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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Astrofotografia de Ouvido e a Aporema de Verão

             

                 Chegou o verão. A primeira Aporema do ano (veja o significado desta festa aqui, aqui e aqui). Desta vez as regras foram seguidas à risca e a mesma foi comemorada na primeira lua cheia após o solstício de verão. Com uma casa alugada em Lumiar os céus seriam escuros. Mas também bem nublados. O verão nas Serras Fluminenses costuma ser ingratos com a astronomia e chove para burro... Como não poderia deixar de ser as noites mais abertas da temporada aconteceram nos dias que estávamos em Friburgo para comemorar o aniversário da Bisavó de meus netos. Avó da cara metade.
                Eu tenho informantes no Reino de Murphy e evidentemente coloquei o Newton (meu telescópio refletor 1200 mm f8) na mala do carro quando nos deslocamos de uma cidade para outra. A tarde choveu canivetes. As 21:00 o céu começou a abrir. Eu aproveitei para brincar com as crianças e apresentar diversos clássicos. E com o avançar da hora ainda acabei por localizar alguns dos DSO´s que tinha imaginado fotografar. Mesmo com um alinhamento polar feito de ouvido e com um céu que apesar de limpo apresentava uma transparência péssima fiz algumas fotos. Esqueçam a palavra colimação. Esta Aporema   já começara meio desacreditada. Como o sistema de guiagem para o Newton só vai chegar no final de janeiro não me via com grandes projetos fotográficos. Brincar com as crianças acabou sendo uma boa forma de comemorar a festa pagã e o aniversário da Bisa...
M 42 não parece indicar uma noite promissora...

                Com quase todas a luzes da casa acesas e com vários curiosos olhando coloquei Mlle. Herschel (minha montagem HEQ 5 pro) em “modo de segurança” e com um Synscan quase alinhado acompanhando um alinhamento polar pior ainda levei todos a visitar M 42. Percebo que há muita nebulosidade no céu. Depois M 41 muito tímido. Sobraram duas sobrinhas que parecem levar jeito para coisa e que acompanharam as observações até bem tarde.
                E assim visitamos Ngc 2516. O horizonte sul está mais generoso. O aglomerado faz sucesso com as meninas e com alguns retardatários. Depois sigo para Omicron Velorum. Ficam todos fascinados ao entenderem que o aglomerado é a pequena nebulosidade ao lado de Delta Velorum e que escolta Omicron. Descobrir o Falso Cruzeiro e aprender, de fato, a identifica-lo parece deixar todos bem orgulhosos.
                As Plêiades (a noite parecia estar melhorando) dão seu show junto a buscadora e o famoso aglomerado arrecada mais alguns fãs para seu imenso “entourage”. 
2516 em modo "como não fazer"...

                Faço uma exposição de 30 segundos de alguns dos objetos somente para apresentar a técnica as meninas.  O Alinhamento polar era de fato medíocre. Mas para a observação visual estava mais que bom... Pior era o Synscan (Go-to da cabeça) errante. Mas viajando por mares já muito conhecidos não chegava a irritar ninguém.
Little Cassiopéia no mesmo modo...

                Finalmente apresento o conceito de estrela dupla para as meninas. Com um seeing também “bem mais ou menos” acabo resolvendo Castor em Gêmeos com a minha ocular 17 mm acompanhada de uma Barlow 2X.  As meninas adoram. E acho um dos pontos altos da noite. Não visitava o gêmeo mortal (Pollux é imortal) há muito tempo. É uma dupla divertida de se dividir. Uma considerável diferença de magnitude.
M 93 em péssima forma...
                Depois já vai mais tarde e resolvo tentar cumprir algo do que tinha em mente. Fotografo (mesmo que de forma tosca) M 50 e M 93. Dois abertos do Catalogo Messier que nunca tinha registrado fotograficamente. Com o Synscan errante acabo também misturando M 48 com Ngc 2306 e registro o obscuro aglomerado. Mais um para o “Projeto Tudo que Existe” (apesar do nome a intenção é apenas fotografar todo o Catalogo Ngc).
M 50

Ngc 2306. Um engano meu , de Dreyer e originalmente de Herschel. 


                Finalmente as crianças se rendem e o Synscan errante não localiza Ngc 2169.Meu principal objetivo nesta Aporema seria fotografar os objetos que me faltam no Catalogo Hodierna.  Mas parece que vou ter que esperar por condições melhores. Acampado na casa dos outros e sem poder fazer os alinhamentos “by the book” vai ficar difícil. E Friburgo é uma cidade grande e com considerável poluição luminosa. Fora que a umidade está enorme, o frio aumentando e eu bem cansado.
                Para encerrar faço algumas capturas em Pig Back com um campo bem aberto. Coloco a 18-55mm @ 50 mm e f 5.6.
                Capturo a Falsa Cruz que fez tanto sucesso junto aos universitários e depois outra série de 12 fotos no entorno de Eta Carina. Sempre um espetáculo. Com estas eu posteriormente brinco tanto no Deep Sky Stacker como no divertido e menos exigente Rot n´ Stack.   Com um campo tão amplo o alinhamento polar se torna menos exigente.
Falsa Cruz 

                Já as fotos dos DSO´s tiveram que ser processadas apenas no Rot n Stack. A qualidade das capturas não é suficiente para o DSS. Neste tudo termina em rabiscos. Ou desastres binários como gosto de chamar tais desgraças...
Desastre binário

                No dia seguinte, após levar as crianças até as cachoeiras de um clube em Friburgo, (a cara metade resolveu encarnar a Rainha Má e implicou com a casa estilo “Woodstock” em Lumiar. Prorroguei a estada na casa da Bisa por mais uma noite...) fico brincando com as fotos feitas com a lente enquanto namoro o céu nublado com esperança de que este abra por volta das 21:00. A previsão assim o diz. Diferentes processamentos levam a diferentes resultados. As capturas foram todas feitas em jpg. Como não planejava fotografar sequer me lembrei de alterar as configurações da Canon.  O Rot n Stack me dava cor nas fotos. Já o empilhamento realizado pelo DSS embora apresenta-se mais detalhes era em escala de cinza. Não conseguia atinar a razão para isso. Finalmente reparo que o autosave em 32 bits e sem eu ter corrigido o RGB no próprio DSS apresenta cor. Ainda que o resultado deste arquivo que é gerado automaticamente seja sempre muito claro. Resolvo apenas converter o autosave para Tiff 16 bits no DSS sem nenhuma outra manipulação. Com este arquivo aberto no Photoshop rapidamente percebo que basta eu pedir o tom automático que a cor se revela. Depois curvas e cia LTDA e acho o resultado bastante satisfatório e mais realista do que trabalhando com a matriz do Rot and Stack. Na verdade, acho ambos bastante satisfatórios para 8 frames de 30 segundos empilhados.  Sem darks...
Esta foto é fruto da mesma captura da que abre este post. Porém processada no Rot n stack inicialmente. Tem mais cor . Mas encosta o "Caboclo Magenta" e acho muito forçada. 

