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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

M 45: As Plêiades Reloaded

             
                     É evidente que já falei da Plêiades aqui no Nuncius Australis. São, provavelmente, o aglomerado aberto mais famoso do todo o firmamento. No post anterior foram apresentadas a diversas das lendas que surgiram da observação desta maravilha celestial e que encantaram quase todas as civilizações que já caminharam sobre a terra. Qualquer um que já tenha percebido o conjunto que habita na constelação de Touro não terá dificuldade para entender o porque de tanta fascinação. Eu sei que não será a última vez que falarei delas por aqui.
                Mas como o post anterior aconteceu em tempos imemoriais e minha biblioteca cresceu bastante desde então resolvi que seria de bom tom apresentar a opinião de autores mais recentes que os historiadores da Babilônia, da Grécia clássica, da China dos vasos Ming e etc...
                Mas antes disto preciso, em uma crise ufanista, apresentar uma lenda faltante. Justamente o registro das Plêiades pelos habitantes originais do Brasil.
                A constelação do Homem Velho (Tuya em tupi) é composta de três sub-constelações. Uma delas é M 45.  (As outra são as Hiades e as “Três Marias”). O Velho engloba em si estrelas pertencentes as constelações de Touro e Orion e Eridanus.
                Nossas convidadas são chamadas de Eixu. O Ninho de Abelha ou Vespeiro. Bem apropriado para aqueles, que com a vista apurada, como o nosso legendário cacique Aporema (Patrono e sócio do Nuncius Australis) conseguem resolver mais de 7 estrelas no aglomerado.
Como em diversas das antigas civilizações as Plêiades têm papel importante no calendário das etnias indígenas tanto no Sul como no Norte do Brasil. Seu nascer helíaco marca o início do ano e os Tupinambás o conheciam muito bem. Segundo d´Abbeville eles afirmavam que as chuvas iam chegar. Como a meteorologia na época era ainda mais incerta que atualmente eles sempre acertavam. Podia demorar um pouco mais ou um pouco menos, mas as chuvas acabavam chegando. E como Eixu aparecia antes das chuvas e desaparecia no fim para retornar em igual época, eles reconheciam o intervalo de tempo decorrido entre um ano e outro com relativa precisão.
Sem drizzle. Gradiente "removido" no Fitswork. Pouquíssimo pós. processamento.

                Tendo ratificado esta injustiça com nossos antepassados mais próximos posso dizer que este post vai ter um caráter astrofotogáfico mais completo. Afinal assim como minha biblioteca meu equipamento fotográfico também cresceu.  E se no primeiro consegui obter um esboço da nebulosa que parece envelopar nossas estrelas desta vez o registro foi bem melhor. Vejam que falei “melhor”. Nunca serei um bom astro fotógrafo. É uma arte que demanda muito capricho e como já ganho meu pão às custas de fotografia dificilmente quero investir o suor do meu rosto nos meus momentos de lazer. E assim astrofotografia para mim é a melhor diversão.  Embora existam diversos objetivos fotográficos que me são auto impostos e que parecem me inspirar e obrigar a capturas mais caprichadas do que a média. Foi assim com a “Cabeça de Cavalo”, M45 e espero ainda este ano conseguir registrar tanto a Roseta como pelo menos um pedaço da Nebulosa do Véu.  No mais geralmente a qualidade por mim imposta é a do “Projeto tudo que Existe”. Neste pretendo observar (o que for possível) e fotografar até o que não conseguir observar visualmente dos DSO´s listados por Dreyer no New General Catalog (todas os aglomerados, nebulosas e galáxias registradas até 1888). Mas sem nenhuma pretensão artística. Registrou e é possível diferenciar de um carro passando em alta velocidade esta valendo. Eu tinha por princípio só fotografar o que eu conseguisse perceber (ainda que de forma tímida) visualmente. Mas vendi minha alma na encruzilhada e atualmente me conformei que certos DSO´s só se entregarão para o Newton (meu refletor 150 mm f8) com auxílio de um sensor digital em vez de minha velha retina...
                E pulando alguns milênios de história desde o post anterior vamos ver o que Messier, autor do mais famoso e um dos primeiros catálogos clássicos (e ainda antes da revolução francesa), tem a nos dizer. É importante lembrar que as Plêiades ganharam seu nome mais atual graças a ele. M 45. Ou Messier 45.
                “Aglomerado de estrelas conhecido como as Plêiades. A posição dada é da estrela Alcyone”
2 Drizzle e Luminancia do DSS.



                Seguindo a cronologia de minha biblioteca vamos ver o que Smith nos conta no Volume II do “Cycles of Celestial Objects “(The Bedford Catalogue, 1881). Curiosamente este não apresenta uma entrada exclusiva para M 45. Mas ele dedica varias páginas a história ao redor destas em sua entrada sobre Alcyone. Na verdade, diversas das estrelas principais (as sete irmãs) tem entradas individuais em seu guia.  Ele ressalta que as “Plêiades são um celebrado grupo de estrelas, ou uma mini constelação, no ombro (?) de Touro.” E apresenta todos os nomes como estas são popularmente conhecidas pelos diversos europeus.
                A seguir teremos o Rev. Webb. Este logo na abertura de sua apresentação sobre a constelação de Touro em seu magnifico “Celestial Objeccts for a Common Telescopes” (1893) nos diz que esta é marcada grupos lindos e familiares de estrela. São estes as Hyades e as Plêiades. Mas destaca que nenhum dos dois agrupamentos é concentrado o suficiente para faze-los bons alvos telescópicos exceto com grandes campos. Ainda nos diz que 6 de suas estrelas são facilmente percebidas. E conta que Kepler (antes do telescópio) teria contado 14 estrelas e localizado com admirável precisão 11 destas.  Conta também que Von Littrow fala em 16 estrelas e garante que 11 destas são percebidas frequentemente.
                Dando um pulo temporal de mais de um século estes valores parecem concordar com as observações descritas por O´Meara em seu “Deep Sky Companion: The Messier Objects” (1998).
                Nenhum destes guias mais antigos fala na Nebulosidade que envolve o aglomerado e que é bastante evidente em volta de Merope. Isto serve para botar lenha na fogueira sobre a discussão se a nebulosidade em torno das Plêiades perceptível a olho nu. Mas Scot Houston (que escreveu a coluna Deep sky Wonders por décadas) garante que este feito não só é factível como tarefa simples... Tennynson em seu famoso poema Locksley Hall parece ter a mesma opinião já que fala em uma “trança prateada” ("Many a night from yonder ivied casement, ere I went to rest, /Did I look on great Orion, sloping slowly to the west. /Many a night I saw the Pleiads, rising thro' the mellow shade, / Glitter like a swarm of fireflies tangled in a silver braid.")  Eu com meu astigmatismo e sem óculos percebo só nebulosidade... Estrelas que é bom quando muito 4. Com os óculos chego ao conservador valor de 6.

