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sábado, 21 de outubro de 2017

M 31 - A Grande Galáxia de Andrômeda

             

         Por uma daquelas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do Universo eu fotografei, pela primeira vez com alguma dignidade, a Galáxia de Andrômeda (M 31) as vésperas da divulgação do primeiro registro visual de uma junção de duas estrelas de Nêutrons. Tanto a galáxia como a junção têm relações diretas e são responsáveis por muito do que sabemos sobre as tais leis fundamentais. E são dois marcos históricos de gigantescas proporções para o que hoje sabemos sobre o universo em que habitamos e para outras questões que parecem nos acompanhar desde sempre e provavelmente para sempre (Tipo: De onde viemos? Para onde vamos? A Vida, o Universo e Tudo Mais...). Quando compreendemos as implicações do entendimento de tais estruturas e suas relações com o universo entendemos porque a resposta para tudo isto não é 42. Embora a piada seja boa... ( http://www.independent.co.uk/news/yes-the-answer-to-the-universe-really-is-42-1351201.html )
                Mas enquanto observar a colisão de Estrelas de Nêutrons e confirmar a  existência de ondas gravitacionais (e a relatividade) seja algo inalcançável para astrônomos amadores (dá para tirar uma casquinha aqui:  https://www.ligo.caltech.edu/page/press-release-gw170817 ) , ,mesmo que milionários, M 31 é um alvo ao alcance de qualquer mortal. Mesmo sem telescópio ou sem residir no meio de um deserto. A Galáxia de Andrômeda é o objeto mais distante visível a olho nu de nosso planeta para 99,99% da população. Uma pequena parcela dos outros 0,01% vão se digladiar entre M 83 e o par galáctico formado por M 81 e M 82. Difícil acreditar. M 33 que é apenas um pouco mais distante que M 31 é possível, mas, somente em locais extremamente escuros, para olhos bem acostumados e que saibam onde e pelo que procurar (evidentemente sendo você um membro da parcela realista daqueles 0,01 % da população mundial e que já gastou inumeráveis noites tentando capturar M 83 a unha).
                Mas como em fim consegui um registro fotográfico aceitável de M 31 (as coisas estão ficando difíceis para astro fotógrafos amadores “duros”. Sem sistema de acompanhamento e sem câmera dedicada tá complicado de acompanhar a evolução da coisa...) resolvi aproveitar as coincidências e apresentar uma das Grandes Damas do Céu. Confesso que há tempos aguardava por esta oportunidade. Não sem receio. M 31 é um marco para qualquer amador e uma das mais longas histórias que habitam o céu. Uma dama que merece respeito e completude.
                Durante a primavera o horizonte norte do céu conta uma das mais conhecidas e belas histórias nos legadas pelos gregos. Não à toa já foram realizados diversos remakes Hollywoodianos da mesma. Recordo-me garoto da imensa fila que peguei para ir (creio que pela primeira vez sozinho) ver no Cinema Leblon a versão de 1981 de “Fúria de Titãs”.  Neste uma versão pouco fiel da mitologia é contada. Na lenda grega original Cepheus (da bela “Estrela Carmim” Mu Cephei) se vê obrigado a dar sua filha Andromeda em sacrifício para salvar seu reino do terrível monstro Marinho (na versão cinematográfica o Kraken) que é representado pela constelação atual de Cetus (de M 77 e Mira) devido as bobagens e ofensas feitas por sua mãe, Cassiopéia (uma constelação cheia de aglomerados abertos e muito baixa no horizonte do sudeste do Brasil...)  às Nereidas (Filhas de Poseidon). Perseu (constelação lar de M 34) desafia Poseidon para salvar a princesa e no caminho mata a Medusa (representada nos céus pela estrela variável Algol) amansa o Cavalo Alado Pegasus (outra constelação cheia de galáxias escondidas) e salva Andrômeda.

