segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ngc 5460 , Evolução e o PixInsight LE

   
    Estou lendo um livro bastante interessante. Seu título é auto explicativo. “ Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”.  Seu autor ( Yuval Noah Havari) nos conta como nos tornamos a única espécie do gênero Homo que sobreviveu. E de como fomos, provavelmente, os principais responsáveis pela extinção e/ou absorção de nossos parentes mais próximos. A seu ver a principal razão de nosso “sucesso” evolutivo deu-se por uma revolução cognitiva. Encurtando uma história longa  (recomendo que leiam o livro. É bem escrito e pode ser bem mais realista do que muitos “Sapiens” gostariam de acreditar ou até mesmo acreditam) ele nos conta que ao redor de 2,5 milhões de anos surgiram os primeiros humanos (membros do gênero Homo) que evoluíram de um simpático grupo de primatas que atendiam pela alcunha geral de Australopithecus (perceberam o “ Austral” no início do nome? “Os macacos do Sul” são, de certa forma, os antepassados de todos que você conhece. Galileu, Newton, Herschel, eu e você). Avançando o filme chegamos a 150.000 anos atrás. Neste momento o sapiens já está estabelecido. Mas não era de forma alguma o rei do Pedaço. Existiam pelo menos seis espécies do gênero Homo dividindo a terra com ele. E todas elas ocupando um posto bem “mais ou menos” na cadeia alimentar. Comíamos basicamente tutano. Os leões, hienas e afins comiam a carne. Nós roíamos o osso. Mas como Mestre Nestor Capoeira já dizia: “Parece que para mim osso não foi tão ruim assim”.   
Pelos próximos 70 ou 80 mil anos as coisas não mudaram muito. O Homo Sapiens continuava habitando a África oriental e só. Mas aí algo aconteceu. 70.000 anos atrás esta espécie de humanos (sapiens) começou a se espalhar pela Península Arábica e daí para a Eurásia. Bem rapidamente. Curiosamente conforme estes iam se espalhando as outras espécies do gênero Homo iam perecendo.  Apesar de bases fosseis insuficientes algo aconteceu. O Mundo seguramente era habitado por quatro ou mais espécies do gênero Homo. Os últimos remanescentes do Homo denisova desapareceram há 50 mil anos atrás. Mais 20 mil anos e os Neandertais se juntaram a lista dos animais extintos. E o diminuto Homo floresiensis nos abandona há 13 mil anos atrás. Só sobramos nós, o Homo sapiens.
                O que teria acontecido por volta de 70 mil anos atrás que levou esta espécie especifica de humanos a proliferar enquanto as outra minguaram?
                O autor acredita que em um último ato evolutivo o nosso cérebro e as “nossas sinapses” começaram a funcionar de forma mais eficiente. A nossa linguagem deu um salto e isto nos fez mais eficientes fofoqueiros e mais curiosos que nossos primos. E voilá.... Olhamos para o céu e criamos constelações e mitos. A tal da revolução cognitiva que nos levará a topo da cadeia. Seremos os senhores das moscas....
                Depois disto, como dizem, é história. Mais alguns poucos milhares de anos e todo o registro da humanidade (agora composta apenas por Homo sapiens) vai ser registrado de forma escrita.
                Depois disto a curiosidade do Homo sapiens nos levou até Ngc 5460.
                Possuo diversos projetos observacionais em andamento. Tendo concluído o “Projeto Lacaille” iniciei diversos outros. O mais ambicioso destes e que habita mais o terreno das lendas que da astronomia está o “Projeto Tudo que Existe”. Apesar do nome ele consiste em tentar observar “apenas” todo o Catálogo NGC antes de partir para o infinito.     
                Em noite de lua (quase) cheia e sem maiores pretensões   olho para a tela de meu lap top e pinço Ngc 5460 no Stellarium. Um aglomerado aberto perfeito para o “Projeto Tudo que Existe”. Posteriormente ele se revela também membro do “Projeto Dunlop 100”. Este mais modesto e ao alcance do “Newton” (meu refletor de 150 mm f8) e composto por uma lista observacional organizada por Glen Cozens na qual se reúnem os 100 objetos mais interessantes observados por James Dunlop durante seu pioneiro levantamento de nebulosas do céu Austral realizado em apenas 7 meses de 1826.
                Ngc 5460 é um delicado e disperso aglomerado aberto localizado a cerca de 2o de Alnair (z Centauro).  Tendo escapado de Lacaille sobrou para Dunlop  esta bela presa capturada em 7 de maio de 1826.  Esta é a entrada 431 de seu catálogo:
                “ Uma curiosa linha curvada de pequenas estrelas, de magnitude quase igual; duas estrelas ao leste”.
                O próximo sapiens a vislumbrar esta pequena joia foi John Herschel:
                “ Uma região de grande, brilhantes, 8, 9 e etc.. magnitudes; um aglomerado bem disperso. Um grupo brilhante. Uma delas uma dupla de classe III. (h3555) ”
                William Herschel (pai de John) dividia estrelas duplas em 6 classes. As estrelas duplas de classe III apresentam uma separação entre 5´´ e 15´´ de grau.
                Ngc 5460 é classificado como um aglomerado (pelo sistema Trumpler) como II3m. Ou seja: um aglomerado que possui pouca ou nenhuma concentração central, destacado das estrelas de fundo e moderadamente rico.

                O aglomerado é perceptível mesmo pela minha buscadora (10X50mm) mas se torna mais charmoso conforme aumento a magnificação. Visualmente considerei o melhor resultado obtido pela minha ocular de 17 mm (70,5 X). Assim resolvo a estrela dupla central e ainda possuo um campo interessante emoldurando o aglomerado.  Utilizando a 10 mm (120X) a estrela dupla central é ainda mais charmosa e bem separada. Não posso deixar de recordar-me de Ngc 5281 também em Centauros. 5460 parece uma versão maior deste. É uma impressão apenas. Ngc 5281 esta quase ao dobro da distancia. 
                O aglomerado reside a 2.300 anos luz e com isto podemos calcular que se espalhe por 23 anos luz. Estudos recentes apontam para uma idade intermediaria. 160.000.000 de anos.
                O aglomerado é bastante estudado especialmente porque aglomerados próximos permitem a compreensão de mecanismos que “freiam” estrelas as quais giram muito rapidamente já assentando na sequencia principal. Esta rápida rotação se dá como resultado da conservação do momentum angular durante esta fase final de contração a caminho da sequência principal. ( D.Barrado e P. B. Byrne). Parecem existir mais de um mecanismo agindo para se obter o mesmo resultado. A massa das estrelas é certamente um fator importante e mecanismos diferentes podem agir em aglomerados de diferentes idades. A curiosidade do Sapiens a serviço da astrofísica não deve ter sido um diferencial contundente no processo evolutivo que levou a extinção das outras espécies do gênero Homo. Mas certamente é fruto da tal revolução cognitiva.  Estas estrelas não deixarão de rodar mesmo que não acreditemos que elas giram. Mas mesmo assim sabemos disto. Deve ser algo muito duro para alguns poucos Sapiens que em razão desta mesma revolução cognitiva criaram mitos como uma Terra com apenas 6 mil anos... tanto os mitos como a ciência parecem ter sido uma exclusividade de nossa espécie.