1 exposição 30 seg.

                Mas a razão deste post é contar como consegui fotografar a Nebulosidade que envolve o aglomerado. Então vamos visitar o meu Guia observacional favorito. The Burnham´s Celestial Handbook” (1978). O Volume 3 para ser mais exato.
                Burnham dedica 21 paginas de seu tratado com M 45 e é o primeiro dos guias observacionais que possuo que aborda especificamente a nebulosa ou nebulosas em torno das Plêiades.  Em debate recente em um grupo de Astronomia! que participo em uma mídia social e que teve suas origens no pré-histórico ORKUT chegamos a conclusão que esta é a nebulosa mais próxima da terra. Embora seja discutível se esta é realmente associada as estrelas do aglomerado ou apenas uma nebulosa de primeiro plano ela ainda assim será muito mais próxima (400 anos luz) que M 42 (1500 AL) ...  Atualmente a nebulosa é por muitos considerada um alinhamento casual e a velocidade radial da nebulosa e das estrelas parece corroborar a tese. Mas há controvérsias. E imagens falam muito e o que se observa parece só permitir que não haja nenhuma relação entre a nebulosa e as Plêiades em si em uma grande armadilha das leis fundamentais do universo.
                Burnham acredita que estas são relacionadas. Lá pela 15 ou 16 pagina de sua apresentação ele cria um tópico específica para falar da nebulosidade envolvida. Ele começa chamando atenção para o fato do “aglomerado inteiro ser envelopado em uma tênue e difusa nebulosidade de uma grande extensão (a trança prateada de Tennynson) que parece brilhar por uma luz refletida. Esta nuvem cósmica pode ser elusiva visualmente apresenta muito detalhes peculiares com fotografias de longa exposição”. Fico muito feliz em perceber que minhas fotos não chegam a deixar muito a desejar quando comparadas com uma foto por ele apresentada como impressionante e feita com o astrográfo de 13 polegadas do Observatório Lowell. Na verdade, das fotos apresentadas no Handbook, a única que realmente deixa minhas experiências com mais de uma volta atrás foi feita pelo telescópio de 100 polegadas do Monte Palomar.  Em defesa da tese que a nebulosidade e o aglomerado são companheiro de fato ele apresenta que Slipher, em 1912, obteve espectros idênticos para a nebulosidade e para as estrelas do aglomerado.  
3 drizzle + Fitswork+ Photoshop. 

                Burnham ainda nos conta que a porção mais brilhante da nebulosidade envelopa a estrela Merope e se estende por cerca de 20´para o sul; ela foi primeiramente percebida por Tempel com um refrator de 100 mm observando de Venice em 19 de outubro de 1859 (portanto antes de Smith escrever seu livro.) Ele descreve esta como o efeito de ”um bafo sobre um espelho”. Lewis Swift também a achou detectável com um modesto telescópio de 50 mm com 25X. T.W. Backhouse confirmou sua realidade com um refrator de 114 mm,” ainda que para percebe-la tivesse que manter Merope fora de campo”. Por outro lado S.W. Burnham não achou nem sinal desta com o grande (18 polegadas) refrator Dearborn em Illinois. Desta forma a nebulosa foi considerada variável por um curto período. Com o advento da fotografia esta hipótese foi descartada e desde seu primeiro registro fotográfico (Paul and Prosper Henry, Paris 1885) nada parece ter mudado. Agnes Clerk, uma de minhas autoras favoritas e um dos motores da divulgação cientifica no início do século passado nos fala de uma impressão de que “as massas das nebulosas em vários instantes, parecem se estivessem sendo puxadas para fora da forma e sendo atraídas para guirlandas pela atração das estrelas vizinhas...”
                Depois de muito pesquisar achei que deveria me preparar para fotografar as Plêiades a contento. Ha alguns anos tinha feito uma foto onde se ensaiei perceber a nebulosidade, mas confesso que não ficara completamente satisfeito. A impressão que me dava é que a lente estava um pouco embaçada e não havia, de fato, o efeito e o registro desejado.
                Seguindo o conselho do Reverendo Webb e sabendo que o alvo é muito grande para o campo de meu telescópio escolho como arma mina zoom 75- 300 mm @ 300 mm f 5.6; assim garantiria cobrir todo o campo e ainda assim ter ampliação suficiente para com o recurso de drizzle oferecido conseguir destacar bem a nebulosa. Outro fator é que com apenas 300 mm o acompanhamento fica mais generoso e mesmo um alinhamento polar abaixo do perfeito consegue ser menos miserável para as fotos finais. Fotografando de Friburgo e sempre com pouco tempo as vezes as coisas têm que ser feitas com dá e não como deveriam ser feitas...
                Realizei 80 exposições de 30 segundos cada com ISSO 1600. Posteriormente reduzi estas a 71 apenas descartando as piores. Canon T3 montada em pigback em uma cabeça HEQ 5 pro. Sem darks, Flats ou Bias frames.
                As fotos foram empilhadas utilizando o Deep Sky Stacker. A primeira versão foi realizada sem drizzle. Ao sair do DSS percebi que havia capturado boa parte da nebulosidade embora a imagem não apresentasse a ampliação necessária para destaca-la. Ainda seria necessário também aplicar diversos processos no Photoshop para conseguir realçar a nebulosidade.  As imagens foram capturadas em RAW e o DSS me gera um arquivo TIFF. Acho que as imagens estão bastante cinzentas. Quase em escala de cinza. Como vou realizar vários tratamentos deixo a matriz assim e no Photoshop dou uma puxada no azul que costuma caracterizar as fotos da Plêiades e que são característica de suas nebulosidades. Não sei até que ponto isto é resultado do pós-processamento utilizado. Nas fotos do Celestial Handbook as coisas são P&B.
                Nas diversas imagens aqui apresentadas apresento o tratamento a que cada uma foi submetida nas  legendas abaio das mesmas.