                Ao olhar-se para o horizonte norte no mês de outubro um dos asterismos mais evidentes será o “O Quadrado de Pegasus”. Formado pelas estrelas Markab, Scheat, Algenib e Alpheratz (esta é na verdade Alfa Andromeda) é fácil perceber a nordeste da última um pequeno esfuminho. Uma “pequena nuvem”. É M 31.  Não é difícil imaginar uma linha ligando as estrelas que formam a constelação de Andrômeda como o penhasco onde nossa pequena e branca dama se encontra acorrentada e entregue a seu destino. E menos ainda o Cavalo Alado se aproximando por cima deste com Perseu indo em seu resgate. Bem... Talvez seja necessária alguma imaginação. Mas com o tempo você vai se acostumar. Há milênios boa parte da humanidade o faz. É interessante ressaltar que a princesa embora branca era de onde hoje se encontra a Etiópia. Jodi Bowker a representou na versão primeira do cinema.

                A história de M 31 é uma das linhas mestras por onde evolui tanto a tecnologia como o conhecimento astrofísico da humanidade.  
                Embora seja evidente que em tempos pré-telescópicos (e antes da luz elétrica) a pequena nebulosa era claramente visível e deve ter sido percebida por nossos antepassados desde a pré-história não existem registros evidentes destas na maior parte das culturas e civilizações antigas.  
                As descrições e explicações antigas dos fenômenos astronômicos e/ou celestiais eram em parte mito em parte teologia. Os céus eram vistos como um playground dos Deuses. Em quase todas as culturas as constelações, padrões de estrelas brilhantes e planetas eram Deuses ou Entes Mitológicos lá colocadas por ordem de um Deus maior. No Caso de Andrômeda por Zeus... Neste cenário nebulosas, novas e supernovas fogem muito do status quo e da ideia de um céu eterno para serem levadas em conta.  E assim M 31 ficou relegada a apêndice ou nem mesmo a isto entre os “primeiros astrônomos” (que eram mais conhecidos como astrólogos...).
                Antes da invenção do telescópio mesmo nos grandes “observatórios” (como Uraniborg de Tycho Brahe) ninguém podia ter uma visão ampliada da Lua e suas crateras. Júpiter era uma “brilhante estrela” que caminhava de forma errante pelo firmamento, mas não possuía luas. Vênus não apresentava fases...  O céu era limitado ao que os olhos podiam ver. A grosso modo (e para 99,99% da humanidade) isto significa estrelas de até 6a magnitude.  Um local pequeno e nebuloso de 4a magnitude não seria exatamente foco de muito debate ou de vários registros.
                Além do gregos diversas culturas nos deixaram registros de estarem familiarizadas com a região do céu aonde habita nossa grande dama. Em petróglifos de diversas etnias indígenas norte americanas as regiões que incluem as atuais constelações de Perseu, Cassiopéia, Pegasus Leão e consequentemente Andrômeda apresentam registros. Os chineses, egípcios e outras culturas pré-históricas também conheciam bem a região e deixaram registros disto. Mas da nebulosa em si não. 
                Há, entretanto, uma possível referência a esta em uma taboa babilônica datada de algo entre 2500-3000 A.C. Nesta existe fala-se de uma constelação semelhante a um veado ou a um cavalo. Isto parece semelhante a Pegasus. Esta tabua então faz referência a “estrelas empoeiradas que estão nas tetas do Cavalo” Supõe-se que esta seja a primeira referência conhecida de M31. E que o cavalo visto pelos babilônicos era uma égua...
                Embora os gregos tenham criado a lenda não existem descrições ou relatos gregos sobre as constelações ou sobre a nebulosa.  C.M. Bowra, diretor do Colégio Wadham em Oxford, no seu “A Experiência Grega” ressalta que os Gregos, que deram a humanidade os seus mitos mais bem imaginados, tornaram-se eles próprios quase um mito... Quase tudo quanto é helênico foi tão transfigurado, através de séculos inteiros de louvores, que é difícil ver os gregos com um olhar puro ou conhecê-los como realmente foram. O processo começou na altura em que os Romanos, conscientes de seus princípios, um pouco rudes, elevaram os Gregos à categoria duma raça de artistas e de filósofos e não foram capazes de ver que a arte e a filosofia não podem ser totalmente compreendidas, separando-as das condições que a criaram.
                Desta forma a donzela de nosso mito tem sua descrição Grego Romana feita provavelmente por um romano e não por um grego...  O Poeta Festus Avienius (circa 400 A.C.) fala de uma constelação acorrentada e cita que nuvens finas amarram seus braços com nós torcidos”. Avienius traduziu para o latim o texto de Aratus (270 A.C.)  “O Céus e Previsões do Tempo” onde este apresenta todas as constelações. Mas apesar de apresentar claramente as Plêiades nada é dito sobre M 31 embora toda a constelação seja citada.
Al Sufi