                Localizar Ngc 5460 é bastante simples. Em locais de pouca poluição luminosa será possível suspeitar do mesmo com a vista desarmada. Em locais mias ingratos localize z Centauro e ele estará dentro do campo da buscadora. Mesmo em áreas muito ingratas com a estrela centralizada e utilizando uma ocular wide Field será uma fácil busca nos arredores.
                Ngc 5460 foi ainda um campo de provas para a capacidade de processamento de diversos softwares para tratamento de imagem que possuo. A captura foi feita de forma estabanada. Como era noite de lua (quase) cheia o alinhamento polar fora feito por aproximação e como membro do “Projeto Tudo que Existe” (já vai ser difícil observar visualmente todo o Catalogo Ngc. Se ainda tiver que fazer fotinho bonitinha vai ser ...) fiz apenas umas poucas fotos após observar o aglomerado. Não tomei notas e imagino que o produto final seja o resultado de empilhamento de menos de 10 exposições com menos de 30 segundos cada. As fotos do Projeto ficam geralmente esquecidas até que eu as reencontre e resolva apresentar os aglomerados no Nuncius Australis.
Resultado com o PixInsight

                Excepcionalmente Ngc 5460 acabou sendo   utilizada como uma primeira experiência com uma cópia do PixInSight LE que obtive.
                É uma versão freeware do poderoso soft. Mas não posso negar que apesar da experiencia ter sido bastante limitada o Pix me pareceu uma versão mais poderosa do Fitswork. Pelo menos no que se trata de remover o gradiente de fundo e de melhorar o ruído. As fotos originais foram empilhadas no Rot n Stack (o que já demonstra a total falta de compromisso no momento de captura). O delicado aglomerado não é muito mais do que se vê nas fotos por aqui... A interface não é tão amigável mas mesmo tendo apagado mais estrelas do que devia no processo de subtração do fundo creio que consiga melhorar os ajustes com pratica e paciência. Não posso negar que além de estrelas ele removeu vários hotpixels Esta primeira experiência foi apenas um reconhecimento. Vou dar uma pesquisada e ver alguns tutoriais. 
Fitswork e PS

Espero agora o tempo limpar para poder fotografar os Globulares Messier que faltam para um outro projeto em andamento. Tendo atualizado o Câmera Raw do meu Photoshop e com o Pix a disposição aguardo o “Paradoxo de Newgear” e a Lei de Murphy colapsarem para testar as possibilidades das novidades.
Imagino já ter chegado ao final do livro até lá. Os capítulos finais tratam da “Revolução Cientifica”.
               
               
               

                

segunda-feira, 5 de junho de 2017

M 10 : Um Nobre Globular

     


          Em vias de terminar meu projeto de fotografar todos os Globulares do catalogo Messier resolvi organizar a papelada e percebi que diversos destes DSO´s que já havia registrado não possuíam entradas independentes aqui no Nuncius Australis. Em particular os residentes em Ophiucus (que juntamente com Sagitário reúne a maior parte destes). No último post apresentei M 12. Assim não poderia deixar de dedicar o mesmo tratamento a M 10. No moderno clássico “Turn Left at Orion” (o qual recentemente finalmente observei todos os objetos listados...) estes se aboletam na mesma apresentação. E em muitos textos são citados como aglomerados irmãos.
            M 10 também é uma descoberta original de Messier e foi observado uma noite antes de M12 e uma noite depois de M 9. Por alguma razão que a própria razão desconhece estes serão apresentando em ordem decrescente e na contramão da história por este que vos escreve...
            Messier nos conta: “ Na noite de 29 para 30 de maio de 1764, determinei a posição de uma nebulosa que descobri na cintura de Ophiucus, próxima a trigésima estrela desta constelação de acordo com Flamsteed (os numeros Flamsteed continuam sendo muito utilizado para identificar estrelas visíveis a olho nu nas constelações e são utilizados depois que se acabam as letras gregas). Tendo examinado esta nebulosa com um telescópio gregoriano com 104X de ampliação não via estrela alguma; esta é arredondada e bela, com um diâmetro de 4 minutos de grau.  Ela percebe-se dificilmente com uma luneta comum de um pé (33 cm) ... Eu marquei esta nebulosa sobre a carta da rota aparente do cometa que observei no ano anterior”
            Como já é um a tradição aqui no Nuncius Australis apresentarei a seguir as clássicas observações de M 10 realizadas pela família Herschel e posteriormente a observação feita pelo Admiral Smyth no que foi o mais popular guia observacional do século XIX (“The Cycles of Celestial Objects”):
            “ Um Aglomerado muito belo e extremamente concentrada e sem nenhum traço de nebulosidade” (William Herschel)
            “Um soberbo aglomerado de estrelas bem concentrado, gradualmente mais brilhante em direção a seu centro. As estrelas estão entre 10a e 15a        magnitude e se dirigem para um clarão em seu centro. Um nobre objeto” (John Herschel)
            “ Rico aglomerado de estrelas condensadas. Este nobre fenômeno é de um matiz branco lúcido levemente atenuado em suas margens e se concentrando como um clarão em direção a seu centro. ”
            Podemos perceber que Smyth sempre é muito influenciado pelas impressões de John Herschel. A quem idolatrava...
            Aprofundando um pouco as pesquisas chegamos a Lorde Rosse que possuidor do maior telescópio do período clássico da astronomia nos conta que “ o aglomerado possui uma linha escura acima de seu centro ou melhor no seu sexto superior o que o torna muito mais tênue que o resto do conjunto”.
            Autores mais atuais como O ‘Meara notam regiões mais escuras ao longo do halo externo de M10, mas nada como descrito por Rosse. Com menos aumento O ‘Meara nos diz que “ as estrelas do halo externo possuem um brilho azul gelado enquanto sua região mais central apresenta uma luz salmão pálida. Parece até um decorador de interiores descrevendo o aglomerado... este também considera M 10 um alvo facilmente percebido com a vista desarmada. Segundo ele basta se perceber 30 Ophiuchi com visão direta e nossa visão periférica irá perceber claramente M 10. Stoyan é mais modesto e diz ser possível perceber M10 a olho nu em céus excepcionalmente favoráveis.  Burnham em seu “Celestial Handbok” dedica alguma atenção a aglomerado.
            Observando com o Galileu (meu refrator 70 mm f13) ou com meu binóculo 15X70 mm não chego a resolver estrelas e me inclino a concordar em gênero, número e grau com a descrição original de Messier...
            Observando com o Newton (meu refletor 150 mm f8) resolvo estrelas na sua parte externa facilmente. O aglomerado cobre facilmente 8´de diâmetro e é bem mais evidente que M 12. Não percebo cor.  Na foto feita (pouco mais de 10 exposições de 30 segundos com ASA 3200. Este é um cálculo aproximado já que a foto foi realizada ha mais de um ano...)  não percebo a diferença de gradiente descrita por Rosse, mas as regiões mais escuras são evidentes. Estou mais a concordar com Stoyan e acreditar que M 10 seja viável a olho nu no Atacama. Ou no semiárido. Estive em uma fazenda próxima a Ibotirama há alguns anos e o céu era impressionante. Mas mesmo assim somente para olhos treinados e sóbrios...
            A distância de M 10 é alvo de certa discordância entre os diversos autores. O ‘Meara nos dá modestos 14.300 anos luz. Já o mais antigo Burnham nos apresenta várias opções; Shapley (1933) o leva a distantes 33.000 anos luz. Kimnan o considera mais proximo que M13 e o situa a 16.000.  Já Sawyer (1963) aposta em 22.000 anos luz. Atualmente e depois do Hiparchos a distância aceita é de 24.750 anos luz (Stoyan). Seu tamanho é de 140 anos luz.
            Detalhados modelos dinâmicos “preveem” um colapso do núcleo de M 10 em alguns bilhões de anos. Isto vai levar a uma extrema concentração estelar em seu núcleo e mudar sua aparência. Algo me diz que surgirão mais estrelas variáveis que as poucas registradas até agora.