                Como as Plêiades habitam muito próximas da eclíptica um sonho que tenho é fotografa-las de novo durante uma ocultação planetária.  Como disse no começo eu devo falar de M 45 de novo...
                   Por fim uma curiosidade: M 45 não possui numero Ngc. Nem IC.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ngc 3324: A Nebulosa Gabriela Mistral


             Ngc 3324 possui a alcunha de Nebulosa Gabriela Mistral. É DSO dos mais charmosos. E é um alvo do meu “Projeto Tudo que Existe”. Apesar do nome ele é mais modesto do que se supõe. O existir é um conceito filosófico bastante amplo. Como sou simpático a Spinoza posso considerar que o existir é uma substancia. E a Substancia não pode ser sem existir. No caso existir é possuir um numero no New General Catalog. Um catalogo de nebulosa que cobre todos os aglomerados e nebulosa conhecidos até 1888.  Levando a filosofia mais a sério Spinoza nos diz (ou diz a um filosofo que não é amigo meu) que o desejo é a mola mestra do existir. Então quando olho pela ocular e quero (desejo) estar percebendo algo com substancia eu vou lá e tiro uma foto (geralmente mais que uma).
                Para ser considerado algo que existe eu devo conseguir fotografar a substancia que confere existência a um DSO. Existem entradas no Catalogo NGC que não existem. Não tem substancia e muito menos matéria. Para a entrada ser considerada basta haver algo registrado. Nada de fotos bonitas ou algo semelhante a arte. Deu pinta, valeu.
                Existem fotos lindas de Ngc 3324. Não é o caso.
           Observar a Nebulosa Gabriela Mistral é fácil. Percebe-la é outra coisa. É um apêndice a grande Nebulosa de Carina. E se perde na paisagem. Algo tipo M43.
O pequeno anexo no meio e abaixo é nosso alvo. 

                Há anos a conhecia, mas nunca a tinha percebido. Um belo dia levei uma foto Da nebulosa de Eta Carina feita com uma lente 300 mm para visitar o “Astrometry” e lá estava ela. Mais uma para o “Projeto Tudo que Existe”.  Na verdade, acho que ela vai merecer uma nova visita e uma foto com o Newton.  Ou não. Se pretendo registrar todo o catalogo Ngc não poderei ser Caxias e possivelmente preciso de um telescópio maior do que o que possuo.
                Ngc 3324 foi capturada durante uma sessão de fotos de sua mais atrativa e famosa vizinha ( Ngc 3372).  Depois disto foi apenas necessário realizar um drizzle de 3X no Deep Sky Stacker e a moça é menos um alvo na auto imposta missão de observar e/ou fotografar todo o catalogo Ngc.
                Gabriela Mistral foi o pseudônimo escolhido por Lucila de Maria del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga.  A escolha foi uma homenagem a seus poetas favoritos: o italiano Gabrielle D´annunzio e o provençal Frédéric Mistral.  Além de poetisa de mão cheia foi também uma educadora, diplomata e feminista extremamente ativa em seu Chile natal. São temas recorrentes em sua obra o amor pelos humildes e sempre demonstrou um amplo interesse por toda a humanidade. Em tempos obscurantistas como o que vivemos poderia ser confundida com uma comunista. Não era. Foi o primeiro escritor latino americano a ganhar o Nobel de Literatura em 1945. Não era, de fato, uma mulher de beleza marcante. Seu perfil realmente recorda ao formato da nebulosa. Um nariz pronunciado e uma testa grande são traços bem característicos...


                Ngc 3324 sendo um objeto extremamente austral não foi incluído em nenhum dos guias observacionais clássicos.  Foi registrado pela primeira vez em 1 de maio de 1826 por Dunlop. É um dos “100 de Dunlop” (Um dos 100 objetos mais interessantes do catalogo de mais de 600 entradas realizado por James Dunlop em 1826 a partir de Paramatta, Austrália). Curiosamente não foi incluída como uma entrada no Guia “Deep Sky companions; The Southern Gems” de O´Meara. Neste ele presentes uma seleção de objetos descobertos pelo “Astrônomo Cavalheiro de Paramatta”. Ngc 3324 é apenas citado rapidamente quando ele trata de Ngc 3293, um belo aberto muito próximo. Acredito que a Nebulosa Gabriela Mistral realmente sofre da “Síndrome de Vizinhança”. Para o observador visual e desatento ela será sempre uma pequena parte da Nebulosa de Eta Carina e não possuirá vida própria.  Dunlop com seu refinado olhar a destaca e esta é a entrada 322 de seu catalogo (D 322). Nesta ele nos diz: “estrela de 7 magnitude envolta em tênue nebulosidade”.  No Ngc a descrição é um pouco mais elaborada: “Bem brilhante, bem grande, irregular brilho tênue. Estrela dupla envolvida.”  É interessante destacar que nenhum destes se refere a um aglomerado embora quase todas as fontes atuais e mapas se referem a Ngc 3324 como um aglomerado. Mesmo em nossa modesta foto pode-se perceber um humilde aglomerado.
Catalogo Dunlop  