                Para desespero da bancada evangélica o primeiro registro acima de qualquer dúvida de M 31 cabe a Al-Sufi (astrônomo muçulmano...) em seu “Constelações de Estrelas Fixas” (964 D.C.) Em sua representação da Constelação de Andrômeda ele inclui a nebulosa como as narinas de um peixe. Ele chama M 31 de “pequena nuvem”.
                Posteriormente na versão latina (a versão original não a cita) do Almagesto de Ptolomeu uma mulher e um peixe são novamente utilizadas para representar a constelação e M 31 é representada não pelas narinas do peixe, mas como uma pequena mancha logo abaixo do nariz.   
Almagesto Latino

                Durante a Idade média a região foi diversas vezes citada como “um local nebuloso”. Um mapa holandês de 1500 destaca sua existência, mas nada é dito a respeito. Hodierna, Astrônomo da corte do Duque de Montechiaro, carrega a honra de ter redescoberto a Galáxia de Andrômeda e ter escrito o que pode ser considerado o Primeiro catalogo de Nebulosas da Humanidade. De Admirandis Coeli Characteribus. Neste ele divide as nebulosas em três categorias: Luminosae, Nebulosae e Occultae. M 31 se situa na terceira.  Isto em 1654.
                A primeira observação telescópica de M 31 é anterior a Hodierna e a “pole-position” vai para Simon Marius na noite de 15 de dezembro de 1612.  Sua descrição é bem acurada e semelhante ao que se percebe em atuais telescópios de origem suspeita e pequenas buscadoras.  “parece com a luz de uma vela sendo difundida através de um chifre (pratica comum na época) ...assemelhasse a uma nuvem consistindo de 3 raios esbranquiçados, irregular e tênue.” A descrição é bem descritiva e precisa.  
                A história segue seu ritmo com o avanço da tecnologia e dos telescópios Cada vez se percebem mais detalhes em M 31. Mas nada sobre sua real natureza.
                Halley a observa em 1716 e nos diz: “nada além de luz vindo de um extraordinariamente grande espaço no éter, através do qual um meio luminoso é difundido e brilha com seu próprio esplendor.”
                Depois disto chegamos a La Gentil em 1742 que destaca a existência da sua pequena vizinha e que virá a ser M 32.
                Messier finalmente a inclui em seu catalogo em 3 de agosto ,1764. Nasce M 31. Em sua descrição podemos perceber que já trata-se de uma nebulosa de grande reputação e bem conhecida: “A linda nébula na cintura de Andrômeda, na forma de uma agulha de fiar; M. Messier a examinou com diferentes instrumentos e não identificou nenhuma estrela: Recorda dois cones ou pirâmides de luz opostas por sua base, o eixo das quais se orienta na direção de Noroeste para sudeste; as duas pontas ou vértices se encontram afastados 40 minutos de grau. E a base comum das pirâmides 15 min.  Esta nébula foi descoberta por Simon Marius em 1612. M. le Gentil nos deixou um desenho desta no “Memoirs de L´academie” de 1759. Foi reportada no “Atlas Inglês” (?)”.
                Posteriormente Herschel a observa e denota que “as estrelas que estão espalhadas sobre a mesma parecem estar atrás da mesma e perdem parte de seu brilho ao passar pela nebulosidade”. O grande Herschel não captura a verdade. As estrelas de campo são membro de nossa galáxia e encontram-se muito a frente desta.
                Finalmente Lorde Rosse, antes ainda de seu “Leviatã de Parsontown”, faz em 1871 o primeiro desenho onde percebe-se claramente uma região central envolta em braços espirais.
Lorde Rosse desenho.

