não foi assim.  Primeiro fiz uma montagem de carpinteiro para minha câmera. O jeito mais tosco que conheço para se montar uma câmera em Pigback em um telescópio. Este o Galileo. Que por sua vez é o telescópio com o bridge plate mais tosco que conheço. Apesar de tudo a foto abaixo prova que uma esquadria e pedaços de sarrafo permitem a pratica da observação e da astrofotografia. Para a montagem da câmera em Pigback foi acrescentado ao “embrulho” um nível de carpinteiro, um parafuso e duas porcas. Ao testar as lentes em uma noite maravilhosa percebi que a Vivitar 70-150 mm que havia ganho deixara muito a desejar. Aí então a apontei para uma lâmpada...

A lente que esta montada na foto não é a Vivitar. É uma Pentax 300 ED . Felizmente veio em excelente estado e sem fungos.. Não teria a coragem de fazer o mesmo que fiz com a Vivitar...  

Como já disse sou um autodidata. Além disto um autodidata “duro”. E pior... Um autodidata duro e pão duro.
Desta forma ao fazer uma rápida consulta a um amigo e este imaginar que a limpeza da lente não sairia por menos de R$ 300,00 eu comecei a pensar se não era hora de aprender como limpar lentes. Ou jogar ela fora. Você a vai encontrar por aí a venda por menos que isto... Na Amazon encontrei por 20 dólares e no Mercado Livre tem gente pedindo entre 165 e 500 reais. É uma lente “pé de boi”. Foi feita pela Vivitar entre 1976 e 1979. Foi um sucesso comercial. Com um multiplicador ela vira uma 300mm e mantém f 3.8. Apresenta bastante cromatismo. Especialmente em f 3.8. Se você busca por uma lente deste tamanho ela terá excelente custo-beneficio. A minha veio com uma baioneta para Pentax K. Mas é fácil conseguir adaptadores para Nikon e Canon. Ela vai ser uma lente totalmente manual. 
A grande maioria das pessoas vai lhe dizer que você não deve limpar suas lentes, espelhos ou qualquer coisa de seu equipamento astronômico. A menos que seja realmente muito necessário.  Pode ser verdade..., mas já limpei meu espelho primário e secundário. Continuam tão bons quanto novos e definitivamente melhores do que quando estavam sujos. Já descobri que na astronomia, assim como na vida, muitas pessoas dão conselhos sobre o que nunca fizeram E não fazendo nunca erraram.   E com uma lente condenada nas mãos era uma excelente oportunidade para se errar...

Camera Wrench

Em uma rápida pesquisa descubro que preciso de uma “câmera wrench” para abrir a minha Vivitar. Lógico que não a possuo e pesquisando descubro que não é tão fácil obter uma no Brasil. Teria que apelar para o Ali Express e este nada tem de expresso. Pesquiso mais um pouco e descubro que um cartão de crédito velho, devidamente cortado pode servir para o serviço. Não é verdade...

1a lente

2a lente

A observação é o começo do método... E assim fico olhando para a lente, de vários ângulos. Percebo que há uma (na verdade duas) ranhuras no que só poderia ser o anel de fixação da lente. Finalmente concluo que um compasso poderia ser utilizado para abrir a lente. Não funciona. Muito fraco. Penso mais um pouco e tento com uma caneta (que posteriormente se transforma em um clip de papel) ... E voilá.  A lente vai se abrindo. Retiro a primeira lente. Percebo as mesmas ranhuras no anel em torno da 2ª lente. Com jeito ela se deixa levar também. A 3ª não vai. Esta possui dois furinhos em vez de ranhuras... Preciso de uma ferramenta mais apropriada. Mais uma rápida inspeção pela casa e me deparo com uma “câmera wrench” muito mais eficiente que  o clip... Uma tesourinha de unha.   Apesar de não ser a projetada para tal ela é a “ferramenta certa”.  Faz o serviço sem danificar as superfícies óticas (embora arranhando um pouco o anel...).
3a lente

Leve arranhada... Esta é dificil de se recolocar no lugar... 