            Localizar M10 é basicamente localizar 30 Ophiuchi. Em locais escuros muito fácil. Na cidade parta de Zeta Ophiuchi e localize 30 com auxílio de uma buscadora ótica. O aglomerado se apresenta para uma buscadora 10X50 mais facilmente que M 12 logo ao lado.... De céus suburbanos (Bortle 6) é bem fácil. Na cidade grande é possível...


            Aproveite proximidade de M 12 para perceber como globulares são diferentes entre si. Este não só não sofrerá colapso de seu núcleo como poderá acabar se dissipando devido à baixa densidade de seu núcleo e da proximidade do núcleo galáctico. 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

M 12 : Mais um Globular Messier

             

             M 12 é uma descoberta original de Messier. Este o observou pela primeira vez em 30 de maio de 1764. Há exatamente 253 anos do momento que escrevo estas linhas.
            Sua descrição é digna de seus equipamentos. E é deveras semelhante ao que observo quando utilizando o “Galileu” (meu refrator de 70 mm f 13): “ Esta nebulosa não contém nenhuma estrela, é arredondada e de fraca luminosidade. Próximo a nebulosa se encontra uma estrela de 9a magnitude; 3´ de diâmetro. ”
            O primeiro ser humano a perceber a verdadeira natureza deste globular foi William Herschel: “ Um brilhante aglomerado, 7´ ou 8´ de diâmetro, sua parte mais concentrada possui 2´. ”  
            Seu filho John é mais prolixo: “ Um rico aglomerado globular... possui “retardatárias” em linha e ramos estendendo-se até certa distância de sua parte mais condensada que possui 3´ de diâmetro. Esta vem quase como uma chama em seu centro. Possui uma estrela de 11a ou 12a magnitude em seu meio. ”  Seu grande fã e contemporâneo Admiral Smyth (em seu “ The Bedford Catalog”) vê “diversos manchas (spots) brilhantes próximas ao centro” e “ um cortejo de estrelas brilhantes e muitas pequenas estrelas periféricas em seu entorno. ”
            Lorde Rosse (dono do “Leviatã de Parsontown”) e o primeiro a perceber estruturas espirais em várias galáxias (e posteriormente em tudo ao seu redor…) fala do aspecto espiral do Aglomerado.
            Observando com o Newton (meu refletor de 150 mm f8) o aglomerado se apresenta como um globular não muito denso. É um daqueles “híbridos” que visualmente habitam aquela zona cinza entre globulares e abertos muitos densos (como M 11). Resolvo muitas estrelas mesmo com visão direta.
            Alguns autores (Stoyan, O´Meara e mais alguns) utilizam expressões como “gêmeos”, ” parentes” e “semelhantes” ao se referirem a M 12 e M 10. Eu não consigo (visualmente) encontrar nenhuma. M 12 é um globular de classe IX. M 10 é de classe VII. (Escala Shapley de concentração). M 12 é um pouco mais próximo que M 10 (20.000 anos luz contra 27.000 anos luz). A massa total de M 12 é de 200.000 massas solares. Ele é ainda menor que M 10 do que pode sugerir sua observação visual. Ele se espalha por aproximadamente 85 anos luz de espaço contra os 140 de M 10.


M 10 e M 12  -Ambos fotografados na mesma noite. Percebem-se mais diferenças que semelhanças...

De qualquer forma Buonananno sugere que ambos se formaram juntos e ainda se influenciam.  M 12 possui apenas 5 estrelas variáveis catalogadas e destas apenas duas RR Lyrae. Bastante atípico para um globular. Ele é um globular do halo interno e nunca se afasta mais que 20.000 anos luz do centro galáctico. Apesar de possuir mais de 12 bilhões de anos ele poderá ser um globular de vida “curta”. Devido a sua baixa densidade estelar (Classe IX) e passeando muito perto ao núcleo galáctico ele é exposto a intensas marés que poderão acabar por dispersar seus membros.  Em um interessante artigo de Otto Struve que localizei espalhado na Sky and Telescope de setembro e outubro de 1953 ele apresenta o “Limite de Roche” aplicado a aglomerados estelares. A leitura é fácil e as contas nem metem medo. M 12 é um bom exemplo para o processo.


            Localizar M 12 em locais de poluição luminosa pode ser um pouco mais difícil. Em búzios nunca o consegui perceber pela minha buscadora de 10X50. Como meu 15X70 é tarefa fácil. Localize Zeta Ophiuchi e desta localize 12 Ophiuchi. M 12 vai estar a meio campo de buscadora a este- nordeste desta. Cuidado para não confundir com M 10. Com pequenas magnificações (e telescópios) serão bem semelhantes. Mas a partir do momento que estes se resolverem M 12 é inconfundível. Muito mais “frouxo” que M 10.   

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Brincando de ATM

                O Saara é popularmente conhecido como o maior e mais quente deserto do mundo. Ambas as informações são incorretas. O maior deserto do mundo é um lugar frio e gelado. É a Antártida. E o lugar mais quente do mundo é Bangu. (Brincadeirinha ... O Local mais quente da terra é o Deserto de Lut. No Irã. O Lugar é tão desolado que até recentemente não possuía medições confiáveis e constantes de sua temperatura.)
                Mas como carioca sei que a região da Saara merece o nome que tem. (Na verdade “a nossa” Saara vem de Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfandega.) Caminhando pela região em meados de fevereiro tinha a nítida sensação que Bangu, O Deserto de Lut, O Dead Valley e El Azizia no Saara original são oásis de delicias.
                Nas ruas decoradas por “Fatas Morganas” eu caminhava sentindo-me como um tuaregue malvestido. E em meio as minhas andanças adentro uma lojinha em busca de um pouco de ar condicionado. Fazendo de conta que procurava por algo na loja acabei por me deparar com um interessante Kit de experiencias astronômicas e astronáuticas. O preço era baratérrimo. Não me recordo exatamente o valor, mas foi menos de R$ 50,00. Nada, mas nada mesmo supera os preços dos “Salims e Jacobs” do Saara Carioca.  A região não possui seu nome somente devido a sigla formada pela sua representante legal. A colônia libanesa é proprietária de muitos dos negócios instalados na região. Por lá árabes e judeus convivem na mais perfeita paz.