                Então, no final do século XIX, a forma de M 31 emerge e juntamente com esta as “nebulosas espirais” que vão ser palco de muita controvérsia e pedras fundamentais para o entendimento das dimensões e forma do nosso universo como hoje o conhecemos. M 31 será a mais fundamental destas pedras. É a “Nebulosa Espiral” mais próxima. É bom realçar que neste momento ela ainda não é entendida como uma galáxia.
                Até 1920 ainda não se tinha certeza ou prova que o universo não consistisse de apenas uma galáxia. No caso a nossa Via Láctea. A idéia de universos ilhas já caminhava entre nós a muito tempo. Giordano Bruno que o diga. Mas as mais consistentes idéias em defesa de que o universo era muito mais amplo do que imaginavam os astrônomos do final do século XIX e começo do XX (e quase todos antes disto) foram formuladas por Kant em seu “História natural universal e Teoria do Céus”. Neste ele defende que muitas de nebulosas que existiam nos céus eram sistemas iguais ou semelhantes a nossa Via Láctea. Isto em 1755. Kant é profético em suas previsões e propõe a existência de planetas além de Saturno 27 anos antes de descobrirem Urano. Sua ideia de Universos ilhas como outras galáxias só se confirma nos anos de 1920... Não é à toa que muitos consideram seu “Crítica da Razão Pura” (1781 e depois 1787) o livro mais importante já escrito no Ocidente.
De qualquer forma no final do século XIX era consistente com as observações acreditar que o universo era composto por uma única galáxia e que a equação “Via Láctea= Universo” seria verdadeira.
Na verdade, a Teoria de Kant foi batizada de “Teoria dos Universos- Ilhas” por ninguém menos que Edwin Hubble. Foi este que acabou de vez e provou que o universo era composto de diversas galáxias e que este era muito maior do que jamais sonhou a vã filosofia.  E M 31 esteve na linha de frente de todo este processo.
Mas de volta ao final do século XIX William Herschel foi um dos primeiros a realizar um estudo intensivo sobre nebulosas (juntamente com sua Irmã Caroline descobriu mais de 2400 DSO´s) e entre estas estava M 31. Inicialmente ele concordava com a maioria e acreditava que todas as nebulosas eram constituídas de estrelas e dado o equipamento necessário seriam resolvidas em estrelas (uma ideia que perseguiu a muitos desde Galileo). Eventualmente ele concedeu que talvez algumas nebulosas fossem parte gás. M 31 seria um destes casos. Mas mais importante ele calcula uma distância para a “Nebulosa de Andromeda”. De acordo com ele esta não estaria mais distante que 2000 X a distância de Sirius (Alfa Canis Majoris), a estrela mais brilhante do firmamento. 
Smith, em seu “The Cycles of Celestial Objects – Volume II- The Bedford Catalog” de 1881 dedica 3 páginas a M 31. Numa destas ele nos fala: ...Sir William Herschel, o Príncipe entres todos os examinadores da construção dos céus, nos dá um rígido escrutínio sobre este fenômeno e conclui que esta é a mais próxima de todas as grandes nebulosas. “Sua parte mais brilhante” ele nos diz, “ aproxima-se da nebulosidade resolvível e começa apresentar uma tênue coloração vermelha; a qual após diversas observações da magnitude e coloração da nébula me faz acreditar que indica que a parte mais colorida não exceda 2000 vezes a distância de Sirius”. Que não exceda esta distancia! Isto é tão distante de nós que a luz viajando190.000 milhas em um segundo de tempo ou doze milhões de milhas em um minuto vai requerer mais de 6000 anos para atravessar tão medonho intervalo. Para as velocidades terrestres, tão comumente citadas, a bala de um canhão , com seu passo de 500 milhas por hora não teria a chance de percorrer tal espaço e menos de 9 ou dez milhões de anos.   O que tão esmagadora ideia nos dá sobre a surpreendente mente do Todo poderoso.
Apesar de infinitamente pequena a distância calculada por Herschel é um aumento tão grande para a percepção geocêntrica e cristão do final do século XIX que chega a chocar. As distancias universais começam a ser medidas em anos luz no lugar de milhas ou quilômetros... O universo começa a expandir-se novamente.
 