De posse das lentes é só remover os fungos...  Mas como?
 Igual a prato sujo. Agua e sabão...
 Limpo as três objetivas que tinha retirado bem com uma mistura de água e sabão neutro e seco e “esfrego” bem com Rosco paper (a ferramenta certa sendo usada pela primeira vez nesta missão...) Limpo as superfícies expostas que restaram na câmera. (Há mais um conjunto de  lentes Uma delas  teve a superfície externa limpa e a lente mais próxima ao obturador eu que não retirei e limpei também somente uma das superfícies a externa. Suas retiradas ( e de mais duas) implicariam em ter que retirar o anel de abertura e definitivamente preciso das ferramentas certas “mesmo” para tal.




A 2ª lente era, disparada, a mais coberta de fungos. Diria que 98 % dos fungos no conjunto se encontravam na mesma. Especialmente na superfície mais “externa” desta.
Deixo tudo secar bem e remonto. Reinstalar a 3ª lente não é tão fácil. Tem que entrar muito no esquadro ou a rosca fina acaba engripando pelo caminho e utilizar WD 40 não é uma opção.  Tudo de volta a lugar e não sobrou nenhum parafuso ou lente ou o que seja...
Olho com a lente montada para luz e não vejo mais nenhum fungo.   Tudo bem!!! Sobraram cerca de 1% destes que aguardam as ferramentas certas aparecerem para poder limpar a superfícies das lentes mais próximas ao obturador. Não sei se o farei. O ótimo é inimigo do bom ( mas me conhecendo é capaz que eu insista no erro...) . A lente já ganhou um  folego admirável.  




Este caso é um daqueles onde não recomendo nem que façam o que eu faço nem que façam o que eu digo. Mas a lente esta “quase” como nova... Se ela sobreviver as ferramentas certas que estou esperando talvez tenha 100% dos fungos removidos. Talvez fique como está.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Ngc 3496, John Herschel e Tudo que Existe


             

             Ngc 3496 é um aglomerado padrão para o “Projeto Tudo que Existe”. Neste pretende-se registrar, seja visualmente seja fotograficamente, todo o Catalogo Ngc ao alcance de observadores nas proximidades do Trópico de Capricórnio. Não se espera nenhum tipo de qualidade nos registros e sendo possível diferenciar o DSO de uma roda de fusca 68 o registro é aceito.