                Atualmente Ngc 3324 se confunde com IC  2599. A entrada o Index Catalog é a parte mais sul do aglomerado. Ou talvez como é muito comum no Ngc e no IC antes de sua revisão estes são o mesmo objeto. Um atende pelo aglomerado e o outro pela nebulosidade.  Trata-se de uma região HII localizada a 7200 anos luz de nós a noroeste de Ngc 3372 (A Grande Nebulosa de Eta Carina. É local de intensa formação estelar.
                Achei em varias fontes que Ngc 3324 é também a nebulosa da Fechadura. Mas não são o mesmo o objeto de forma algum. A fechadura se encontra muito mais próxima de Eta Carina ( Uma estrela variável eruptiva e muito temperamental)  e reside quase no centro de Ngc 3372. Já 3324 se encontra vários campos telescópico a noroeste desta. E apesar de parecer ser apenas um apêndice da grande nebulosa Ngc 3324 se encontra quase 2000 anos luz mais distante. Ela é um ente distinto embora no mesmo braço galáctico.


                Espero revisitar Gabriela o mais rapidamente possível e fazer imagens com maior aumento utilizando meu telescópio. Mesmo porque além de ser membro do Projeto Tudo que existe é também membro do 100 de Dunlop e, portanto, parte do material para o novo livro que quero organizar sobre estes objetos e sobre um dos Astrônomos mais injustiçados que conheço. 
                   As fotos que ilustram o post foram realizadas com uma Canon T3 e uma lente Pentax 30 mm ED montadas sobre uma cabeça equatorial HEQ 5 pro. São resultado do empilhamento de 12 fotos com 30 seg. de exposição ISO 1600+ 6 dark frames. Ngc 3324 é um Drizzle 3x sobre uma foto que engloba toda a região de Eta Carina. Após o processo de empilhamento e drizzle foi ainda tratada no Fitswork e no Photoshop.  



domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Grande Nuvem de Magalhães

             



         A Grande Nuvem de Magalhães é um dos maiores espetáculos dos céus. Ela cobre uma região de aproximadamente 5o largura por 7o de comprimento. Mesmo com uma ocular wide field isto vai representar mais de 40 campos telescópicos. Meu binóculo 15X70 não abarca toda a estrutura e o 10X50 quase consegue... Ao observa-la percebe-se nuvens sobre nuvens de luz, com áreas brilhantes e linhas escuras. Tudo isto temperado com aglomerados de estrelas. Só mesmo vendo para entender...




                Para observar a Grande Nuvem, de verdade, céus escuros são fundamentais e condição sine-qua-non. Especialmente porque a mesma merece horas de contemplação a olho nu antes de qualquer coisa. Habitando uma linha ao sul da linha que liga Canopus a Achernar e estando você suficientemente ao sul do equador ela será muito fácil de se localizar. Como disse, em locais escuros! Em áreas de poluição luminosa a magica não acontece. Você poderá perceber estruturas na Nuvem com auxílio ótico, mas este é um caso onde “não se pode ver a floresta apenas pelas arvores”.

Esta é uma unica exposição de 30 seg. ASA 800. Semelhante ao que você verá a olho nú em um céu  bom. 

                Me lembro da primeira vez que a percebi à vera. Há anos atrás, próximo à Vila de Trindade, no litoral Sul (que por razões geográficas fica a oeste do estado...)  do Rio de Janeiro. Faz par com a Pequena Nuvem, mas é mais clara e bem maior... Imagino o espanto dos primeiros navegadores europeus ao se depararem com tamanha maravilha.
                A Grande Nuvem de Magalhães é uma galáxia satélite de nossa Via Láctea. Em tese é terceira galáxia mais próxima, mas como as outras duas estão em processo de destruição, sendo já digeridas por nossa galáxia, em um futuro “próximo” ela será a nossa vizinha de porta.  As outra duas são a Galáxia Esferoidal de Sagitário e a Galáxia Anã de Cão Maior (esta talvez nem seja uma galáxia, mas apenas um “adensamento estelar”). Situada a cerca de 140.000 anos luz esta “logo ali” em escala cósmica. É pequena para uma galáxia contendo talvez 10 bilhões de estrelas.
                A GNM (Grande Nuvem de Magalhães) é o protótipo de uma classe de galáxias. Trata-se de uma espiral “Magellanica” (Magellanic Spiral Galaxies. A tradução é uma ciência em evolução e a astronomia raramente é feita em português...)  e estas são (comumente) galáxias anãs classificadas como do tipo Sm (SAm, SBm, SABm). São galáxias espirais com um único braço e nossa convidada é do tipo SBm. Apenas por observar-se sua forma é fácil suspeitar que seja aceito que esta foi um dia uma espiral barrada que acabou sendo deformada pela aproximação da Via Láctea. A barra central é uma das mais chamativas estruturas na obra. Há autores que consideram a GNM como uma galáxia irregular.  A Classificação de espirais magellanicas foi introduzida por Gerard de Vacoleurs quando este reestruturou a “Classificação Hubble” de galáxias.
28X 30 seg Lente 50 mm -Canopus é a estrela brilhante acima e a direita quase fora do quadro.Abaixo a direita e também quase fora do quadro se percebe o Aglomerado aberto Ngc 2516.

                A GNM é conhecida há milhares de anos pelos habitantes do hemisfério sul. Os nativos do pacifico sul se referiam as Nuvens de Magalhães (GNM e a PNM) como as
Mosaico realizado com 4 empilhamentos utilizando 3 Drizzle no DSS. A foto que abre o post foi submetida a 2 Drizzle não sendo necessário fazer um mosaico neste caso...