3X Drizzle no DeepSkystacker+PixInSight 1.0+Photoshop
A foto que abre o post tem o mesmo tratamento mas somente 2X Drizzle no DSS.
Astrônomos hoje em dia referem-se a M 31 como a Galáxia de Andrômeda. A M 33 como a Galáxia de Triangulo. A M 83 como “A Galáxia do Cata-vento Austral. E não mais como Nebulosas. Entre as ideias de Herschel, a constante de Hubble e o universo em expansão aconteceram alguns fatos notáveis.
A primeira delas foi a descoberta por Henrietta Leawitt da relação entre período e luminosidade de uma classe de estrelas conhecidas como “Variáveis Cefeídas” que permitiu que se pudessem medir distância estelares que estavam muito acima do método por paralaxe. Este pode até funcionar para objetos próximos como Sirius. Mas não para as “nebulosas espirais”. Na verdade, sua descoberta vai selar a sorte deste termo e transformar estas em galáxias...  A tecnologia e os telescópios neste momento ainda não tinham poder de fogo suficiente para resolver estrelas em Andrômeda. Mas ela consegue perceber variáveis nas muito mais próximas nuvens de Magalhães. E descobre que quanto maior é o período entre o brilho máximo e o brilho mínimo e variáveis Cefeidas, maior é o brilho absoluto da mesma.  Resta descobrir a distância de uma cefeida próxima o suficiente para se utilizar o paralaxe e “shazam” ...  Temos uma vela padrão para medir distancias estelares maiores que as permitidas até então.
Em 1920 0correu o “Grande Debate” entre Curtis e Shapley. Um (Shapley) defendendo uma imensa Via-Láctea enquanto o outro apoiava a ideia de universos ilhas. Shapley alega que se distantes estrelas (novas) forem de fato conectadas as nebulosas e possuírem brilho semelhante as estrelas de nossa galáxia isto implicaria que M 31 teria de estar ao menos 1.000.000 de anos luz de nós e esta possuiria ao menos 50.000 anos luz. Ele considera os valores impossíveis.
Ele não poderia estar mais errado. Embora o debate não tenha sido conclusivo a tecnologia ia resolver a questão e sendo a astronomia uma ciência a observação e a tecnologia iriam resolver de vez a questão.
George Hale foi o nome por trás da construção do Telescópios de 60 e 100 polegadas de diâmetro localizados no Mont. Wilson. Hubble pôs as mãos nestas belezinhas durante os anos 20. Sua dissertação era sobre astrofotografia e nebulosas. Ele se beneficiou da evolução das películas bem como do maior poder de fogo do telescópio de 100 polegadas concluído em 1917. Somando-se isto aos céus do Monte Wilson na época e as cefeídas de Henrietta não demorou muito para ele fotografar estrelas na “Nebulosa de Andromeda”.  Em outubro de 1923 tirou uma foto com 40 min de exposição de M 31.  Achou ter descoberto mais uma Nova e marcou com um “N” ao lado da foto. Depois o fato foi se repetindo e em vez de marcar com um “N” ele marcou com “Var”. (Variável). Fotografou as primeiras cefeidas em uma nebulosa espiral. Estas viraram galáxias e o universo se expandiu muito. Apesar de um erro de cálculo posteriormente corrigido Hubble descobriu que M 31 se encontrava a pelo menos 900.000 anos luz. Era uma nebulosa extragaláctica. Ou melhor, outra galáxia. Anos se passaram, as contas foram melhorando, a tecnologia também e Hubble descobriu que o Universo não só era maior do que se imaginava como estava se expandindo. E tudo começou fotografando M 31.
63 exp. X 3 seg + 1 Exp 1 min 1600 ASA. A foto foi processada no DSS sem drizzle e posteriormente teve seu gradiente de fundo melhorado no Pix In Sight bem como curvas foram aplicadas. convertido de TIF para Jpeg no Photoshop. Tratamento bem simples . É a foto mais semelhante a o que se deve esperar ver em uma ocular de cerce de 32 mm. 