                Ngc 3496 foi descoberto por John Herschel. Este, talvez, o único astrônomo que realizou um completo levantamento de nebulosas em ambos os hemisférios terrestres. Primeiramente re-observando todo o trabalho realizado por seu pai, William Herschel juntamente com sua tia Caroline e posteriormente realizando seu grande levantamento a partir de Cape Town.  O trabalho de John é uma versão 2.0 do que se propõe o “Projeto Tudo que Existe”. Em primeiro lugar por este ter observado em ambos os hemisférios. Segundo por ele ter descoberto e não apenas observado quase todas as entradas austrais do catalogo Ngc. E terceiro porque ele, de fato o fez...
                Agnes Clerk foi uma das maiores historiadoras da astronomia e em seu legado nos deixou um livro que quase todo apaixonado por Urania deveria ler. “The Herschels and the Modern Astronomy” de 1895.  Neste, depois de ter detalhado a vida e a obra de William e Caroline, aborda os trabalhos de John. Ela abre assim o primeiro capítulo da parte dedicada a este em seu lindo trabalho
                “O pequeno menino é divertido, cômico e promissor” Dr. Bruney escreveu depois sua visita a Slough em 1797. John Frederick Herschel era então um garoto de 5 anos o qual nascera “na sombra de um grande telescópio”. De pois de flertar com várias ciências ele se decidiu pela observação dos céus e um de seus primeiros feitos foi reexaminar as estrelas duplas descobertas por seu pai. Este mediu 380 das entradas originais de seu pai e fez diversas correções. Sua pesquisa com estrelas duplas foi parte importante de seus estudos durante toda a vida. Neste trabalho ele desenvolveu o conceito de “Astronomia do Invisível” ao descobrir que em muitos dos pares algumas destas estrelas já conhecidas possuía outra companheira e que a perturbação de suas orbitas indicavam revelavam massas obscuras- planetas de escalas colossais e possivelmente regiões para inimagináveis formas de vida.
                Com a morte do pai este resolveu organizar todos os papéis deste e re-observou todas as 2500 nébulas descobertas por este. Sendo que a metade destas era invisível para quase qualquer instrumento com exceção do seu.  Ele iniciou este projeto em 1825 e o concluiu em 1833. Neste processo ele ainda descobriu 3.347 estrelas duplas. Muita das quais extremamente afastadas para poderem ser consideradas dignas de nota...
                Em 1835 ele sentou praça em Cape Town e iniciou seu gigantesco levantamento de Nebulosas do céu austral. Ele vai se tornar o maior conhecedor destes e completar em grande estilo a trindade austral composta por Ele mesmo, Dunlop e Lacaille.
                A partir de seu observatório em Feldhausen John vai fazer uma colheita celestial que jamais será repetida por nenhum outro observador por meios puramente visuais na história da humanidade.  1.202 estrelas duplas e 1708 nebulosas e aglomerados dos quais apenas 439 já teriam sido observados. Seu estudo sobre as Nuvens de Magalhães vai constituir base para uma mudança de paradigma que só será encerrado por Hubble já no século XX.
                Não era uma das características mais marcantes de John uma prosa concisa. Podemos perceber isto pelo título de seu grande trabalho: “RESULTS OF ASTRONOMICAL OBSERVATIONS MADE DURING THE YEARS 1834, 5, 6, 7, 8, AT THE GAPE OF GOOD HOPE; BEING THE COMPLETION OF A TELESCOPIC SURVEY OF THE WHOLE SURFACE OF, THE VISIBLE HEAVENS, COMMENCED IN 1825.”
                Foi este o cara que descobriu o discreto e tímido aglomerado aberto aqui apresentado. Sua descrição não é exatamente apaixonada. " e, F, S, R, gb M". Ou seja : extremelly Faint , Small, Round, gradually brighter  Middle".  É classificado com III 1 M na classificação Trumpler. Como trata-se de um aglomerado do Projeto Tudo que Existe suponho que os que aqui estão lendo isto sabem o que significa. Senão olhem aqui...
                   A foto que aqui ilustra o elemento é fruto de um drizzle de 3 X feito no Deep Sky Stacker a partir de uma foto realizada com uma Lente Pentax ED 300 mm. Posteriormente revisitei o aglomerado com o Newton (meu refletor 150 mm f8). Com 240 vezes é um pequeno e delicado aglomerado que se apresenta de forma bem evidente embora pequeno. Resolvem-se pequenas estrelas bem concentradas e de algum colorido. Saber onde ele esta ajuda muito. É uma região bastante contaminada e rica e este poderia passar desapercebido por um observador desavisado.   Eu mesmo, certamente, já passara por aquelas bandas e não percebi nada. Céus escuros vão ajudar muito. Tenho minhas duvidas de ter percebido algo a partir da Stonehenge dos Pobres. É alvo para céus mais generosos. Quero testar o mesmo na próxima ida a Búzios. De Lumiar é modesto, porém presente.
Escondido no meio de tanta beleza. No canto direito da foto habita Ngc 3496...