                Uma das maiores surpresas que tive é que o pequeno e barato kit não é de fabricação Chinesa. Made in Germany. Quase inacreditável...
                Como era de se imaginar tudo encaixa, funciona e o manual é bem traduzido. Um choque cultural.
                Meu filho ainda é um pouco novo para muitas das experiencias possíveis terem graça. E minha mais velha é um fruto de seu tempo e experiências a desqualificam socialmente. E assim ela faz de conta que nada a interessa. Pelo menos até o pequeno começar a se divertir...
                Uma experiencia com um balão alongado, um pedaço de barbante e um canudo apresenta de forma rápida e didática a terceira lei de Newton (Lex III: Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi.). O pequeno adorou o brinquedo e está rindo até agora do meu latim... Só consigo falar o texto acima se imitar “sotaque de padre”.
                Depois disto um foguete movido a Cebion faz a alegria da galera.
                E finalmente o momento mais esperado. Vamos brincar de ATM. A construção de um telescópio.  Ou quase...

                Depois de um pouco de cola branca e algumas dobraduras de papel possuímos uma pequena luneta de 300 mm de distancia focal com uma lente primaria de 15 mm. Ou seja um refrator com lente de plástico f 20 (razão focal). A ocular por nós também construída me parece tratar-se de uma Kellner (ou uma Ramsden "melhorada") de 30 mm. Isto nos leva a possuir nas mãos uma luneta que amplia em 10X as imagens.







                Finalmente chegou a noite em que resolvi brincar com o brinquedo. Rapidamente descobri algumas coisas além do obvio ululante (que a luneta é um brinquedo e uma porcaria...)
                Seu campo de visão é bem maior do que eu supunha. Mais de 1o. Cabem duas luas cheias e um pouquinho mais em seu campo de visão.
                O conceito de seeing é muito bem explicado pelo brinquedo. Agora você percebe algum detalhe e logo depois não. Nunca tinha visto algo tão sensível as vontades da atmosfera terrestre.
                Feita de papel cartão ela é muito sensível também a flexão. Tem que ser tratada com muita delicadeza. O foco (realizado correndo um tubo de papelão dentro de outro) é possível. Mas não flexione o tubo...
                Não posso deixar de imaginar que as lunetas utilizadas por Lacaille em seu levantamento dos céus austrais eram apenas um pouco melhores que o "Cacareco". Tudo bem que as lentes não eram de plástico. Mas ele descobriu M 83 com elas. Inacreditável...
                Deixando tudo isto de lado e  dando uma de São Tomé apontei o “Cacareco” para os céus e tive algumas surpresas.
                Acrux é mesmo uma estrela dupla.  Alpha Centauro é suspeita (o seeing brinca com ela...).
                Na Lua as grandes estruturas são evidentes. Mares, as Montanhas da Lua e as maiores crateras “comparecem”.  Ou quase.  Os Montes Caucasus e Apeninos bem como o “estreito” que é definido por eles e que liga os Mares Imbrium e Serenitatis são claramente visíveis (nos momentos de seeing). Archimedes é possível.  As raiações de Copérnico são evidentes embora a cratera em si seja mais difícil. A aberração cromática, surpreendentemente , fica nas baias... 
                Pensando em Lacaille e seu catalogo de nebulosas aponto o brinquedo para a Caixinha de Joias. Percebe-se que não é uma estrela apenas embora se torne uma espécie de local confuso com algo vermelho no centro. Kappa Crucis, BU Crucis e MU Crucis lutam para se resolver uma da outra...  Cada vez respeito mais Lacaille. Já observei o Catalogo inteiro com meu 15X70. Mas ele é infinitamente superior as lunetas de Lacaille. A descrição do equipamento utilizado por ele se aproxima muito mais do “Cacareco” que de meu Skymaster...
                   Jupiter é uma estrela amarelada com quatro estrelas "escorts" bem fracas. Nos momentos de seeing bom.
                   Muito mais do que eu apostaria. 
                 Depois de muito insistir calculei que  a magnitude limite do brinquedo ( em noite de lua quase cheia e da Stonehenge dos Pobres [Bortle8] ) é entre 7,5 e 8a magnitude. 



                O brinquedo deixou meu filho curioso e eu também. Pretendo tentar montar algo como a luneta de Galileu na próxima brincadeira de ATM...
                    

terça-feira, 9 de maio de 2017

M 107 - O Ultimo Globular Messier

                


                 M 107 é uma das entradas controversas do Catálogo Messier. É uma descoberta de Mechain (“sócio” de Messier na obra) e a descoberta mais tardia de todo o Catálogo. Foi registrado em abril de 1782. E assim tarde demais para ser incluído na lista final original do catalogo.
                O Catalogo Messier em sua forma “final”, como publicado na Connaissance du Temp para 1784, possui apenas 103 entradas. Assim como revistas astronômicas o Connaissance é publicado com uma certa antecedência. A de 1784 foi publicada em 1781.
                Mechain observou “ uma pequena nebulosa no lado esquerdo de Ophiuchus entre as estrelas Zeta e Phi. ” Méchain informou Messier de sua descoberta. Notas manuscritas provam que este sabia de sua existência, mas nada indica que ele tenha observado M 107 pessoalmente.
                Em um artigo, hoje clássico, escrito por Owen Gingerich e publicado em duas partes na Sky and Telescope de agosto e setembro de 1953 nos conta que como Hellen Sawyer Hogg, em 1948, trouxe a luz uma carta de Méchain para Johan Bernoulli e uma publicação no Berliner Astonomisches Jahrbuch onde se apresentam o que viriam a ser M 105, 106 ,107 e 108. E apoiou a inclusão destes na lista de Objetos Messier. Estes formariam junto com M 104 entradas póstumas do catalogo Messier. É importante frisar que as anotações descobertas na cópia pessoal de Messier de seu catalogo feitas por Flammarion provam que M 104 foi observada pelo mesmo. Burnham em seu “ Handbook” considera M 104 como a última entrada valida do Catálogo Messier.
                Herschel (que sempre ignorou as descobertas de Messier em respeito ao mesmo) inclui M 107 em seu   “Catalogue of One Thousand new Nebulae and clusters of Stars” (1786). É a entrada H VI. 40.
                Smyth apresenta M 107 em seu “Cycles of Celestial Objects” como uma descoberta de William Herschel:  “  (Maio ,1837) Um aglomerado grande, mas pálido e de pequenas estrelas na perna esquerda do “Encantador de Serpentes”. Existem cinco estrelas telescópicas, dispostas a formar um crucifixo, quando o aglomerado está alto no campo. Mas a região logo além é comparativamente deserta. Foi descoberto por William Herschel em maio de 1793 e registrado com 5´ ou 6´ de diâmetro. ”
                M 107 é um aglomerado globular localizado a 20.900 anos da terra.
                O aglomerado é um alvo difícil para binóculos e irá se apresentar de forma quase estelar. Apesar da descrição de Smyth, ele não possui mais que 3´visualmente.
                Observando como Newton (meu Refletor de 150 mm f8) sob os céus de Búzios (Bortle 6 ou 7) ele é pouco mais que um esfuminho com alguma granulosidade nas bordas.  Não percebo nada na buscadora.  Com observação atenta percebe-se um núcleo mais concentrado e brilhante. M 107 não é um aglomerado muito concentrado e com telescópios grandes se resolve quase na integra. Creio que o Newton resolva suas bordas em céus mais generosos.  Possuidores de grandes telescópios podem ter seus “Momentos de Rosse” (suas cadeias deestrelas podem lembrar braços espirais em uma galáxia.)