                Para o astrônomo amador que reside em local de forte poluição luminosa M 31 vai se apresentar junto a buscadora como um grande globular sem nenhum sinal de resolução. Na verdade, você vai perceber somente seu núcleo. Mas este é muito resistente a poluição luminosa e será facilmente percebido mesmo em locais de extrema poluição luminosa. Esta será percebida a olho nu mesmo em subúrbios claros (Bortle 7). Navegar até ela é muito fácil e com o auxilio de qualquer programa planetário ou atlas celeste mesmo o iniciante chegará facilmente a esta mesmo em cidades grandes. É um alvo ótimo para binóculos.
                Entre as observações modernas de M 31 a que mais me agrada e que considero a melhor e mais realista foi apresentada por Luginbuhl & Skiff no seu “Observing Handbook e Catlogue of Deep Sky Objects” (1990): “M 31 é um a grande, muito brilhante galáxia do Grupo local. É visível a olho nu mesmo em noites medíocres e com a luz do luar. Em locais escuros sua extensão apresenta um incrível contraste com o primeiro plano estrelado. Uma muito tênue estrela (6.9) na sua ponta sudoeste é um excelente teste para adaptação ao escuro e qualidade do céu. Em condições ideais a galáxia se estende além desta; o que implica em perceber-se uma extensão de 3 ½ o. Com um telescópio de 6 cm apresenta-se um halo de 135´, mas o halo externo é fraco e não possui limites definidos. O halo contém algumas fracas condensações, mas o núcleo se apresenta liso e bem concentrado. Com 15 cm revela-se um halo de 120´´X20´ com um pronunciado núcleo com 10´ de diâmetro. Uma faixa escuro a noroeste do centro pode ser vista sem dificuldade com alguma bruma além desta. Com 25 cm o halo possuirá 140´X40´. A região central do núcleo é bem circular e parece opaca no centro como outros objetos que não se resolvem e com grande brilho de superfície ( ex. M 87 em virgo) . A faixa escura do lado NO é mais distinta conforme passa pelo núcleo mas é claramente visível se estendendo par sudoeste e passando por duas estrelas alinhadas NE-SO. Cerca de 15´do centro. Duas faixas mais indistintas são perceptíveis. Uma mais a NO e outra ao longo do lado SE.” A descrição continua com um aparelho de 30 cm..., mas esta parte eu vou passar. Começa ser possível percebere-se diversos globulares de M 31. Bem com agrupamentos estelares e regiões HII. Ngc 206 é o mais evidente destes e ao alcance de telescópios mais modestos.
Desafios em Andrômeda. 


                Observando de Búzios em céus bastante poluídos pela iluminação publica a faixa escura a noroeste é juntamente com o núcleo a parte mais óbvia e o detalhe mais difícil discernível. O núcleo é grande e liso. É curioso Herschel ter achado este no limite da resolução. Mesmo Hubble não conseguiu este feito. Isto coube a Walter Baade já em 1944. Que se aproveitou de novas emulsões fotográfica bem como dos apagões causados pela segundo guerra mundial. Há males que vem para bem... 

                  M 110 é facilmente percebida visualmente. M 32 também, mas mais próxima a matriz e com alto brilho de superficie demanda atenção para não ser confundida com uma estrela de campo. Ngc 206 é apenas uma suspeita nas fotos. 


                Minhas fotos aqui apresentadas são bem mais modestas embora se aproveitem de tecnologias digitais que seriam impensáveis na época de Hubble.  Com 32 minutos de exposições de 30 segundo somadas consegui algum detalhamento mesmo sob céus bastante medíocres durante o último feriado. As fotos aqui apresentadas foram realizadas na sexta feira 13 de outubro de 2017. O equipamento utilizado foi uma Canon T3 e uma lente Canon EF 75-300 mm @250 mm. Montada sobre uma cabeça equatorial HEQ 5 pro da SkyWatcher. Foram realizadas 63 fotos com 30 segundos de exposição e 1 com 1 minuto ( um total de 32 minutos de exposição) com ISO 1600 em RAW. Foram realizados também 15 dark frames para calibração das imagens. E diversos softwares foram utilizados no processamento destas (quase todos freeware) . Isto prova que M 31 apesar de toda sua importância histórica e cosmológica (e também por isto) é um alvo ao alcance da maioria dos mortais. Mesmo fora daqueles 0,01 % da população já citada. Céus escuros tem muito mais peso que a dimensão de seu equipamento (evidentemente respeitando as leis da física e o bom senso).  