                Não é um aglomerado muito estudado. Mas localizei um trabalho realizado por L. A. Balona e C. D. Laney (1995) "CCD Strömgren photometry of NGC 3496 and Melotte 105."
                Segundo estes no campo de nosso aglomerado podemos distinguir pelo menos duas populações: um grupo de idade intermediaria que inclui um pequeno número de estrelas tardias do tipo B ou jovens estrelas do tipo A e um grupo mais conspícuo representado por um ajuntamento de gigantes vermelhas. De um se deriva uma idade de 400 milhões de anos e do outro algo em torno de 640 milhões de anos. Cabe a dúvida a de serem fruto de eventos distintos que levaram a surtos de nascimento estelar ou de não se tratarem de   um aglomerado de fato.  Sua distância é de mais de 990 mil anos luz.  O trabalho se aprofunda na utilização de variáveis pulsantes como uma técnica mais eficiente e precisa para a determinação do estado evolucionário de aglomerados galácticos.


                Localizar Ngc 3496 não é difícil. Se encontra bem próximo a leste  da Grande Nebulosa de Eta Carina.  Mas lembre-se que ele demanda algum aumento para ser realmente percebido. Não espere perceber este pela buscadora. Será, na melhor das hipóteses estelar e não será uma das estrelas mais brilhantes na região.
                Os americanos têm um termo bom para quem irá atrás de um alvo como Ngc 3496. “DSO die-hard”.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

M 38 e o "Capitão Fantástico".


             

              Finalizando a saga dos aglomerados abertos Messier de Auriga cheguei até M 38. Foi uma longa espera... A foto que aqui apresento foi realizada em janeiro de 2016. Portanto passaram-se mais de dois anos entre a captura e a apresentação. Uma injustiça.
                M 38 termina a trilogia em grande estilo. Embora M 37 seja considerado o aberto mais interessante da constelação o meu favorito é M 38. Ele é mais dado e se resolve com menos aumento. O que me garante uma ocular maior e mais comodidade na hora de observar. E “favorito” é muito melhor que “interessante”. Recentemente vi um daqueles filmes que chegam a parecer ter uma lição de vida. E neste um pai, que pratica uma forma bem radical de homescholling e seus filhos educados pelo seu método, “crucificam “uma das irmãs mais velhas quando esta é chamada a descrever seus sentimentos pelo livro “Lolita”, de Nabokov, e declara que este é -Interessante. Esta é considerada uma palavra proibida. Uma “não-palavra”.  O dialogo no filme transcorre da seguinte forma (como sabem defendo que todo aquele que pretender se interessar mais a fundo em astronomia deve aprender inglês. Não há literatura sobre o assunto suficiente na língua de Camões e assim aqui será sem legendas.):
Kielyr: It's interesting.

Rellian: Interesting!

Bo: Illegal word!

Zaja: Dad, Kielyr said interesting!

Ben: Interesting is a non-word. You know you're supposed to avoid it... Be specific.

Kielyr: It's disturbing.

Ben: More specific.

Kielyr: Can I just read?

Ben: After you give us your analysis thus far.

Kielyr: There's this old man who loves this girl, and she's only 12 years old.

Ben: That's the plot.

Kielyr: Because it's written from his perspective, you sort of understand and sympathize with him. Which is kind of amazing because he's essentially a child molester. But his love for her is beautiful. But it's also sort of a trick because it's so wrong. You know, he's old, and he basically rapes her. So it makes me feel... I hate him. And somehow I feel sorry for him at the same time.