                Localizar M 107 pode ser trabalhoso, mas nada hercúleo será necessário. A partir de Antares localize Zeta Ophiuchi  (Saik). Fica a 16 o ao norte. (Cerca de cinco dedos com a mão bem fechada). A partir daí ele estará a cerca de ½ campo de buscadora (2,75o) a sudoeste. Outra forma é imaginar uma linha entre Beta Scorpii e Beta Ophiuchi. Zeta estará no primeiro terço do caminho... em meu projeto para fotografar todos os Globulares Messier em Ophiuchus ele foi o antepenúltimo. Faltam 2...
                M 107 é um globular X na escala Shapley. Bem frouxo (a escala vai até XI).  Sua magnitude ´de 8.8. Seu raio é de aproximadamente 40 anos luz e ele possui aproximadamente 13.95 bilhões de anos.  Um ancião entre anciões.
                  A foto que abre o post é resultado de um stack de cerca de 15 fotos com 20 segundos de exposição ASA 3200. É definitivamente mais do que eu consegui perceber visualmente em uma noite de pouquíssima transparência.
   
MPG/ESO 2,2 Meters Telescope . Observatório La Silla - Chile - Imagem: ESO

                A melhor época para a observação é justamente em junho... 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ngc 4526: Uma Gálaxia Quase Perdida

              

                  Costumo utilizar o Stellarium (um misto de carta celeste com programa planetário) para organizar minhas sessões observacionais. Suas versões mais atuais parecem ter passado por uma maquiagem a fim de se apresentarem menos formais e mais atraentes especialmente aos mais jovens e/ou aos iniciantes. Desta forma diversos do DSO´s apresentados  são nomeados com apelidos clássicos , pomposos ou chamativos.
                Ngc 4526 é um destes objetos .  Enquanto passeava pelo aglomerado de Galáxias de Virgem e buscava por novidades fora do catalogo Messier me deparei com “ A Galáxia Perdida” (The Lost Galaxy). O título não me era conhecido e tão pouco a galáxia. Não sabia de onde o Stellarium tirou o belo e misterioso apelido.
                Mistério deve ser a palavra-chave por aqui. Venho assistindo uma “nova” série no Netflix. Um belo e misterioso conto de terror. Penny Dreadful. Em uma mistura de terror, mistério, poesia e cenários vitorianos que mostra a busca de Sir Malcolm Murray (um explorador inglês e proprietário de um belo refrator que decora seu escritório), Vanessa Ives (uma médium e uma beleza...) e Ethan Chandler (um pistoleiro americano) por sua filha Mina sequestrada pelas forças do mal. Isto deve ter me influenciado em ficar encantado com a possibilidade de buscar por uma “Galáxia Perdida”.
                Não bastasse a sincronicidade destes eventos em um dos episódios Ives se encontra com Frankenstein (ele também participa da série e tem claro parentesco com Ngc 4526) e este cita a abertura de um de meus poemas favoritos de Blake (Auguries of Innocence) que possui claro caráter astronômico (Blake embora muito esotérico é também um profundo entendedor dos mistérios do universo...): 
                “To see a World in a Grain of Sand / And a Heaven in a Wild Flower
                  Hold Infinity in the palm of  your hand  / And  Eternity in an hour”
                Não faltassem coincidências sem nada a ver com as leis fundamentais do universo na minha busca por Ngc 4526, “A Galáxia Perdida”, ela foi localizada por um erro do Synscan (Uma espécie de computador de bordo de minha cabeça equatorial) de Mlle. Herschel. Pedi para esta buscar por M 49 e Ngc 4625 apareceu centralizada na ocular de 17 mm.  E assim a “Galáxia Perdida” foi achada.  Mas é importante lembrar que ela estava entre os objetivos da missão exploratória pretendida.
                Embora chamada de “A Galáxia Perdida” no Stellarium Ngc 4526 é extremamente brilhante e fácil de ser localizada. E como ao buscar por informações sobre esta em meus alfarrábios não encontrei ela listada com este belo e misterioso apelido no “Deep Sky Companions: The Hidden Treasures “ de Steve O´Meara  fiquei com a pulga atrás da orelha. Me parecia muito pouco provável que O´Meara (que assim como eu adora “batizar” DSO´s) deixasse isto passar. Na verdade, O´Meara aplica a mesma um outro apelido. “ The Hairy Eyebrow Galaxy” (A Galáxia da Sobrancelha Cabeluda). Fui em busca da verdade. Ou pelo menos de alguma lenda para justificar o título.
                Existem duas características que são associadas as lendas e que são antagônicas entre si.  A primeira nos diz que “ Por trás de toda lenda há um fundo de verdade”. E a segunda fala “ que as lendas são mentiras que ganharam a autoridade do tempo”.
                E como boa lenda a raiz da confusão sobre Ngc 4526 remonta há muito tempo. Nada em escala astronômica mas a origem já seria velha quando nasci. E eu nasci no século passado.
                Tudo indica que a “Galáxia Perdida” original não é Ngc 4526. O nome foi primeiramente utilizado por Leland S. Copeland em um artigo escrito para a Sky and Telescope de fevereiro de 1955. A matéria chamava-se “ Adventures in the Virgo Cloud”. E a galáxia por ele assim chamada foi Ngc 4535.  Esta encontra-se apenas meio grau ao norte de 4526. E é um alvo bem mais difícil. Especialmente visualmente.
                Burnham em seu “Handbook” confirma:
                “... Estas são as galáxias Ngc 4526 e 4535, a primeira uma elíptica bastante extensa ou um sistema S0 com um centro brilhante, a outra uma grande espiral com baixo brilho de superfície, medindo 6´X4´.A partir de sua enevoada e fantasmagórica aparência em telescópios amadores esta foi batizada “The Lost Galaxy” por L.S. Copeland”.
                Seguindo a investigação localizei a fonte original. A edição de fevereiro de 1955 da “Sky and Telescope”. Ngc 4526 mereceu uma investigação “detetivesca”.  Abaixo a foto original dos suspeitos. Baixei todas as “Sky and Telescopes” para o ano de 1955. Sensacional...
Harvard Observatory - sky and  telescope 1955.