         Espero revisitar M 31 em condições ideais ainda nesta primavera e realizar mais exposições e de maior duração. A vantagem de utilizar uma lente no local de meu telescópio é que os 1200 mm do "Newton" demandam alguma forma de acompanhamento. Já com 300 mm um bom alinhamento polar e um acompanhamento feito a moda antiga (utilizando o telescópio para guiar) exposições bem longas serão viáveis. Além de que cobrindo mais de 4 graus de firmamento meu telescópio não engloba  toda galaxia e suas satélites.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Andrômeda, os Prazeres e a Aporema de Primavera

        
            Setembro foi um mês dedicado a um projeto que me manteve afastado dos céus. Em um sentido “quase bíblico” não poderia estar mais distante deste e mais perto do inferno que neste. Em um momento que as favelas (sou de um tempo nem tão politicamente correto em que as ocupações humanas nas encostas do Rio de Janeiro ainda não eram denominadas comunidades) se encontram em pé de guerra devido ao total abandono do estado e também devido a rachas entre as diversas facções criminosas que detém o poder sobre estas áreas e mesmo dentro de uma mesma facção me engajei em um filme que foi realizado no Morro dos Prazeres, localizado no um dia aprazível bairro de Santa Teresa. Segundo meu tio o nome da favela foi dado por um gozador. Toninho Geraes, em seu clássico “Vida Boemia”, parece se dar bem com o local.
Carregando o Mundo nas Costas I
Carregando o Mundo nas Costas II

 Um filme de caráter independente e com pouco dinheiro. Conheci pessoas incríveis e vivi uma realidade onde literalmente se carrega o mundo nas costas (me lembrei muito dos quadros de Portinari onde se carregam sacos e mais sacos de café ...) .  Iluminamos sets utilizando “ festivas” (gatos de energia), carregamos todo o equipamento no lombo, ficamos presos em becos aguardando operações do Bope perseguirem bandidos oriundos de outra favela que fora ocupada por forças do exército e vimos armas. Muitas armas.
Meu fiel Juarez "Ratinho" descolando energia para minhas luzes...
                Em uma cena um dos protagonistas carrega uma geladeira por uma escadaria que tornaria a mais famosa “ Escada da Penha” uma estrutura de caráter minimalista. Mas como o cinema é arte da enganação ele somente a transportou por três degraus e mesmo assim com muita ajuda dos contrarregras. No mundo real vi um cidadão com o apelido de “China” carregar de fato uma geladeira bem maior por todo o percurso em poucos minutos. Em troca de uma pedra de crack.  Depois desceu e ficou esperando o próximo frete...
Oxalá carregando o Mundo. 

                Já na reta final filmamos em um terreiro onde aprendi que certas histórias tem um caráter universal. Fiz uma foto de uma bela escultura em madeira. Logo depois um dos ogãs me pergunta se eu sabia o significado da obra. Eu respondi não ter a menor ideia. Ele me conta – É Oxalá carregando o mundo - pode-se perceber que é uma carga bem mais pesada que uma geladeira... Não pude deixar de pensar em Atlas.
Armas
Muitas armas...

                No penúltimo dia (na verdade a semana final foi toda de noturnas) filmamos um “ Baile Funk”. Em um arroubo dantesco eu tive certeza que se o meu inferno existir o DJ estará lá...
                Como todos os filmes este foi repleto de slogans e frases feitas. As mais corriqueiras foram “ O impossível a gente faz agora. Milagre demora um pouco”, “Um pouco droga, um pouco salada. Meu médico disse que não dá nada não” e a mais ouvida e que usava frequentemente para explicar para a fotografa californiana e que não entendeu muito bem como foi parar nesta roubada e menos ainda a realidade local: “ É o que temos para hoje...”
"Gangue dos Alfaces Transgênicos" Elétrica e Maquinaria...

                E com a “missão dada, missão cumprida” após 27 dias de filmagem sem mortos nem feridos e sem folga na última semana (a qual foi vendida juntamente com a alma) parti para Búzios para, enfim, comemorar a Aporema de Primavera e o encerramento do projeto “ Pacified”.  Como não poderia deixar de ser esqueci a fonte que alimenta Mlle. Herschel.      Não poderia ser tão fácil assim se livrar de todo esse karma terreno e poder de novo vagar por recantos do universo onde eu consigo ver beleza com mais facilidade. Não posso negar que não precisar mais usar o colete verde (que, teoricamente, nos tornava a prova de balas) e nos tornou conhecidos como a “Gangue dos alfaces transgênicos” ajudou no processo de descompressão.
                Na manhã seguinte saí em busca de uma fonte que suprisse as minhas necessidades.  (12 volts e pelo menos 2 amps) .... Felizmente a noite ficou nublada e assim minha dor de corno não me levou ao pranto.  Com o auxílio de uma dose cavalar de Aloprazolam durmo por 10 horas. Estava precisando.  