                Finalmente a previsão se confirma e as 21:35 estou com a câmera na montagem. O Plano é utilizar a 75-300 mm @ 300 mm para fotografar as Plêiades. Por incrível que pareça o alinhamento polar é feito de novo no palpite e o Synscan é alinhado utilizando apenas a rotina de “1 Star Align”. Utilizando Canopus como farol. E com a lente @ 70 mm Mlle. Herschel chega até as Plêiades sozinha. Não centralizadas, mas quase... Depois é só ajustar o foco.  As “crionças” queriam porque queriam que eu montasse o Newton para elas poderem observar também. Mas fui obstinado e só cedi ao desejo das mesmas depois de realizar 80 exposições das “Sete Irmãs”.  Queria brincar mais de “laboratorista” (uma profissão quase extinta dos tempos da película fotográfica).


As Pêiades cropada no Photoshop... Foram diversos tratamento e serão abordados em outro post.

                Finalmente acabo cedendo e o Newton vai para a montagem. Levo as crianças para um belo passeio.  O horizonte sul é mais escuro na região do Cônego e assim se a região entre Sagitário e Escorpião é a décima terceira vertebra na “Espinha Dorsal da Noite” a área ao redor da Nebulosa de Carina pode responder pela alcunha de “Região Cervical” ... E assim levo elas por todos os clássicos austrais tão meus conhecidos. O Aglomerado da Pérola, O Poço dos Desejos, A grande Nebulosa em si, as plêiades do Sul e até um Acrux nascente é visitada. Para encerrar e sabendo que a pequena gostara de estrelas duplas apresento a “Albireo de Verão” (145 C Ma). Depois mando todos para cama e ainda consigo me acertar com Ngc 2169 e capturar suas imagens para o “Projeto Hodierna”. O Synscan está bem mais preciso que na véspera. Sem nenhuma razão aparente que não seja a incerteza...   O delicado aglomerado é bem discreto e só revela suas características mais marcantes com a ocular de 10 mm (120 x de aumento). Adoro projetos observacionais temáticos.  Uma ultima confissão: a foto de Ngc 2169 foi uma das piores que já tirei. Mas com as Plêiades indo tão bem acho que a média ficou aceitável. E aglomerado em questão também se inclui no “Projeto Tudo que Existe”. E neste eu nem considero a possibilidade de fotos bonitinhas para todo mundo. Vale o registro... O drizzle feito no DSS a partir de um empilhamento feito no Rot n Stack ficou medonho. Mas apresenta claramente o porque deste ser conhecido também como “O Aglomerado 37”. Se alguns dos resultados nos Logaritmos do Rot n Stack fossem feitos pelo Pollock valeriam um bom dinheiro...
Albireo de verão
Quase parece com Ngc 2169. 

                E assim encerro mais uma noite. Com dignidade e ainda cedo. 00:20 estou com tudo já meio encaminhado para sair na manhã seguinte rumo a minha casa na arvore e poder continuar minha saga como laboratorista digital. Fico muito feliz ao descobrir que a nebulosa de Merope e de Alcyone foram registradas claramente apesar da interrupção mirim. Meu plano era tirar pelo menos o dobro de fotos.            
Sem hora para nada...


São Sebastião de Lumiar




Depois da procissão...
                Dia 18 finalmente retorno para a “Casa Nas Arvores” em Lumiar. O céu ainda ia claro, mas me reuni com um antigo professor e a cerveja e o saudosismo atrapalharam a observação. A casa não possui nenhum horizonte livre e acabo tentando a sorte na rua em frente. Lógico que apesar do céu bem escuro não dá certo...  Daí para frente o templo nubla e haviam outras coisas a serem feitas para a harmonia familiar harmonizar. E assim fomos a procissão de São Sebastião de Lumiar, bebemos tonéis de cerveja, visitamos locais lindos e tomamos muito banho de rio.  Sem reclamar do céu nublado. Foi todo o set up para a mala do carro onde permaneceu até o Rio de Janeiro...
A Casa nas arvores

casa nas arvores II




                A Aporema de Verão foi diferente do planejado e por isto mesmo sensacional. Uma  versão nômade da festa. Veremos se em fevereiro   as coisas melhoram. Afinal o meu “Magnificent Mini Auto Guider” terá chegado e espero um mês mais seco que janeiro apesar do “Paradoxo de Newgear”.  

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

M 37 : O Melhor Messier de Auriga

          

            Continuando a apresentação dos aglomerados abertos pertencentes ao Catalogo Messier localizados em Auriga (O Cocheiro) chegamos a M 37. Este o único deles fora do perímetro do pentágono que caracteriza a constelação. 
                Os aglomerados Messier em Auriga nos contam uma interessante história.  Até os anos de 1980 eram todos descobertas de franceses. La Gentil tinha descoberto M 36 e Messier tinha descoberto M 37 e M 38. Mas, em um dado momento entre os lançamentos de alguns dos primeiros sucessos da Madonna (ahhhh...os anos 80) que foram “Into the Groove” e “Like a Virgin”, G.F. Serio, L. Indorato e P. Nastasi, publicaram o agora fundamental paper “Hodierna's Observations of Nebulae and his Cosmology” no “Journal of the History of Astronomy, Vol. XVI, No. 45, p. 1-36 (fevereiro de 1985). E pronto ... Todos os abertos Messier em Auriga passaram a ser descobertos pelo até então desconhecido padre siciliano Giovanni Battista Hodierna.  E antes de 1654. Com mais de um século de antecedência sobre nosso caçador de cometas favorito.  Ele o descreve simplesmente como “um local nebuloso”. É difícil saber se ele inclui M 37 em sua categoria de “Luminosae” ou “Nebulosae”. Ele certamente não percebeu estrelas em M 37 com a vista desarmada(Luminosae) mas também é pouco provável que tenha visto algo com auxílio telescópico (Nebulosae) afinal estamos nos primórdios da tecnologia telescópica. É difícil acreditar que Hodierna tenha resolvido algo em M 37 e o que ele de fato viu é matéria de discussão no paper de G.F. Serio.
Mapa de Auriga em  De systemate orbis cometici; deque admirandis coeli characteribus (1654) (Sobre a sistemática do mundo dos cometas e dos admivarveis objetos dos céus)