Nuvens superior e Inferior de Neblina. Já os aborígenes australianos que se referiam a Via Láctea como o caminho por onde os espíritos viajavam pelo do céu consideravam as nuvens como dois homens negros que esporadicamente vinham a terra e sufocavam pessoas enquanto estas dormiam.  Al Sufi, em sua descrição das constelações celestes feita no séc. X, fala de um estranho objeto. Al Bakr, “O Boi Branco”, o qual é hoje ligado a GNM. Antigos navegadores deixaram diversas referencias as Nuvens. Elas foram chamadas de “As Nuvens do Cabo” durante quase toda a idade média. O Nome de Magalhães é ligado a elas pela clássica e precisa narração de Pigafetta da primeira circum-navegação capitaneada por Fernão de Magalhães (1524): “O Polo antártico não é demarcado por estrelas como o ártico. Para localiza-lo existem diversas pequenas estrelas aglomeradas, na forma de duas nuvens um pouco separadas uma da outra, e um pouco tênues. Agora no meio destas estão duas estrelas não muito grandes, não muito brilhantes e elas se movem levemente. E essas duas estrelas estão no Polo Antártico.”  Mesmo que a definição do polo mostre algumas de suas limitações, sua interpretação de que as Nuvens de Magalhães consistem de estrelas é digna de nota.
                A GNM é por si só um DSO. Um dos poucos claramente visível a olho nu. Por tratar-se de uma galáxia e uma das mais próximas ela é um celeiro de DSO´s. Ou seja ao observa-la com um telescópio você pode ter o direito de ver seres abissais. DSO´s extragalácticos...
                O primeiro a mapear “a fundo” a GNM foi James Dunlop. Tendo sido precedido por Lacaille que localizou seu DSO mais brilhante, a Nebulosa da Tarântula (Ngc 2070). Dunlop em seu pioneiro levantamento de nebulosas, realizado a partir de Paramatta na Austrália, dedicou muitas de suas noites de observação a região da GNM.  Quase todos os objetos descobertos por Dunlop na GNM foram re-observados por John Herschel.  Com a exceção da entrada D 175 de seu catalogo (hoje em dia identificada como Ngc 1929,34,35,36 e 37 no New General Catalog organizado por Dreyer). Herschel em seu “Results of Astronomical Observations Made During the Year 1834, 5,6,7,8 at the Cape of Good Hope”  localiza 919 objetos na GNM. Com as 5 entradas de Dunlop que lhe escaparam chegamos a 924 objetos. Com descobertas mais recentes (especialmente Resquícios de Supernovas) o numero de DSO´s se aproxima de 1000  na GNM.
                O caráter único das Nuvens (lembrem-se que na época as Nuvens eram consideradas pedaços destacados da Via Láctea) foi reconhecido por John Herschel e seu levantamento leva Abbe em 1867 nos dizer:
1-      Os aglomerados são membros da Via Láctea e estão mais próximas a nós do que as estrelas mais tênues padrões.   
2-      A Nebulosa resolvida e não resolvida repousa geralmente fora da Via Láctea a qual é essencialmente estelar.
3-      O universo visível é composto de sistemas, os quais a Via Láctea, as duas Nubeculae (GNM e PNM) e a Nebulosa são indivíduos e que são eles mesmos compostos de estrelas (tanto simples como múltiplas e aglomerados) e de corpos gasosos de formato tanto regular como irregular.
O estudo das nuvens evolui junto com a evolução da nossa compreensão pelo universo.
O estudo da mesma segue seu rumo e o próximo grande passo é dado com a construção da estação do Harvard College Observatoire em Arequipa (Peru). O Mais significante resultado destes primeiros estudos  foi a descoberta por Henrietta Leavitt da Relação Período-Luminosidade da variáveis Cefeídas.
Shapley, em 1956, seleciona as seguintes “grandes contribuições astronômicas associadas ao estudo das Nuvens de Magalhães”:
1-      A descoberta de centena de gigantes Cefeídas variáveis em ambas as nuvens.
2-      A medição da velocidade radial positiva par as linhas de emissão associadas a objetos dentro das nuvens, sugerindo sua independência da Via Láctea
3-      Descoberta e desenvolvimento da relação período luminosidade das Cefeídas clássicas
4-      Detecção por radio telescópios de Hidrogênio neutro dentro e ao redor das nuvens e medição de sua distribuição.
5-      Considerado menos importante, mas ainda assim digno de nota foi a dedução de que 30 Dourados (Ngc 2070, A Nebulosa da Tarântula) é 100 vezes mais radiante que o globular mais brilhante conhecido em qualquer lugar e é intrinsecamente mais luminosa que muitas das mais próximas galáxias anãs com seu milhão ou mais de estrelas.
Com milhares de DSO´s em seu corpo é impraticável ao amador observar todos eles e em sua maioria estes serão quando muito estelares para os telescópios amadores.
As fotos aqui apresentadas são resultado de uma captura realizada em céus Bortle 3. Mais precisamente 28 exposições (4 em 800 ISO e 24 em 1600 ISO feitas com uma Canon T3 em RAW) de 30 segundos. Foram aplicados 12 dark frames e o empilhamento destas foi realizado no Deep Sky Stacker e posteriormente as fotos foram aprimoradas no Photoshop e no FITS. A lente utilizada foi um a Pentax 50 mm f1.7 @ 3.5. 
Mesmo com este modesto set up a quantidade de DSO´s que se apresenta é grande. Abaixo indico os alvos mais chamativos e indicados aos possuidores de telescópios amadores pequenos. Em tese todos viáveis com telescópios de 70 mm em céus abaixo de ideal. A lista concorda com as recomendações de Consolmagno no obrigatório “Turn Left at Orion”. Neste ele cria uma classificação para DSO´s. Esta vai de 1 telescópio até 5 telescópios. Apenas as Nuvens de Magalhães e  M42 ganham 5 telescópios.
O mosaico 3 Drizzle anotado. Recomendo que baixe e de um zoom  na imagem em seu visualizador de fotos.