                Para não deixar pedra sobre pedra ainda localizei um post no fórum “Cloudy Nights” onde um dos membros levanta a hipótese de Ngc 4526 ser chamada em mais de um atlas digital (Stellarium e o “The Sky””) de “The Lost Galaxy” devido a habitar entre duas estrelas de 7a magnitude que podem disfarçar sua presença ou natureza. Isto explicaria sua presença no “Hidden Treasures” do O´Meara. Este costuma apresentar objetos que mesmo não sendo impossíveis a telescópios amadores podem esconder sua natureza devido a sua posição no espaço.
                É uma descoberta de William Herschel e foi primeiramente observada em 18 de abril 1784. Isto também é alvo de controvérsias. Ha fontes que falam em 13 de abril. Nada a respeito de 1 de abril...
                “Brilhante, bem grande, bastante alongada, muito mais brilhante no centro. Localizada entre duas estrelas de 7a magnitude. (H I- 31= H I – 38) ”.
                Podemos perceber que Herschel a catalogou duas vezes. Entradas repetidas também podem ter gerado alguma confusão a respeito de quem seria a “Galáxia Perdida”. A mesma é membro da lista chamada de “ 400 de Herschel” que reúne as mais interessantes e acessíveis entradas do enorme levantamento de nebulosas realizado por William (com o auxílio luxuoso de sua irmã Caroline) Herschel.
                Ngc 4526 é um alvo bastante brilhante e facilmente percebido mesmo com visão direta. O fato de habitar entre duas estrelas de 7a magnitude ao contrário de a tornar um “Tesouro Escondido” a faz fácil de localizar e mais fácil ainda de se identificar entre o mar de galáxias que habitam a região.
                James Mullaney em seu guia fundamental para aqueles que decidirem encarar o desafio de observar “Os 400 de Herschel” concorda com minha opinião:
                “...Felizmente, como indicado por Herschel em sua descrição, acontece desta habitar entre duas estrelas de 7a magnitude no primeiro campo (estas estrelas habitam a Via-Láctea), ajudando a distinguir de suas vizinhas”. “
                Os campos em Virgem são ricos em pequenas condensações e podem ser bastante enganadores. M 49 (que era meu objetivo inicial) reside a menos de 1o de Ngc 4526 e apesar de ser um dos “monstros” do aglomerado não brilha muito mais que nossa galáxia.
                Ao observa-la rapidamente percebi sua aparência de estrela enevoada. Seu núcleo é realmente muito brilhante. Galáxias lenticulares são amigas do amador. Costuma ter um brilho de superfície alto e núcleo bastante evidente.

                Como já falei cheguei até Ngc 4526 por um descaminho de meu sistema de Goto. Posteriormente a visitei com mais ‘”Fair play” e a percebi navegando a partir de Rho Virginis com meu 15X70. Mesmo com o uso de binóculos (pela buscadora 8x50 isto não é tão obvio, mas seu núcleo se apresenta) ela revela sua natureza nebulosa. As duas estrelas escudeiras ajudam bastante para saber onde se concentrar com sua visão periférica.  M 49 é também um belo marco para se localizar Ngc 4526. A galáxia é tão brilhante que em um primeiro momento cheguei a considerar ter chegado a M 49.
                Nossa galáxia nem tão perdida realmente apresenta alguma semelhança com o monstro incompreendido de Mary Shelley. Parece uma concha de retalhos em sua estrutura.
                Atualmente Ngc 4526 é classificada como uma galáxia lenticular mista (SAB 0). Isto implica em tratar-se de uma galáxia elíptica aonde se suspeita de uma barra central, com braços típicos de uma espiral clássica e um núcleo amorfo levemente elipsoidal.  Na foto do Hubble pode se perceber todas estas estruturas. Ainda que umas mais que as outras.  Uma área central de caráter lenticular com uma espiral empoeirada ao seu redor.  Esta poeira empresta o apelido de “sobrancelha cabeluda” dada por O´Meara. Nada disso é percebido visualmente mesmo com grandes telescópios amadores.
                Ngc 4526 é sempre lembrada por duas supernovas recentes que em astro fotos por efêmeros momentos a emolduraram entre suas duas estrelas escudeiras.
Ngc 4526 com a supernova 1994d. HST.

                Uma delas em 1994 (1994d) foi um evento do tipo Ia e chegou a atingir 11.8a magnitude. 
                Anteriormente Ngc 4526 era considerada a uma distância semelhante a M 49 fazendo parte do sub aglomerado sul de Virgo. Como supernovas são do Tipo Ia são uma das velas padrões mais precisas conhecidas a nossa galáxia se aproximou de nós cerca de 15 milhões de anos luz de nós. A distância aceita para a região de M 49 no aglomerado de Virgo é de 55 milhões de anos luz. Ngc 4526 atualmente habita a modestos 40 milhões de anos luz. Aceito estes valores ela possui cerca de 68.000 anos luz de extensão.
                Ngc 4526 é um alvo nobre e extremamente interessante. Fácil em se falando de galáxias.


                Uma galáxia nem tão perdida assim... 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Quarto Crescente e a Décima Terceira Vértebra



                Chegou a “Aporema”. É uma festa que se comemora 4 vezes por ano (significa ”ver longe”. Algumas nações indígenas a batizaram de Mombyry Ma ). Possui data móvel . Ocorre na lua nova mais próxima aos equinócios e aos solstícios. Se possível  a comemoro só.   Assim consigo ter as luzes do local em que estiver “nas baias” e posso realizar minhas astrofotos em paz.
Não confundir com “aporema”. Este um silogismo dubitativo onde se apresentam raciocínios opostos com argumentos igualmente válidos.(  este vem do grego “apórema”...)
                Desta vez por razões para lá de mundanas a Aporema foi festejada com cerca de 50% do disco lunar iluminado. Mas com apenas 50 % do disco iluminado este também só deveria infernizar durante 50% da noite (mais sobre o assunto a frente)  . Depois ela se põe.  Estamos no quarto crescente. Se fosse quarto minguante ela nasceria.  Façam a experiência. Não falha nunca...
                São épocas de aguas magras e assim a Aporema do equinócio de outono este ano será novamente nos claros céus Buzianos.  Me comprometo a conseguir realizar toda a folia ( incluindo aí pedágio , combustível e alimentação ) com a módica quantia de 200 reais. Festa da CUT. Muito pão com mortadela...   
                Com estas condições de contorno parti no dia 03 de abril de 2017 rumo a terra de José Eustáquio. Levava comigo o Newton ,  Mlle. Herschel, computador, câmera e uma muda de roupa.
                Adoro viajar só. Pensar que passaria dois dias  em silêncio era como ouvir poesia. Não por misantropia, mas quase. A vida de casado só é viável graças as benções de  Moira. Já falei isto por aqui e a própriafalou também. E no Senado Romano...
                Uma vez instalado realizo o primeiro ritual da Aporema. Colimar o velho Newton. Depois de alguns ajustes me dou por satisfeito. Mais tarde vou perceber que deveria ter insistido mais , lutado mais e feito a colimação direito...
                O problema principal da falta de tempo é que como você tem que maximizar o tempo de observação muitas as vezes coisas delicadas são feitas meio que “nas coxas”...
                Desta forma eu decido utilizar em vez de uma estrela um DSO para fazer o alinhamento polar. Ngc 2516 vai cruzar o meridiano as 19:01:30. O problema de utilizar um DSO é que como este cobre quase 30´ de firmamento você trabalha com um erro possível ao redor de 15´para cada lado. Mas como eu nunca tinha feito assim resolvo experimentar. A final não estamos na NASA. E já ouvi histórias sobre o que eles fazem na NASA de arrepiar os cabelos... 
                E tendo conjugado teoria e pratica ( nada vai funcionar direito e  não se vai saber porque) começo a observação.
                Geralmente tenho um plano elaborado no note pad. Como gosto de termos náuticos chamo a este de “derrota”. Abaixo a “derrota” planejada