                Messier redescobriu M 37 na noite de 2 de setembro de 1764. Ele nos deixa a seguinte descrição: “Aglomerado de fracas estrelas a pouca distancia do prévio (M 36); as estrelas são tênues, próximas e contém alguma nebulosidade.”
                Observar M 37 a olho nu é um grande desafio para latitudes mais boreais e através de minha buscadora 10 X 50 mm apenas suas duas estrelas mais brilhantes e ao centro podem ser vislumbradas. Permanece uma impressão de nébula. Smith, demonstrando bem como o interesse astronômico mudou, se refere a M 37 como uma estrela dupla incluída em um aglomerado. E ainda demonstra profundo interesse em outra pequena dupla que também é membro do aglomerado.  Para se resolver o aglomerado é necessário um binóculo de 70 mm ou um pequeno telescópio com pelo menos 30 x de aumento. Telescópios maiores vão mostrar de 40 a 50 estrelas arranjadas em pequenos grupos. M 37 dá uma impressão muito mais concentrada que seus vizinhos M 36 e M 38.


                M 37 é o mais interessante dos aglomerados Messier em Auriga. Com mais de 2000 membros, das quais 150 são mais brilhantes que magnitude 12,5 e com 500 mais brilhantes que magnitude 15 ele apresenta 35 gigantes vermelhas as quais incluem seu membro mais brilhante com magnitude 9,5. Sua estrela mais desenvolvida ainda na sequência principal é uma relativamente jovem estrela do tipo B9. Isto indica uma idade mais avançada que seus companheiros e sua idade é estimada em 500.000.000 de anos.  Sua distancia é alvo de disputa e varia entre 4.300 e 6.700 anos luz. É mais aceito que ele se encontre no limite inferior destas estimativas e com isto ele ocuparia 33 anos luz de universo. Estudos recentes indicam 24 variáveis entre seus membros reais.
                M 37 é, sem dúvida, o mais belo dos abertos Messier em Auriga e quão maior for seu telescópio mais interessante este se torna.



                M 37 se localiza ao leste do ponto central de uma linha imaginaria que liga Mahasim a El Nath (Beta Taurus). Outra opção é iniciar seu “starhoop” a partir de Capella (Alpha Auriga) em locais extrema poluição luminosa. Será um longo caminho e você passará por M 36 e M 38 na jornada. Considero o mais difícil dos aglomerados Messier em Auriga para se localizar. O mesmo passou desapercebido por La Gentil. 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

M 36 e as Coincidências de Adams

             


              Dezembro foi um mês dedicado ao trabalho. A cada vez mais dura jornada por cada vez menos vil metal me manteve bastante ocupado até o dia 23. Depois disto vieram as festas de fim de ano e o clima na terceira rocha a partir do Sol não colaborou com a já tradicional Aporema do fim do ano. O ano novo se passou e não vi nada de novo nos céus.
                Mas o mundo gira e a Lusitana roda. Assim acabei me deparando com um interessante post de um amigo virtual onde surgiu uma das tão queridas aqui pelo Nuncius Australis “Coincidências de Adams”. Estas são relações que apesar de parecerem relacionadas a coisas muito profundas não tem nada a ver com as leis fundamentais do universo. São assim chamadas devido a uma passagem do livro “Guia do Mochileiro das Galáxias” de autoria de Douglas Adams. Neste post o amigo nos mostra que em um triangulo retângulo onde o cateto maior possui o tamanho da soma do diâmetro da Lua e da Terra e o cateto menor possui o tamanho da terra vai nos levar a uma hipotenusa com o valor de Phi. E voilá:  Proporção Aurea, Fibonacci e outras numerologias se apresentam. Mais uma das “Coincidências de Adams” para minha coleção.

                A Astronomia é cheia delas. A Lei de Titius-Bode é uma das mais famosas e de tão incrível foi alçada a lei. Não é. Outra que desafia as fronteiras do saber é o “Paradoxode Newgear”. Este talvez diretamente relacionado a fase “ponto morto” aqui do blog. O paradoxo nos diz que “Sempre que alguém adquirir algum equipamento de qualquer espécie que permita que este alguém aumente sua capacidade de observar o universo este irá conspirar para que as condições atmosféricas neste determinado local do universo impeçam isto por pelo menos 60 dias terrestres.”
                Recentemente ganhei uma antiga câmera Pentax que veio acompanhada de diversas lentes. Com isto K.O. Newgear já ligou para Murphy. Não bastando isto minha tia me presenteou com um sistema de guiagem para Mme. Herschel (minha montagem equatorial HEQ 5 pro). Esta só vai chegar no final de janeiro. Desta forma não levei quase nada para o réveillon que passei em Itaipava. Espero poder desafiar Newgear com alguma margem de vantagem mais a frente no mês em uma temporada que pretendo passar em Lumiar. Lá será Lua nova e com uma janela maior é sempre possível que as borboletas conspirem a meu favor e eu consiga enganar Newgear e Murphy em alguma noite feliz. Ainda sem o sistema de guiagem as chances serão razoáveis.
                Acho importante frisar que em tempos de obscurantismo crescente que as “Coincidências de Adams” não são de forma alguma relacionadas as “Relações de Tornhill-Scott”. Nestas, fatos como Buzz Aldrin e apocalipse possuírem ambos 10 letras, são prova conclusiva de que a relatividade é uma grande fraude promovida pelos reptilianos.  E que o eletromagnetismo resolve qualquer questão fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais...
                Desta forma, devido a “ Paradoxo de Newgear” e a encontrar perdidas no HD fotos de quase exatamente um ano atrás, cheguei até três belos aglomerados abertos em Auriga que eu não poderia deixar de apresentar de forma mais aprofundada aqui. É evidente que falo dos três aglomerados abertos do catalogo Messier que residem na constelação. E em gesto de solidariedade a Tornhill vou apresenta-los em ordem “numerológica”. Vou começar por M 36. E ao decorrer do mês apresentarei M 37 e depois M 38.  A menos que tenha sorte na viagem para Lumiar.
                Antes de falarmos de M 36 acho interessante apresentar Auriga. Uma das mais antigas constelações e uma das regiões mais ao norte dos céus cariocas onde ainda é possível se perceber alguma coisa em locais de forte poluição luminosa (Bortle acima de 6).