São este:
  1-    Ngc 1711- Um compacto aglomerado de estrelas
  2-    Ngc 1714- Uma nebulosa de emissão
  3-    Ngc 1743- Um aglomerado de nebulosas de emissão
  4-    Ngc 1818- Um aglomerado de estrelas
  5-    Ngc 1835- Um globular
  6-    Ngc 1850- Um aglomerado com nebulosidade
  7-    Ngc 1866- Um “jovem” aglomerado globular
  8-    Ngc 1910- Um aberto contendo a variável S Doratis
  9-    Ngc 1935/36 Um aberto nebuloso
 10-   Ngc 1966-Uma nebulosa de emissão
 11-   Ngc 1978- Um globular
 12-   Ngc 1984- Aberto
 13-   2018 – Nebulosa de emissão 
 14-   Ngc 2027- Aberto
 15-   Ngc 2032- Nebulosa Gasosa
 16-   Ngc 2048- Nebulosa de Emissão
 17-   Ngc 2058-Diversos aglomerados abertos 
 18-   Ngc 2070 – A nebulosa da Tarântula 
 19-   Ngc 2080- Nebulosa Gasosa
 20-   Ngc 2100- Aberto
 21-   Ngc 2134- Um aglomerado compacto
 22-   Ngc 2164- Aberto

Ngc 2044 - Este não esta na lista, mas faz parte do Projeto "Tudo que Existe"
3 Drizzle 

A GNM pode ser um programa para anos de observação. Para aquele que desejarem se aprofundar mais sobre as Nuvens um trabalho obrigatório é “The Magellanic Clouds” de Bengt E. Westerlund disponível na Cambridge Astrophysics Series. Primeiramente publicado em 1997 já vai completando 21 anos. Continua atual.
Ngc 2070

     
Ngc 2100
   Este é ainda um post em construção. O registro da GNM é um trabalho para mais que uma rápida sessão de fotos. Espero poder registrar a Nuvem com minha 300 mm ED bem como utilizando o Newton em todas as entradas realizadas por Dunlop. Para a observação visual da maior parte dos DSO´s citados é bom utilizar o maior aumento possível. A maioria deles só começa a revelar sua verdadeira natureza com pelo menos 120 X de aumento e muitos podem ser ainda assim discretos. Céus escuros são fundamentais para alguns e bom para todos. Ngc 2070 e Ngc 2100 são os alvos mais fáceis na minha opinião. No em torno da Tarântula estão muito dos DSO´s citados . Cuidado!!!  Ela costuma roubar a cena.  E não deixe de caçar os segredos da GNM a olho nu em um céu generoso. Você vai se surpreender com o que pode ver.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Astrofotografia, Lentes e Carnaval

           

   Fevereiro começou com muitas nuvens no horizonte. Literalmente. Não se via uma estrela no céu desde há muito tempo. Embora durante o dia o sol, às vezes, se ensaiasse dardejante a noite estava sempre bem nublada. Um daqueles verões cariocas úmidos e abafados. Mas nem tão quente. Rio 40 graus marcava no máximo 38... Com meu apartamento alugado para 2 suíços e com um trabalho que devido ao “úmidos” na sentença acima sempre empurrava para frente o seu término acabei conseguindo sair para a Serra  de Friburgo apenas na sexta feira véspera da folia de Momo. Meu destino era Lumiar. Um pequeno e simpático vilarejo que foi fundado pelo Beto Guedes.
                Três horas depois de sair do Rio já me encontrava em frente a sede da Sociedade Musical Euterpe Lumiarense  (que desrespeitando o fluxo temporal  foi fundada muitos anos antes do Beto Guedes nascer) aguardando a proprietária da casa que eu tinha alugado para ela  nos guiar até a mesma.
                Eu querendo acreditar que com a virada da lua  a meteorologia ia mandar as borboletas da Tailândia baterem as asas e este que vos escreve iria poder testar as novas lentes que havia ganho de seu cunhado. Este as tinha herdado de seu irmão e não tinha nenhum uso para as mesmas.

                Como o objetivo principal era testar as lentes e a expectativa climática estivesse mais na casa da simpatia que propriamente da ciência achei melhor ressuscitar o “Galileo” (um refrator Celestron de 70 mm f13) do que levar o Newton. E assim fomos eu, Galileo, uma Pentax ED 300 mm f4.5, uma Takumar 70-210 f 4, uma Vivitar 70-150 mm f3.8 e um Pentax 50 mm f1.7. Mais um anel adaptador e minha Canon T3. A Pentax PZ1 que veio junto com as lentes foi também, mas ainda está aguardando eu me dignar a comprar baterias novas para fazer uma experiência “vintage” e tirar algumas astro fotos com película...
                A chegar na casa me lembro que fotos não são reais e que o local não se presta para astrofotografia. Postes e vizinhos demais em algo bem diferente do imaginado pelas fotos do site...
                Mas tudo bem. O plano desde o começo era fotografar de um camping perdido no km 2 da estrada Serra-Mar (RJ-142). Um local adorável. Com uma vista alucinante para a Pedra Riscada. Céus Bortle 3-4. Tinha estado lá no início de janeiro e já vislumbrara o potencial do local.