Começo bem. O primeiro objeto da lista Ngc 2546 é um alvo que queria re-fotografar de forma mais digna para o “ Projeto Lacaille”. O livro esta “pronto”, mas ainda há acertos a serem resolvidos.  Mas no caminho acho um campo ainda mais interessante. A estrela  OS Puppis é uma bela dupla em um agrupamento que não conhecia logo ao lado de Ngc 2546. Pode ser um asterismo. Mas não parece... Vai ficar na conta dos míticos José Eustáquio e de Silvano Silva. J.E.S.S. 13

                Depois sigo os planos. Desta vez fui abduzido pelo Stellarium. Durante a elaboração da derrota neste programa acreditei na breve descrição de Ngc 2571. Não era o que parecia. Mais para campo estelar que para aglomerado.  Devia ter desconfiado do “71” ao final do número.
                Depois disto ainda é cedo. Mas resolvo queimar a largada e com a lua ainda no céu tento a sorte em Leão. Desta vez tinha sido abduzido pela “ Sky and Telescope” de abril que apresenta uma interessante e tentadora matéria sobre o grupo menos observado de galáxias em Leo.          M 95, 96 e 105. Alvos definitivamente mais difíceis que as mais simpática M 65 e M 66 que juntamente com Ngc 3628 formam o tripleto mais famoso da constelação.
                Quando acho que localizei algo e resolvo tentar fotografar o alvo o céu norte começa a nublar. Depois o sul também. Eu transito de ateu a herege em poucos segundos e começo a blasfemar. É evidente que algo conspira contra mim e que isto não pode estar certo. Palavras impublicáveis são dirigidas aos céus e depois de meia hora parecem ser ouvidas.  A noite abre novamente.  Tiro algumas fotos da região onde supunha estarem M 95 e 96 e descubro que minha impressão era apenas isto. Uma impressão. Agora boto a culpa na Lua. E no alinhamento do Goto de Mlle. Herschel.
                Refaço a rotina de alinhamento utilizando outras estrelas como guia (creio que Acrux e Alfa Centauro).
                Decido fazer um teste. Fossem tempos menos politicamente corretos eu chamaria            M 104 ( A Galáxia do Sombrero) de vadia. Ela  é facinha ( pelo menos tão facinha quanta pode ser uma galáxia) . O teste funciona e percebo que o goto está suficientemente preciso. M 104 aparece senão centralizada, dentro do campo de minha ocular de 26 mm.  Embora quase invisível com visão direta ela é óbvia.  Com mais aumento ( 70,5X) e olhando de rabo de olho percebe-se, ainda que de forma discreta, sua faixa de poeira característica.

3 X drizzle no DSS


                Astrofotografia não é exatamente uma coisa fácil. Mas duro é mais difícil ainda. O focalizador original do Newton empenou (nunca deixe alguém transportar seu telescópio.) E tive que substitui-lo por um genérico “Xingá Linga” (também conhecido como “Ali Baba”). Meu sonhado Crayford dual speed não só não esta disponível em nenhuma loja brasileira como as taxas e a entrega   tornaram as coisas difíceis na “Astronomics”.  A coisa anda feia para um empresário pai de dois neste nosso paizinho. O focalizador e um sistema de acompanhamento são cada vez coisas mais distantes.  Quando ganha-se algum dinheiro é melhor guardar pois  a maior parte do tempo não ganha-se dinheiro algum... 
                De volta ao céu decido esperar a lua realmente partir e retorno ao plano inicial. De novo tentando melhorar as fotos do “Projeto Lacaille” faço imagens de Ômega Centauro. Respeitando a proposta do livro as imagens não devem afastar-se muito do que é observável visualmente. Mas um pouco mais é sempre melhor. Afinal um dos anexos vai tratar astrofotografia e Ômega Centauro é um “showpiece”. E apesar da facilidade e talvez em razão desta nunca fiz uma captura deste com Mlle. Herschel. Todas as fotos que possuo de Ômega foram realizadas ainda com minha antiga equatorial EQ 3-2 ( Hipatia). Acho que uma delas continua  no livro. O foco ficou a desejar e com a colimação ruim as coisas ficaram de doer. A noite se anuncia mais para “Rot n´Stack” do que para “DSS”.  (São dois programas de pós processamento de fotos astronômicas.  Um aceita qualquer coisa. O outro demanda algum capricho...)   

                Aproveitando a proximidade resolvo conhecer Ngc 5460. Uma grata surpresa na noite. Delicado aglomerado aberto entre o Centauro e Lupus. Um daquele raros objetos que são melhores visualmente que na foto...  Me recordou o “ Aglomerado de Cheshire” (Ngc 5281) também em Centaurus.  Confesso que a foto poderia ter ficado melhor. Mas este é mais um para o delirante   “Projeto Tudo que Existe”.

                Em algum momento da noite resolvo visitar Júpiter. Não sou um cara muito planetário, mas acho sempre divertido tentar perceber a grande mancha e ver como estão organizada as luas. Desta vez foi uma boa desculpa para tirar as teias de uma Plossl 5 mm que possuo e que nunca sai da mochila ( guardo as oculares na mesma mochila da câmera e das lentes...). Com muito pouco eye relief e de difícil foco nunca me animo a tentar tanto aumento . Mas desta vez funcionou bem. A grande mancha era óbvia com 240X de aumento e apesar de penar um pouco para fazer o foco com meu focalizador de m... e uma ocular à altura acabou valendo o esforço. Comprei ela (a ocular de 5 mm)  quase de graça...
                Mas desconfio que quando você transita no Synscan para o modo “Solar System” você acaba com o alinhamento do goto feito para navegar entre estrelas. Ao voltar para meus queridos DSO´S  Mlle. Herschel não acha mais nada. Lá vou eu de novo realizar a rotina de calibração do goto. 
                                Finalmente Selene deixa a sala e me volto para a galáxias de Virgo. M 95 e Cia. LTDA. Já vão mais baixas e prefiro deixar para outro dia. Das galáxias da derrota planejada acabo conseguindo apenas Ngc 4526. Respeitada as proporções me sinto fazendo uma das imagens de campo profundo do Hubble. O registro mostra muito pouco mas mostra que em se apontando para Virgo dificilmente não se registra uma (ou mais galáxias) em quase qualquer campo escolhido. 4526 é chamada de “A Galáxia Perdida”. Esta noite ela foi a galáxia achada. Mlle Herschel mirou em M 49 e eu fotografei Ngc 4526...