                Auriga (“O Cocheiro” em mapas lusófonos) é uma das 48 constelações listadas por Ptolomeu no século II. Mas sua história remonta ha muito mais tempo. Os primeiros registros de suas estrelas remontam aos tempos da invenção da escrita e assim aos primórdios da História. Na Mesopotâmia. Chamada de GAM a constelação representaria uma cimitarra. Embora existam duvidas de se este titulo se referia a constelação em si ou apenas a sua estrela mais brilhante (Capella).  Já no tempo dos gregos e dos mitos mais bem contados de todos os tempos a constelação, que possui a forma evidente de um pentágono formado pelas estrelas Alpha Aurigae (Capella), Beta Aurigae, Iota Aurigae, Theta Aurigae e a “emprestada” Beta Tauri, esta  passa a representar Erichtonius de Atenas. Este filho de Hefáistos e criado pela deusa Athena. Foi o inventor da Quadriga. Uma espécie de “Ferrari” das carruagens com 4 HP (Puxada por quatro cavalos) de potência. Auriga significa Carruagem. Segundo a lenda inspirada na carruagem de Zeus. Este o colocou no Céu em tributo a sua engenhosidade e feitos heroicos. Não bastasse isto Capella (Alpha Aurigae) representa a cabra Amalthea. Esta foi que amamentou Zeus. Capella significa “pequena cabra”. É a 6a estrela mais brilhante dos céus. Trata-se de um sistema quadruplo.
                Com a Via Láctea cortando a constelação é berço de diversos DSO´s .

                Finalmente M 36....
                Este aglomerado aberto foi descoberto por Hodierna na Ilha da Sicília em 1654. Mas como o Catalogo por este organizado teve uma distribuição ainda menor que “O Sul Profundo” sua descoberta só chegou a publico, de fato, em 1984. Apenas 330 anos depois... E assim todos os guias observacionais clássicos (e mesmo Burnham) indicam La Gentil como seu descobridor no ano de 1749. Messier observou o mesmo em 2 de setembro de 1764 e escreveu: “Aglomerado de estrelas no “Cocheiro”. Com um simples refrator de 3 ½ pés suas estrelas são mal percebidas; o aglomerado não contém nenhuma nebulosidade. 9´ de diâmetro”.
Cerca de um século mais tarde Smyth, em seu Bedford Catalogue (o volume II de seu livro “Cycles of Celestial Objects”) nos dá uma descrição curiosa do mesmo: “Um dispositivo de uma estrela cujo os raios são formados por pequenas estrelas.”  D´Arrest parece ter uma impressão semelhante e diz “extremamente rico e bonito aglomerado. Originando-se do centro muitas estrelas se arranjam em três finas espirais.”
                Observando com o Newton (um refletor de 150 mm f8) com 48 X de aumento ele me recorda uma versão minimalista das Plêiades. Estudos posteriores indicaram que minha impressão era bem correta.
                M 36 é um aglomerado bem jovem como as Plêiades e sua população é bastante semelhante. Mas se encontra dez vezes mais distante há 4300 anos luz.  O aglomerado possui 178 membros confirmados. Sua estrela mais brilhante é uma gigante azul de um jovem tipo espectral B 2. Todos os seus membros mais brilhantes são da classe B e atestando sua juventude não possui nenhuma gigante vermelha em suas fileiras. Algo entre 20 e 40 milhões de anos apenas.


                De locais altos, escuros e mais ao norte M 36 pode ser percebido a olho nu como uma estrela enevoada. Já realizei o feito, mas estava no hemisfério norte e na entrada de um parque nacional muito preservado. Aqui do Rio ele será percebido pela buscadora  (10X50 mm) e irá começar a se resolver. Geralmente parto de Capella e navegando pela buscadora não é difícil perceber M 36. Atenção para não se confundir com M 38 que é bem próximo. Junto ao centro do aglomerado habita uma delicada e fácil dupla: Struve 737.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

M 92 : Um Ancião entre Anciões



        M 92 é primo irmão de M 28. São ambos globulares de uma família que nasceu para ser ofuscada pela família dos “Grandes Globulares”. M 28 é praticamente esquecido devido a sua proximidade de M 22 (O Grande Aglomerado de Sagitário). M 92 sofre a mesma sina por habitar ne mesma constelação de M 13 (O Grande Globular de Hércules). Em minha missão auto imposta e já próxima do fim de fotografar todos os globulares Messier ele acabou ficando para trás provavelmente devido a isto e também por passear baixo no horizonte norte aqui pelas bandas do trópico de Capricórnio. Não bastasse isto sua foto acabou esquecida em uma pasta errada de meu HD e este aglomerado pé frio acabou esperando ainda mais tempo para ser aqui apresentado.  Uma Tremenda injustiça...
          Como Burnham nos diz “M 92 é um lindo e rico aglomerado globular que em qualquer outra constelação seria um espetáculo à parte. Mas em Hércules...”. Vocês podem imaginar como termina esta sentença.  
Localizado a cerca de 6o norte de Pi Herculis, que é a estrela que marca o canto nordeste do chamado “Keystone” de Hercules. Este é um asterismo em formato trapezoidal que permite uma fácil identificação da constelação.  Nos meus locais habituais de observação M 92 sofre um pouco com sua baixa altitude e é muito exposto a poluição luminosa. Mesmo assim (em noites boas) ele é perceptível como uma estrela enevoada em minha buscadora (50 mm) e evidente com meu 15X70 mm. Quando observado com o “Galileu” (um refrator de 70 mm) com 90X de aumento desconfio de alguma resolução em suas bordas. Ou ao menos um aspecto granular. Utilizando o Newton (um refletor de 150 mm) e com 120X suas bordas se resolvem e M 92 começa a mostrar seu charme.
       Perceber M 92 não é difícil realmente. É um globular brilhante e certamente deve ser mais interessante ainda se observado do hemisfério norte da terra.  Sua orbita apresenta grande excentricidade e este ao longo de seu passeio de 200 milhões de anos do centro galáctico pode se encontrar a 5000 anos deste ou a 35.000 anos deste. Devido a precessão da rotação do eixo da Terra em 14.000 anos ele se encontrará a menos de 1o  do polo norte celeste e fora do alcance para habitantes da cidade Maravilhosa...  E meu projeto para fotografar todos os “Globs Messier” ou iria para o brejo ou sairia ainda mais caro.
M 92 reside, no momento, a 25.400 ano luz da terra e com um diâmetro aparente de 14 ´ se espalha por um latifúndio de quase 104 anos luz de universo. Sua descoberta se deve a Bode que o observou em 1777. Este foi redescoberto de forma o independente por Messier em 1781 e este nos diz tratar-se de “Uma bela e conspícua nebulosa, bastante brilhante, entre o joelho e a perna esquerda de Hercules. É claramente visível com um refrator de 1 pé (se refere a distância focal do equipamento).  Não contem nenhuma estrela. Seu centro é limpo e brilhante. cercado por nebulosidade e recorda o núcleo de um grande cometa...”. Herschel resolve o objeto e Smith, em 1844, relata: “Um aglomerado globular de pequenas estrelas, precede a perna de Hercules. Este objeto é grande, brilhante e resolvível (Smith utilizou sempre um refrator de 150 mm em seu trabalho), com um centro muito luminoso; e sob as melhores condições apresenta as bordas irregulares e radiantes”. Smith no legou um desenho de M 92.  Trouvelot também desenhou o aglomerado em 1877. Cem anos depois de sua descoberta.
M 92 é um globular muito antigo e sua idade foi durante muito tempo paradoxal. Muito pobre em metais houve um momento que ele seria mais velho que o próprio universo. Em modelos antigos da evolução estelar em globulares acontecia este “pequeno” problema. Mas isto devia-se a modelos cosmológico antigos onde a expansão do universo desaceleraria. De qualquer forma ele é um ancião entre anciões. 14 bilhões de anos....
Smith