                Mas sabem como é o Carnaval... Um leitão a Pururuca, muita cerveja e umas pingas me levaram a conhecer a “Vingança de Barnabé”. Esta é a versão local da temida “Vingança de Montezuma”. Uma tremenda dor de barriga que me fez antecipar a quaresma em quatro dias e passar o carnaval mais sóbrio desde meus 13 anos. Evidentemente que ao entardecer as borboletas bateram asas na Tailândia, Taipei, Laos e na Birmânia também.
                Felizmente elas começaram a fazer isto todos os fins de tarde durante os próximos dois dias. Na segunda de Carnaval eu finalmente consigo montar o kit todo e depois de deixar a cara metade e as crianças em um projeto de baile infantil sigo para o camping. Já tinha feito todo o trabalho de diplomacia e tendo doado um exemplar do “O Sul Profundo: O Catalogo Lacaille” para a simpática proprietária sou autorizado a me instalar na parte alta do terreno (que dispõe de energia elétrica) e montar meu “observatório”.
                Não poderia ser tão fácil. Claro que esquecera o bridge plate para instalar a câmera com as lentes diretamente em Mlle. Herschel (uma montagem HEQ 5 pro da Skywatcher). Como a necessidade é a mãe da invenção rapidamente projeto um sistema que apesar de bastante rustico se revela extremamente eficiente. Com um parafuso de ¼, duas porcas, um nível de marceneiro e gaffer tape (uma “irmã” high tech” da fita crepe) consigo acoplar a câmera ao Galileo de forma eficiente e estável. Pela foto pode parecer difícil de acreditar, mas funciona...
                Tenho um período de alforria relativamente curto. São 7 da noite e já estou com tudo montado. Faço algumas fotos “artísticas” da locação e me preparo para testar as lentes na “difícil arte”. Com o céu quase no twilight astronômico eu encaixo a Pentax 50 mm f1.7 e fecho um stop. O primeiro alvo já estava definido. Faço um alinhamento polar meio Mandrake e depois utilizo Sirius e Achernar para regular o Synscan ( go-to )  de Mlle. Herschel. Isto é feito utilizando uma ocular 25 mm no Galileo.
                O céu já começa a se apresentar magnifico. Apesar de na chegada haverem nuvens em todo quadrante oeste tudo indica que as borboletas estavam ficando bem agitadas e ainda soprando ao anoitecer. As Nuvens de Magalhães e diversos outros objetos “difíceis” de céus pouco generosos se tornavam  evidentes a olho nu mesmo com visão direta. Fazia tempo que não as via assim. A Grande Nuvem mais evidente que a Pequena. Tuc 47 claramente uma “estrela” enevoada. A Via Láctea cheia de estrutura. Um espetáculo.

                Seguindo a derrota planejada ataco a Grande Nuvem de Magalhães. A lente se revela soberba e com uma distância focal de apenas 50 mm o alinhamento polar se revela a altura.  Realizo pouco mais de 2 dezenas de exposições e já sei que não perdi a viagem...

                Agora estou ansioso para testar a 300 mm. Esta uma joia. Meu objetivo inicial seria a Roseta (C 50 ou Ngc 2244) mas ela se encontra muito próxima ao meridiano e não vai rolar. Decido me manter no horizonte sul e revisitar um clássico.  A nebulosa de Eta Carina.
                Mas antes disto minha anfitriã aparece e preciso mostrar algo rápido. Lá vamos nós! Plêiades!! São infalíveis junto aos curiosos. Ela e o marido ficam fascinados. Felizmente o camping vai bem cheio e estes estão exaustos e assim após alguns minutos de Plêiade, prosa e alguma constelações seguem seu rumo.

                De volta a Eta Carina faço de novo uma dezena e meia de exposições e já sei que nunca a fotografei assim. A lente é maravilhosa. E o céu idem. Vai ficar bom. Mesmo posteriormente realizando um drizzle 3X de Ngc 3324 de uma borda da imagem o perfil de Gabriela Mistral parece se apresentar em meio ao ruído.
                Infelizmente com minha alforria terminando e eu querendo testar todas as lentes parto para a Vivitar. Faço uma imagem de M 42 com esta @ 150 mm e percebo que as borboletas estão cansando e que esta lente não é do mesmo naipe que as outra. Mas ainda resolvo dar ais uma chance a mesma e com esta @ 70 mm tento fazer uma composição mais clássica. Em homenagem ao Barnabé que batiza a minha maldição fotografo o Acrux e a Via Láctea brotando por trás do “Morro do Barnabé”.  Tudo bem que se trata de um composite e que ainda não dominei bem a técnica ( nem mal ...)  mas a lente parece não ter , de fato, a mesma qualidade das anteriores. O drizzle que tentei de Lambda Cen com as capturas dela fico muito sofrível. Mesmo esta estando bem mais no meio do quadro. Especialmente se comparado ao drizzle de Ngc 3324 feito a partir das imagens obtidas com a PentaX 300mm e na bordinha do quadro.   Tudo bem que estava tudo muito baixo no horizonte e etc..  Mas ela é inferior também à minha Canon 70-300 mm embora seja mais clara.

Ngc 3324 - Gabriela Mistral foi uma imensa poetisa. Mas não exatamente uma mulher bonita... Crop de 3 Drizzle sobre foto de Eta Carina que abre o Post. Realizada com a 300 mm ED. Uma borda do quadro..


Lambda cen com a Vivitar. Foi submetido apenas a 2 drizzle. 