                Continuo tentando a sorte por Virgo mas sem nenhum sucesso. A lua embora não estivesse mais presente parecia assombrar os céus em uma espécie de “Crepúsculo Lunar Astronômico” (A lua a menos de 18o abaixo do horizonte).   Pior que isso é ter a impressão que a lua tem propriedades quase homeopáticas .  Depois de habitar o céu durante parte da noite mesmo que esta seja diluída até a inexistência ela continua apagando DSO´s.
Em algum momento da noite passeando por Virgo e procurando fotografar galáxias por tentativa e erro devido a T.P.M. de Mlle. Herschel eu ainda capturo a passagem de um satélite “bemmm” lento. Segundo minhas pesquisas trata-se do Gorizont 26. Um satélite de comunicação russo que habitou uma orbita geoestacionária até março de 2007 quando saiu de serviço. Atualmente está em uma orbita cemitério.
Momento Hora do Brasil:
Órbita cemitério, também chamada órbita super síncrona, órbita de refugo ou órbita de descarte, é uma órbita significativamente acima das órbitas síncronas onde as espaçonaves são colocadas intencionalmente ao final da sua vida útil. É um procedimento adotado para minimizar a probabilidade de colisão de detritos com espaçonaves operacionais gerando ainda mais detritos.
Uma órbita cemitério é usada quando a alteração de velocidade necessária para retirar uma espaçonave de órbita é muito grande. Retirar um satélite de uma órbita geoestacionária requer uma velocidade de 1.500 m/s, enquanto reposicionar esse mesmo satélite numa órbita cemitério requer uma velocidade de apenas 11 m/s.”
            

            Ele demorou mais de 140 segundos para cruzar cerca de 1o firmamento. Foram 7 fotos com 20 segundos de exposição até ele desaparecer de meu quadro. Supondo que demorei cerca de 3 segundos entre cada foto faça as contas e veja o que descobre a respeito do moribundo satélite russo.   Ahhh!!! É incrível registrar algo que deve possuir uma magnitude por volta de 17...
            Depois disto tento a sorte com M 83 só para me lembrar que o Cata-vento Austral é um alvo difícil. Faço algumas fotos mas percebo rapidamente que o Deep Sky Stacker vai gerar apenas “desastres binários”.  E mesmo o Rot n´ Stack não fará muito pela causa.


 M 83 versão "desastre binário"... Astrofotografia é a melhor diversão. 



            Com a colimação ruim, Mlle. Herschel voluntariosa e com um alinhamento polar que não deu muito certo decido brincar de “5 segundos”. Escolho um alvo fácil e faço de uma a três exposições de cinco segundos. Astrofotografia realista. Recordam muito o que se percebe pela ocular. Astrofotografia é muito divertido e atrai muitas pessoas ao hobby. Mas também afasta. O cara vê um DSO fotografado e depois compra seu telescópio. Quando aponta para o mesmo alvo (supondo que o encontre) e percebe uma pequena manchinha (quando percebe) e lá se foi a novo astrônomo... Astronomia amadora é para quem gosta e não para quem quer. O adjetivo já deixa isto bem claro.
"5 Segundos"
Decido que é melhor esperar pelo dia de amanhã e abro uma cerveja...  
Aprendi uma lição valiosa neste dia. Nunca fazer alinhamento polar usando um DSO como referência.
No dia seguinte começo com mais calma e faço uma colimação mais esmerada (mesmo assim não ficou grandes coisas. Esquecer o colimador é um erro...).
Com tudo pronto para realinhar o telescópio novamente o tempo dá uma fechada. Sem horizonte sul sem alinhamento polar. Enquanto espero resolvo brincar com a lua. Tiro algumas fotos com foco direto e decido tentar algo novo. Empilho duas Barlow 2X e com uma simulação de um telescópio de 4800 mm de distancia focal descubro que é difícil fazer foco. Mas com uma “trapizonga” montada eu consigo fazer algumas fotos que com um certo “parasitismo” luminoso apresentam resultados mais para promissores que propriamente interessantes. Preciso limpar minhas Barlows com urgência. E mandar pentearem o gato com mais frequência. Não sou um astrofotografo muito de lua. Mas as coisas podem mudar ...

Barlows em série... 


Decidido a fazer um alinhamento polar correto e sabendo que a lua só vai “aliviar” bem mais tarde fico novamente brincando de “5 Segundos”.
Plêiades do Sul - "5 Segundos".
"5 Segundos" - Ngc 3532

Quando observo na versão “Lobo Solitário” costumo ter a companhia de meu telefone. Coloco ele para tocar as músicas que gosto e quando quero alguma companhia mais “humana” costumo colocar o “Cosmos” original (com o Sagan) para “tocar”. Esta noite o episódio foi “A Espinha Dorsal da Noite”.  Afinal, mesmo em Búzios, o miolo da Via Láctea (na Tríplice fronteira entre Escorpião, Sagitário e Ophiucus) apresenta-se leitoso quando vai se erguendo no céu Bortle 6/7 da Armação. Chamo esta região de nossa galáxia de “ A Décima Terceira Vértebra”.  Pretendo fotografa-la mais tarde.
Finalmente as 23:22:03 segundos eu alinho o Newton com auxílio de Acrux.  E testo diversas estrelas guias para alinhar o goto. Finalmente com o ajuda de Antares e Arcturus eu consigo que Mlle. Herschel crave alguns DSO´s dentro do campo de minha ocular 26 mm.
Já tarde da noite eu começo a fotografar de fato. Fugindo totalmente dos planos e abandonado Virgo a sua própria sorte ( o efeito “homeopático” da lua vem parecendo se confirmar empiricamente...)  consigo perceber visualmente M 107. O último globular Messier de Ophiucus para minha coleção. A colimação e o focalizador estão me tirando do sério. Mas como Mlle. Herschel está boazinha então insisto mais um pouco com a câmera no Newton.

Assim vão as coisas quando abato um objeto que há anos vinha me traindo e que eu começava a suspeitar ser uma entrada falsa do New General Catalog. Não era... Ngc 6400 existe. Fiz umas poucas fotos para registro e este é  mais um DSO para “Projeto Tudo que Existe”. Não é exatamente um “blockbuster”.

            O plano agora e para o resto da madrugada era realizar algumas fotos em Pig back com minha 75-300 mm. E montar o set up completo. Com direito a banquinho e computador. Bossa Nova...

Só não contava com a condensação. Preciso melhorar o kit de campo e me lembrar de secar a lente entre as fotos.
Mas fico feliz em ver que o sistema funciona e sou capaz de ficar viciado no “Astrophotography Tools”. E com 300 mm é mole fazer exposições de 1 min (e até um pouco mais) sem acompanhamento. Melhor ainda fazer 30 e poder passear pela cozinha enquanto tudo acontece automaticamente.   Aguardo ansioso poder fazer esta brincadeira de novo. Desta vez com direito a mesinha de camping e uma barraquinha para proteger o computador do sereno. A região de Antares vai receber uma nova visita em breve....


Depois ataco a “Décima Terceira Vértebra”. Mas aí a condensação já começou a se instalar e não aproveito quase nada das 30 fotos feitas... outro encontro marcado para a próxima Lua Nova.  A foto que abre este post é resultado de apenas uma exposição de 1 minuto com ASA 800.
A noite já vai madrugada e eu tenho que viajar de volta para o Rio na manhã seguinte.
A Aporema está encerrada. E já penso em realizar um carnaval fora de época mês que vem .

P.S. Por razões de rigor histórico minha cabeça equatorial deixou de ser Mme. (Madame)  Herschel e se tornou Mlle. ( mademoiselle) Herschel. É um tributo a Caroline Herschel , irmã de William e não  a sua esposa. Caroline Herschel nunca se casou. Foi senhorita a vida toda...