Trouvelot

Nos tempos de Hipatia (minha montagem equatorial EQ 2-3) para localizar M 92 eu, geralmente, mirava com meu “red dot Finder” em Pi Herculis e calculava o salto até o aglomerado por esta. Depois partia para a minha buscadora optica (8X50 mm) e geralmente com rápida escaneada chegava até ele. M 92 passeia bem baixo no horizonte e pode ser enganadoramente estelar de Búzios e muito discreto do Rio.  O´Meara nos diz que é facilmente perceptível a olho nu. Com magnitude 6.5 é uma possibilidade. Se você morar em um local muito escuro e ao norte do equador.
As fotos que fiz do globular demonstram bem isto. Foram realizadas em Búzios 21 de julho de 2017. Mesmo com a lua quase nova havia muita nebulosidade no ar e embora a maioria dos mortais acredita-se ser uma noite “limpa” eu sabia que a transparência não estava lá estas coisas. O sensor de minha câmera sabia disto também e o ruído nas fotos evidencia isto mais ainda. 
Existe um recurso no Deep Sky Stacker (um software para astrofografia) que permite “ampliar” os objetos fotografados. Na verdade, você determina uma região a ser empilhada nas fotos capturadas utilizando o recurso de Drizzle deste. Quando suas fotos estão muito boas este pode revelar vários detalhes. Quando não este pode revelar muito ruído. Com “2X Drizzle” este se torna muito evidente e com “3X Drizzle” insuportável.  A técnica de drizzle foi elaborada pela NASA para as observações feitas pelo “Hubble Deep Field”. De maneira simples o que ela faz é que um objeto que na captura inicial ocupava apenas x pixels passe a ocupar 2x pixels (2X Drizzle) ou 3x pixels (3X Drizzle) na imagem processada.

sem drizzle

2 X drizzle

3 x drizzle

Desta forma apresento aqui M 92 em todas as suas versões fotográficas por mim obtidas. Tentei utilizar diversos softwares para melhora a coisa, mas sem grande sucesso. E curiosamente quando tentei utilizar o PixInsight para remover o gradiente das fotos o ruído se tornou ainda pior. Apesar deste ser um programa mais poderoso ele, neste caso, rendeu menos que o Fitswork na tarefa.
Acho importante frisar que a captura sofreu muito com a nebulosidade e diversos objetos fotografados na mesma noite passaram pelo mesmo problema. Evidentemente que DSO´s que se encontravam mais altos no céu foram menos influenciados. O DSS já dava dicas de problemas na captura de M 92. Dos 30 frames capturados ele nunca aceitou mais que 18. E mesmo assim com um limite muito baixo. Nas fotos aqui apresentadas e com um “threshold” de 9% ele só aceitou 11 fotos das 30 realizadas. As exposições foram de 30 segundos e o ISO 1600.
As fotos foram realizadas com o Newton, uma Canon T3 montadas sobre uma montagem equatorial HEQ 5 Pro da Skywatcher. Na observação visual este mal se apresentava na buscadora e havia muito pouca resolução nas bordas com 120 X de aumento.
 Mas missão dada missão cumprida. Faltam-me fotografar M 73 e M 68 no “Projeto Globulares Messier”. Como estou trabalhando até 22 de dezembro em busca do vil metal e com a esperança de poder me dar de presente um sistema de acompanhamento para o Newton este vai ficar para 2018...

                