Ben: Well done.
                O filme chama-se “Capitão Fantastico” ( é o Ben do diálogo) . Creio já estar disponível para assinantes da Net now. Excelente programa para uma noite nublada.
                De volta a M 38 vou tentar ser o mais especifico possível.
                Como já foi dito trata-se de um aglomerado aberto residente em Auriga e a entrada numero 38 do catalogo Messier.  Esta é a trama ( the plot).
                Aprofundando a "parada" podemos começar dizendo que M 38 é um aglomerado aberto que foi descoberto por Hodierna antes de 1654 e posteriormente redescoberto por la Gentil em 1749. Messier o inclui em seu catalogo em 25 de setembro de 1764. Sua distancia da terra é de 3480 anos luz e sua magnitude aparente é de 7.2.  Segundo  a classificação Trumpler ele é um aglomerado tipo II, 2, r. Ou seja: apresenta um grau de concentração II ( destacado do fundo e com uma pequena concentração central), amplitude de brilho de suas estrelas 2 (moderada amplitude entre o brilho de seus membros) e r implica tratar-se de um aglomerado rico  (com mais de 100 membros).
                Messier o descreve assim: “ Aglomerado de pequenas estrelas em Auriga , próximo a estrela Sigma, pouco distante dos dois aglomerados precedentes ( M36, M37); este é de um formato quadrado e não contém nenhuma nebulosidade, se examinado com um bom instrumento. Sua extensão chega a 15´de arco.”
                Smyth em seu Bedford catalogue ( o segundo volume do clássico “Cycles of the  Celestial Objects”) nos apresenta um descrição bem mais rica e que eu adoraria ter sido capaz de elaborar: “ Um rico aglomerado de pequenas estrelas na coxa esquerda do “Carroceiro”, com um notável par ( nos tempos e Smyth estrelas duplas faziam muito mais sucesso que aglomerados) com uma primaria amarela de 7amag e  B 9 , amarelo pálida; possuindo uma pequena companheira a cerca de 25´´ a sudoeste. Messier  o descreve como uma massa de estrelas de formato quadrangular , sem nenhuma nebulosidade.  Mas é singular que o formato cruciforme palpável não tenha atraído sua atenção .  É uma cruz obliqua com um par de brilhantes estrelas em cada braço e uma mais conspícua junto ao centro; está seguida de uma mais fraca a seguir. O incomum formato do deste aglomerado lembra a sagacidade das especulações de Sir William Herschel sobre o assunto e favorece em muito a ideia de um poder atrativo localizado nas partes mais brilhantes. Apesar de seu formato não ser globular é claro perceber sua tendência a esfericidade...”

                Walter Houston, um século mais tarde, nos diz que “fotografias mostram um início de circularidade, uma característica bastante evidente para observadores visuais. Descrições mais antigas quase sempre mencionam um formato de cruz, a qual parece ser mais evidente em pequenos telescópios. Observando com um refletor de 24 polegadas, em uma noite seca no Arizona, mostrou-me ser o aglomerado de um formato irregular, e o posicionamento das estrelas fez inútil qualquer esforço para se achar uma figura geométrica”.
                Observando com o Newton (meu refletor de 150 mm f8) com 120 X de aumento e mesmo menos sempre me levam a pensar , vagamente, na letra grega Pi (p). Diversos outros observadores parecem ter a mesma impressão.

                Sendo localizado a 3500 anos luz podemos derivar um tamanho de 15 anos luz para M 38. Ele é um parceiro próximo de M 36. Sua estrela mais brilhante (Mag. 7.9) é uma gigante do tipo GO com uma luminosidade de 900 sóis. Víssemos o Sol de lá ele seria uma estrela de 14a magnitude. A gigante já queimou todo seu hidrogênio e deixou a sequencia principal. Isto no aponta uma idade entre 150 e 200 milhões de anos. Ele se encontra cerca de 1000 anos luz mais próximo que seus antecessores no catalogo Messier (M 36 e  M 37).

                Para localizar M 38 calcule o centro do pentágono que caracteriza Auriga. Você vai estar perto tanto de M 36 como de M 38. Com calma e tranquilidade escaneie a região com sua buscadora. Ambos se apresentarão para esta. Com atenção e algum dever de casa você vai saber quem é um quem é o outro.  M 38 é muito mais chamativo e charmoso. E, apesar do nosso Capitão Fantástico, observar os dois em série é um interessante programa para uma noite estrelada.  
 Assim como eu Stoyan defende que M 38 é o mais belo aglomerado da constelação. Vamos contra diversos autores que defendem M 37 como o galã de Auriga.  É uma questão de opinião.