                Minha alforria acaba e a Takumar vai ter que esperar por outro dia para ter sua chance...
                Recolho tudo rapidamente e vou encontrar a família já no centro da cidade.
                Depois disto ainda continuo sendo levemente incomodado por “Barnabé” e as borboletas do Triangulo Dourado entram em greve. A parte astronômica da festa acabou para mim. 
                A Vingança de Barnabé é um violento desarranjo que se abate aos que chegam a Serra muito afoitos. Geralmente é antecedida por muita gordura e cachaça. Conta a lenda que Barnabé foi um grande catador de Açaí da região que acabou sendo expulso de Lumiar pela especulação imobiliária pós a refundação desta por Beto Guedes. Ele sumiu e foi visto a última vez para as bandas de Macaé de Cima, mas antes conjurou esta que se apresenta como uma febre estomacal violenta tendo como trilha sonora todo o Clube da Esquina . Ela é mais leve que a Vingança de Montezuma . Lembrado que este perdeu não só todo um império para os espanhóis com terminou morto e não apenas assombrando as matas da parte mais alta de uma linda Serra.
               Com o tempo nublado sempre se pode caçar passarinhos...
Beija Flor Fonte Violeta

Bet te Vi

Canario da Terra

Coleiro
                Na natureza selvagem minha filha foi picada por algum inseto ou aracnídeo peçonhento e decidimos terminar a temporada na Serra na casa da Avó de minha mulher. Não sem antes passar no hospital onde a filha entrou no antibiótico e o pai e Barnabé foram postos para cumprir a quaresma de fato. 40 dias sóbrio, cinco dias comendo como um brâmane e muito Floratil. O carnaval foi bom...  E o Camping Cantinho Doce fora de temporada deve ser um dos melhores locais para se observar em um raio de muitos quilômetros do Rio de Janeiro. Céus escuros, boa estrutura e alojamento que vai desde barracas até pequenos chalés. A Aporema de Outono já tem endereço.  

domingo, 28 de janeiro de 2018

Ngc 2169: O Aglomerado 37

                 
                  Ngc 2169 apesar de possuir muitos nomes é um DSO pouco visitado. Sendo um compacto aglomerado aberto em Orion é muitas vezes relegado devido a outras “estrelas” em tão rica região. Na fronteira com Monoceros é ainda mais difícil se destacar em uma área com abertos muito mais amplos e facilmente percebidos.
                Possuindo apenas 7´ de diâmetro aparente ele demanda pelo menos 120 X de ampliação para começar a revelar seus mistérios.
                Foi provavelmente observado pela primeira vez por Hodierna antes de 1654. Mas é uma entrada no mínimo controversa em seu catalogo pioneiro já que se trataria de um objeto muito discreto e pouco chamativo para os meios que este possuía. Não chego a perceber seu caráter em minha buscadora. E mesmo Walter Houston (criador e autor da coluna Deep Sky Wonders na revista “Sky and Telescope” por décadas) nos diz que “não estivesse Ngc 2169 já incluída no New General Catalog ele não a reconheceria como um aglomerado à primeira vista.”
                Acho curioso destacar que apesar da indiferença de Houston o aglomerado encantou seu antecessor Smith ainda no séc. XIX se não pelo o número de estrelas mas pela sua simplicidade: “Estes encontros ocorrem indiferentemente ao longo da Via Láctea e fora desta e despertam ainda mais a nossa admiração pela estupenda riqueza do universo, em cada parte na qual aparece tamanha profusão da criação onde podemos expressar por nós mesmo o trabalho do todo poderoso e não  podemos nunca  perceber  nenhuma redundância e muito menos trabalho em vão.”
                William Herschel registrou o aglomerado (é a entrada H VIII 24 de seu catálogo) em 15 de outubro de 1784: “Aglomerado, pequeno, pouco rico, bastante concentrado, estrela dupla Struve 848”.


                É um pequeno grupo de cerca de 20 sóis que reside em um dos vértices de um triangulo retângulo formado com as estrelas z e n Orionis. Estas ambas sentinelas se encontram até 1o de Ngc 2169 e podem todos serem abarcados com um telescópio de campo grande. Mas como já foi dito é necessária bastante ampliação para separar-se seus membros e as diversas duplas que tornam o aglomerado muito interessante.
2x drizzle

                O grupo é conhecido pela alcunha “Aglomerado 37” devido ao arranjo de suas estrelas, de fato, lembrar o desenho do número. Mas o mesmo possui diversos outros apelidos listados por O´Meara em seu “Hidden Secrets”: “As Pequenas Plêiades” e o “Aglomerado do Carrinho de Compras”. Acho ambos bastante criativos e nenhum à altura do mais famoso.
                Ngc 2169 é um aglomerado super jovem e atualmente os valores mais aceitos para sua idade não ultrapassam 10 milhões de anos. E diversos papers indicam ainda menos. 
O Trabalho de Jeffries, R. D.; Oliveira, J. M.; Naylor, Tim; Mayne, N. J.; Littlefair, S. P. realizado em 2007 “The Keele-Exeter young cluster survey - I. Low-mass pre-main-sequence stars in NGC 2169” onde foi realizada a fotometria com CCD do Newton telescope e com o espectroscópio de resolução intermediaria do Gemini North indicam 9 milhões de anos +- 2 Milhões de anos.  Este indica ainda que não há mais de 2,5 milhões de anos de diferença entre seus membros de massa inferior a 0,15 sóis. A maior parte de seus membros de baixa massa ainda se encontra ainda na pré sequencia principal. A maioria de seus membros são do tipo espectral A3 ou mais jovens.
                Ngc 2169 é um aglomerado muito delicado e bastante colorido que me recorda em sua miudeza o Aglomerado de Cheshire (Ngc 5281) e que como este demanda ampliação para ser de todo aproveitado. Um daqueles tesouros escondidos e que devem ser visitados apesar de sua elegante descrição.
Foto "girada" no PS. O " 37" fica mais evidente...



                Realizei poucas fotos de Ngc 2169 e com um alinhamento polar mal realizado. As fotos que ilustram este post são fruto do empilhamento de apenas 4 exposições (as melhores e com o menor drift) de 20 segundos realizadas no Rot n´ Stack e em uma delas realizei uma ampliação de 2 Drizzle no Deep Sky Stacker. Foi também utilizado o Photoshop para equilibrar as cores que são bem fiéis ao que se pode perceber junto a ocular. Não foram feitos dark frames.  O telescópio utilizado foi um 150 mm f8 newtoniano com uma Canon T3.