domingo, 12 de novembro de 2017

M 20 e a Nebulosa de Porter Mason

              
             M 20 é um dos DSO´s mais famosos de todos os céus. É um conjunto de diversas estruturas como a maior parte das nebulosas galácticas. Uma das mais ricas ao alcance de pequenos telescópios. E um daqueles poucos, que havendo uma combinação favorável no tempo e no espaço, poderá apresentar algum colorido para a visão dos amadores. Ou pelo menos mimetizar isto. Pode ser efeito de seus grandes contrastes. Ao combinar luz e trevas ela faz o truque. Assim como a mais difícil de se observar “Nebulosa Cabeça de Cavalo”.  A Cabeça de Cavalo é resultado de uma nebulosa escura a frente de uma nebulosa de emissão. A mistura de IC 434, uma nebulosa de emissão, com uma nebulosa escura (B 33) é que torna possível se perceber o formato característico e que batiza a região. É um caso típico do todo sendo identificado pela parte.
                M 20 é um caso tão complexo quanto a região no entorno de Alnitak em Orion. Neste recanto de Sagitário temos uma nebulosa de emissão, uma nebulosa de reflexão, um aglomerado aberto e uma nebulosa escura bordando a paisagem. A nebulosa escura que é responsável pela aparência que nomeia a região é também uma entrada do Catalogo de nebulosas escuras organizado por Barnard (B 85).    
                Ela é incluída em diversos catálogos. Em alguns apenas a nebulosidade é o registro (Sh 2-30). Em outros se considera o aglomerado que a ilumina como sendo o alvo principal (Cr 360).  
                Algumas fontes irão atribuir a descoberta de M 20 a La Gentil. Mas é hoje opinião amplamente aceita que a observação de Gentil seja um mal-entendido e este tenha visto na verdade M 8.  Bigourdan, já no final do Sec. XIX, parece ser o responsável pela confusão.  
                Messier parece ser o primeiro a registrar o aglomerado que habita a região. M 20 não nasceu como “A Nebulosa Trífida”. Messier nos fala na sua 20a entrada, em observação realizada em 5 de junho 1764, de “um aglomerado de estrelas, levemente acima da eclíptica, entre o arco de Sagitário e o pé de Ophiuchus.” Posteriormente Messier observa M 20 novamente em 22 de março de 1781, mas não acrescenta nada de novo.
                William Herschel é o primeiro a perceber com certeza nebulosidade na região. Mesmo observando da Inglaterra.  Sua latitude muito austral faz de M 20 um alvo ingrato para os observadores muito boreais. Webb no “Celestial Objects for Common Telescopes” nos diz que o objeto foi pobremente observado tanto por ele como por Smyth. Na verdade, este último sequer apresenta uma entrada própria para o conjunto que é apenas citado vagamente na apresentação que este faz de M 23. Tenho a impressão que Smyth não chegou a observar M 20 de fato. Ele fala em um aglomerado cruciforme que Messier suspeitava ser cercado por nebulosidade.
                De volta a Herschel, com seu maior poder de fogo, é o primeiro a perceber algo da natureza tríptica de M 20. “Três nebulosas, fracamente unidas, formam um triangulo. No meio há uma estrela dupla.” Posteriormente (26 de maio 1786) ele acrescenta uma nota falando de uma parte ao norte separada.
                Seu nome mais popular “A Nebulosa Trífida” remonta a John Herschel que dando continuidade ao trabalho de seu pai a observa da Cidade de Cabo. “Trífida, três nébulas com um vácuo por entre as brumas, no qual está centralizada uma estrela dupla. “
                É curioso que John não tenha percebido a quarta parte (a mais ao norte) citada por seu pai observando de latitude tão favorável.
                Mas o azar de um é a sorte de outro. Na mesma época que John Herschel desenvolvia mapas descritivos de nebulosas visando perceber alterações nas mesmas e dar suporte a hipótese nebular um jovem e quase desconhecido astrônomo americano vinha desenvolvendo um trabalho semelhante e de forma independente.
                Dizer que Ebenezer Porter Mason foi um cara de sorte é uma mentira deslavada. Ele foi uma daquelas figuras geniais e marcadas pela tragédia. Um gênio precoce que na história recente me recorda Noel Rosa.  
                Para se confirmar ou não a hipótese nebular desenvolvida por William Herschel (que defendia que estrelas se formavam pela contração e condensação do fluido nebular) era necessário que criassem mapas confiáveis para comparar-se a estrutura das nebulosas ao longo do tempo.
                Porter Mason criou uma técnica que permitia uma precisão incrível e uma proposta original no registro de nebulosas.  Ia o ano de 1839. Ele se utiliza de linha de isofotons ou linhas de igual brilho para registrar as nebulosas por ele escolhidas para sua tese e legado. A técnica de isolinhas é muito utilizada em mapas topográficos.
                Mason, em sua curta vida, (1819-1840) foi um prodígio desde a mais terna infância e aos 16 anos adentrou em Yale.  Lá construí diversos telescópios e finalmente acabou construindo aquele que foi o maior telescópio nos Estados Unidos durante sua curtíssima passagem por aqui. Um refletor Herscheliano de 300 mm.
Desenhos de Porter Mason -M 20

                Com este ele observou M 20 durante 6 noites em julho e agosto de 1839.  Durante as duas primeiras noites ele percebeu apenas a mais conhecida e brilhante nebulosa de emissão que forma a parte sul de M 20 (Ngc 6514) “onde percebem-se as três fendas que a dividem sem nenhuma dificuldade.  Então na noite de 7 de agosto ele vislumbrou a parte norte desta e que hoje sabemos tratar-se de uma nebulosa de reflexão. Embora a pequena nota de William Herschel, Porter é o primeiro a registrar de forma gráfica esta sessão da nebulosa.  “eu e Sr. Smith que a grande estrela imediatamente adjacente (à nebulosa principal) estava cercada com uma nebulosa distinta não muito inferior ao brilho da Trífida.  Não podia ser negligenciada e foi percebida no primeiro vislumbre do campo. Seus limites são quase tão grandes quanto os da nebulosa Trífida com os quais está quase em contato.  Parece-me que M 20 é a primeira nebulosa onde Mason utiliza suas linhas de “isofótonicas”. Parece também ter sido a única. Embora um desenhista muito competente o único registro deixado por ele com esta técnica foi de M 20. As outras nebulosas por ele estudadas a fundo foram a Porção Leste da Nebulosa do Véu (Ngc 6992 e 6995) e M 17
                Infelizmente em pouco mais de um ano depois ele perde sua batalha para a tuberculose. Ebenezer Porter Mason falece na noite de 26 de dezembro de 1840. Com 21 anos.
Em 1841 é lançado seu grande legado ““Observations on nebulae with a fourteen feet reflector, made by H.L. Smith and E.P. Mason, during the Year 1839”.  Neste estão todos os seus desenhos bem como o apanhado de técnicas que ele utiliza para realiza-los. E diversas conclusões...
                Porter Mason, em sua curta vida, parece ter impressionado a muitos. O próprio John Herschel rasga elogios ao rapaz e seu professor e mentor em Yale Denison Olmsted escreve uma bela biografia onde resgata seus maiores trabalhos (Life and Writings of Ebenezer Porter Mason: Interspersed with Hints to Parents and Instructors on the Training and Education of a Child of Genius).
                Sua observação da parte norte de M 20 acabou por tornar esta pequena área de M 20 também conhecida como a “Nebulosa Porter Mason”. Este apelido parece ser fruto de observações feitas 40 anos depois de sua morte por Swift, que ou confunde as coisas ou vê algo que não foi até hoje revisitado. Ele nos diz: “Para minha extrema surpresa eu detectei ainda uma outra grande nébula que segue próxima a Trífida, a qual, é estranho dizer tem também um caráter tríptico.  E que possui uma língua ou uma conexão como “Nébula de Mason and Smith”.
 É importante lembrar que na dupla Smith era o rico que permitiu custear o  telescópio de 300 mm ( foi talentoso astrônomo também e segue uma bela carreira. Não confundir com o Admiral Smyth que foi autor do “Cycle of Celestial Objects” e sócio aqui no Nuncius Australis). Mas Mason foi o prodígio... Foi ele o responsável pelas observações e desenhos.
A porção da nebulosa a esquerda da foto é a "Porter Mason". Esta foto  é resultado de 28 exposições de 30 Seg. 1600 ISO Julho de 2017. Foi destacada a região em questão. Fotos capturadas em RAW e tratadas como escala de cinza.A foto que abre o post foi realizada em Julho de 2015. Não recordo mais quantas exposições...
                Tendo chegado até Mason através do “Observing and Cataloguing Nebulae and Star Clusters: From Herschel to Dreyer’s New General Catalogue” escrito por Wolfgang Steinicke fiquei curioso sobre como estes detalhes de M 20 me haviam passado. E fascinado pela figura poética de Porter Mason vou atrás de algumas fotos recentes que tinha feito de M 20.  Com alguns ajustes no Photoshop e ressaltando o brilho da porção “Porter Mason” de M 20 eu achei que Swift pode apenas ter  se emocionado um pouco com o que viu. Com o auxílio da fotografia eu consigo entender que a porção norte de M 20 tenha mesmo um caráter de tríptico em escondido por ali. Nada tão evidente com sua porção principal, mas regiões escuras fazem um recorte interessante e passível de imaginação pelo observador. E creio que esta região não tenha sido incluída no que Barnard denominou como B 85.

                M 20 é um objeto riquíssimo e que demanda noites e noites de observação para revelar todas as suas nuances. Mesmo registros fotográficos serão distintos dependendo do que se decidir buscar neste celeiro de estruturas celestiais que atende em conjunto pelo nome de M 20. Observar a “Porter Mason” é um objetivo possível para donos de pequenos telescópios . Mas demanda atenção e especialmente não ser distraído pela porção mais óbvia e brilhante do conjunto da obra. Um excelente exercício para o astrônomo visual obstinado...  

terça-feira, 31 de outubro de 2017

M 35 , Meteorologia e um Vizinho


         M 35 é um dos mais belos aglomerados abertos dos céus. E é um local repletos de coincidências, que ao contrário da maioria destas podem ser relacionadas a algumas leis fundamentais do universo.
                O aglomerado é considerado como um arauto do bom tempo. Conseguir perceber M 35 a olho nu significa uma transparência absurda e é sinônimo de tempo seco.  Uma das coincidências é que a astronomia e a meteorologia caminham juntas desde a antiguidade.  Aratus (270 A.C.) em “O Céus” (Phenomena) nos apresenta o legado de Eudoxus e o conhecimento dos fenômenos celestes nos tempos de Platão. No mesmo compêndio ele apresenta “A Previsão do Tempo” (Diosemia) . Em forma de poesia ele reúne as duas ciências em um único volume. Não me parece coincidência.
“Known are their laws ; in harmony unroll
The nineteen-orbed cycles of the Moon.
And all the signs through which Night whirls her car
From belted Orion back to Orion and his dauntless Hound
                          Aratus na tradução de E.Poste


                Aratus nos apresenta o caminho do sol pelo céu e as constelações do Zodíaco. Curiosamente ele nos mostra como o sol se encontra em Gêmeos no Solstício de verão (A História como a conhecemos costuma se passar no Hemisfério Norte) .
                É aí que as coisas começam a ficar interessantes. Alguns milênios mais tarde Serviss (O Carl Sagan do séc. XIX) nos conta em seu antológico “Astronomy with na Opera Glass” que no momento que o sol atinge sua maior declinação norte ele se encontra sobre M 35. Na verdade a frente de M 35.  “No brilho do pôr do sol aquele enxame estelar é escondido de nossa visão, mas com os olhos da mente podemos olhar através e além do nosso sol pelo abismo incompreensível do espaço e o contemplar ainda brilhando, seus raios misturados ao nosso grande Deus do Dia o fazendo então parecer apenas mais um vagabundo solitário na extensão do Universo”.
                Não bastasse isto Serviss ainda nos lembra que apenas alguns graus a sudoeste deste (lembrem-se: o zodíaco e a eclíptica são "quase"  mesmo lugar) William Herschel descobriu Urano na noite de 13 de março de 1781.
                M 35 é ainda (e também por isto. Era grande fã de Serviss) o aglomerado aberto preferido de Walter Scott Houston, este o criador e autor da coluna Deep Sky Wonders por várias décadas na revista Sky and Telescope.  Scott nos conta na sua coluna de março de 1964 (dias antes do Golpe de 1 de abril aqui nas terras tupiniquins) que aprendeu as constelações lendo o livro de Serviss.  Nesta ele fala que não possuía um binoculo de ópera, mas sim uma luneta de 25 mm feita com uma lente subtraída de um óculos materno e com uma lupa obtida de seu pai. Foi assim que ele viu M 35 pela primeira vez. E mesmo assim a impressão que ficou foi de maravilha...
                Todos os autores (desde Smith) falam que M 35 é perceptível a olho nu como uma pequena região nebulosa em noites favoráveis. Mas nenhum dos autores mais antigos jamais afirmou ter, de fato, visto M 35 a olho nu.  Houston tinha  por hábito em suas explorações examinar o que era possível observar sem recursos extraordinários.  Em sua apresentação de M 35 (A Gema de Gêmeos) ele nos fala “... amadores rotineiramente se testam tentando observar o aglomerado a olho nu. Isto o coloca na mesma classe que a galáxia M 33 e a Luz Zodiacal.  Skiff contou 434 estrelas entre as magnitudes 8.2 e 15.3 e conclui que a magnitude total do aglomerado seria de 5.1. Portanto ao alcance da vista humana. Mas com o brilhante fundo composto pela via láctea pode ser um pouco mais difícil do que parece.  De qualquer forma numa madrugada limpa de setembro de 1984, Dennis de Cicco (Editor de S&T) enquanto aguardava pelo “nascer” do Cometa Austin buscou por M 35. e ele estava lá. Eu o vislumbrei assim, mas com o auxílio de um filtro para nébulas (não especificado) de meu quintal em Connecticut.  Poderia alguém identificar estrelas individuais no aglomerado sem auxilio ótico? “
                O biônico Stephen James O´Meara, em seu “Deep Sky Companions- The Messier Objects” nos fala que embora ela tenha certeza de resolver algumas estrelas ele não consegue as localizar com absoluta precisão e teme estar sendo enganado por sua mente. E assim parece que o desafio ainda esta de pé...
                Eu, no meu modesto astigmatismo, consegui perceber M 35 (com uso de visão periférica) algumas vezes em Búzios. Somente como uma leve nebulosidade bem pequena. Mas de um existir acima dos padrões de Espinoza. Portanto ele estava lá mesmo. No dia seguinte deu praia. Definitivamente há uma relação entre a observação a olho nu de M 35 e o clima no planeta. Quase uma lei fundamental se considerarmos o bater da asa das borboletas como desprezível em nosso modelamento.
                Quanto a minha a observação visual de M 35 tenho que levar em conta uma coisa. Parafraseando Smyth “Muitas coisas, consideradas invisíveis, são simples demais para quem sabe aonde olhar”. O fato de não haver nenhum registro de M 35 a olho nu durante a antiguidade não garante que isto não tenha acontecido. Aristóteles percebeu M 41 a olho nu e desta forma este continua sendo o mais tênue objeto conhecido na antiguidade clássica. M 35 possui magnitude 5.1 e M 41 de 4.5. É uma diferença considerável.   E naqueles tempos ninguém sabia aonde estava M 35... (A frase de Smyth, em uma tradução ipsis litteris, que encontrei na abertura do “Celestial Objects for Common Telescopes” de Webb é esta: Muitas coisas, consideradas invisíveis aos instrumentos secundários, são simples suficiente para quem sabe como vê-las.).
                A descoberta oficial de M 35 é alvo de alguma discussão, mas é atualmente o mais aceito que sua primeira observação tenha sido feita por De Chéseaux em 1745 ou 1746.  Mas como sua lista de nebulosas não foi publicada (foi apenas apresentada uma vez a academia em 6 de agosto 1746) e tornou-se mais conhecida apenas após sua investigação por Bigourdan em 1892 muitos autores atribuem a primeira observação a John Bevis. Este o inclui em seu Uranographia Britannica que foi completado em 1750.
                É este o caso de Messier, que elegantemente cita o trabalho de Bevis: “Aglomerados de muito tênues estrelas, próximo ao pé de Castor (o gêmeo mais a oeste), não longe de m e h   nesta constelação. M. Messier marcou sua posição na carta para o cometa de 1770.  Posição foi “plotada” no Atlas Celeste Inglês (o Uranographia Brittanica de Bevis).

Eu não consigo ver aonde esta indicad a posição de M 35 na carta de Messier para o Cometa de 1770 . 

                É bem interessante o acesso de Messier ao Atlas de Bevis.  Seu atlas nunca foi publicado por formas tradicionais. O editor do Atlas, John Neale, faliu antes da conclusão do projeto. Porém alguns “plates” para a impressão foram feitos e impressões feitas antes da ruina de Neale. Estas foram posteriormente vendidas e se tornaram volumes “completos”. O Uranographia Brittanica de Nevis é um livro raríssimo. De 17 cópias feitas resta hoje somente uma. (Claro que foi digitalizada e qualquer um pode ter acesso a essa “raridade”.) 
Uranographia Brittanica . Plate 24 -M 35 esta discreto ,mas claramente marcado junto ao pé de Castor.  


              M 35 também ranqueia alto nas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do Universo. Seu descobridor não publicou sua descoberta (Cheseaux), seu primeiro registro foi em um Atlas “não publicado” que Messier teve acesso e este mesmo marcou sua posição na Carta do Cometa que mais perto já passou da terra e que atualmente encontra-se perdido...
                A melhor descrição e uma que eu gostaria de ter escrito para o aspecto de M 35 visto por uma buscadora é a de Serviss: “O aspecto geral é como um pedaço de prata fosco sobre o qual uma luz cintilante esta a passear”. Ele segue nos dizendo “que o esplendor desta congregação cósmica, vista por um telescópio mais poderoso, pode ser entendido a partir da pitoresca descrição do Admiral Smyth:  Este apresenta um magnifico campo estelar, da nona até a décima sexta magnitude, mas com um centro de massa menos rico que o restante. Estrelas pequenas se inclinam formando curvas de três ou quatro membros geralmente com uma grande estrela na raiz destas curvas. Lembra um pouco um a ignição de um foguete."
                 De fato, a descrição de Smyth casa muito bem com o que observo com o Newton. (meu Refletor 150 mm f8).
              A melhor forma de observar M 35 no meu set up é com minha ocular de 40 mm. Mesmo assim ele preenche uma boa parte do campo. Este ocupa uma área igual a lua cheia. Se resolvem  varias dezenas de estrelas e o "buraco central" empresta uma aparência de rosquinha ao aglomerado. 
                
                Analisando seus membros M 35 possui uma idade entre 100.000.000 e 200.000.000 de anos. Relativamente jovem. Ele possui 20 membros com magnitude inferior a 10, 120 membros com esta até 13 e 2700 estrelas que pertencem ao aglomerado considerando-se até a magnitude 21. Sua estrela mais brilhante é uma gigante branco azulada de magnitude 7.5. É uma estrela do tipo espectral B3. As mais antigas estrelas genuinamente ainda na sequencia principal são do tipo B6 e B7 e possuem magnitudes de 8.8 e 9.2
                Atualmente a distância mais aceita para M 35 é de 2710 anos luz. Disto podemos derivar um tamanho físico de 22 anos luz.  Isto implica em uma densidade estelar média de 3 estrelas por ano luz cubico.
A foto que abre o post e esta são a mesma. Resultado de 15 frames de 20 segundos com ASA 3200. 4 Darks. DSS+PixInSight+ PhotoShop+ Noiseware.
Realizadas em Buzios em janeiro de 2016. 

                Como podemos perceber nas fotos M 35 apresenta um interessante companheiro cósmico diretamente a sudoeste. Ngc 2158. Este descoberto por William Herschel. Residindo a uma distância muito maior (12.000 anos luz) é um dos mais distantes abertos conhecidos. Possui magnitude 8.6 e é um alvo visual difícil e muito suscetível a poluição luminosa. Com uma idade estimada na de 2 bilhões de anos faz parte daquele grupo de aglomerados abertos que possuem um parentesco no seu diagrama H-R com globulares.  Sua longevidade pode ser atribuída a evidente concentração estelar que é óbvia na imagem.  Arp (um dos Dons quixotes da astronomia) relaciona a formação deste (junto com M 188, M 67 e Ngc 752) a sua posição na galáxia e os coloca como uma transição entre globulares e abertos. A metalicidade destes parece corroborar com a ideia. Estes abertos “antigos” teriam se formado próximos ao halo em um momento anterior na evolução galáctica e assim menos “contaminados” por metais mais abundantes próximos ao centro da galáxia e posteriormente na história química da mesma.  Seu tamanho físico é muito semelhante ao de M 35 e assim é um par que serve bem como exemplo para a relatividade das coisas.Nas fotos ele tem um que de "Globular"... 
                    Observando com a mesma 40 mm que utilizo em M35 o aglomerado se disfarça no campo. Demanda atenção para ser percebido. Utilizando a 10 mm e isolando o mesmo ele ameaça se resolver mas jamais na integra. Não é um alvo fácil visualmente. especialmente com pequenos telescópios. No meu 15X70 é apenas uma suspeita névoa. Creio que em céus muito escuros seja uma presença mais obvia.  



                M 35 é um dos mais ricos aglomerados que conheço e creio que qualquer um que tenha um primeiro contato com o mesmo, independente do aparelho utilizado na observação, não passe por um momento de assombro e admiração e até humildade perante tal maravilha.   E se o observar a olho nu pode ter certeza que é uma grande noite para se buscar por alvos mais difíceis...