                Sai cedo com Mlle. Herschel ( minha montagem equatorial HEQ 5 pro ) em busca da fonte. Dona Fortuna sorriu para mim e na loja de informática mais próxima repousava uma fonte universal “made in china” que resolveu meu problema. Como eu já havia descoberto qualquer fonte que gerasse algo entre 11 e 15 volts e uma corrente mínima de 2 amperes faria o truque. Nada como manter o manual de seus brinquedos no HD do computador. Com a cidade lotada conseguir navegar em busca destes dependendo de 3 ou 4 G pode ser bastante frustrante.... Minha nova fonte é pequenina e pode ser regulada para qualquer tensão entre 3 e 12 volts. 3 amperes... potencia 30 Watts. Fazendo as contas calculo que a potência dos motores de Mlle. Herschel sejam de 22 watts. Afinal 11 X 2 = 22. Possuo uma pequena margem de segurança. Uma formula muito útil nos diz que Volts X Amperes = Watts.
                Finalmente conseguirei observar. Desta vez sem nada planejado. Poucas horas antes do entardecer vou colimar o Newton e aguardar por Peacock (Alpha Pavo) para afinar meu alinhamento polar. Tenho em mente tentar algumas fotos do Quarteto de Grus. E mais nada. Outro alvo que gostaria de tentar fotografar (este utilizando minha lente 70 -300 mm) é a nebulosa do Véu.
                Sonho meu. Feriadão a população dobra e a poluição luminosa aumenta 2 pontos na escala Bortle. Não bastasse isto realizei o alinhamento polar “de ouvido” e acabei com um Synscan pouco preciso.  Go-to se encontrava sofrível.  Era sexta feira 13.
                Uma rápida inspeção por Sagitário e percebi que a noite não prometia nada de muito difícil ou tênue. M22, M8 e outros espetáculos “fáceis” se encontravam bem discretos. Depois de visitar uma desbotada Albireo achei que não valia o esforço melhorar muito as coisas. A visão de M 11 era desoladora.  Abandonei a derrota planejada e insisti sem sucesso durante toda noite em caçar M 72. Entre as muitas tentativas frustradas de que fiz a cada calibração do Go-to tentava novamente localizar o penúltimo globular Messier que me resta fotografar. Foram diversas tentativas durante a noite e nenhuma exatamente bem-sucedida. Entre isto visitei alguns velhos conhecidos e algumas duplas novas.  Logo no começo da noite visitei 94 Aquário. Uma delicada e pequena dupla que por um daqueles truques de contraste parecem ter um componente verde.

                Depois M 15 recebeu rápida visita e foi surpreendente levando em conta o que já tinha observado em M 22 e M4. Por alguma razão se apresentava mais brilhante e com o núcleo evidente mesmo na buscadora.
                Tenho impressão que a noite foi escurecendo com o andar das horas. E como acabei ou fracassando em M72 ou visitando alvos bem brilhantes acabei tendo uma noite cheia de DSO´s claros na ocular. M 45 foi namorada durante bastante tempo.
             Preciso colar um "gaffer tape" ou uma fita isolante sobre a luz que se acende na nova fonte de Mlle. Herschel  . Muito forte e azul...
                Andrômeda é a constelação da noite... M 31 a grande Dama...
NGC 752


                A grande novidade da jornada acabou sendo o nem tão obscuro aberto em Andromeda, Ngc 752.  E claro fiz algumas experiencias fotográficas com M 31. Preciso continuar experimentando...
                Primeiramente fotografei a galáxia com o Newton. E depois com minha lente 75-300 mm @ 250 mm f 6.3. O núcleo de M 31 é muito brilhante e um alvo fácil. Perceber seus braços espirais já é um pouco mais delicado. Visualmente são pouco mais que um gradiente com visão periférica. Nas fotos um pouco mais que isto.  Cobrindo uma área enorme Andromeda é um alvo que se adequa mais ao grande campo do zoom do que ao limitado campo do Newton.  M 110 é facilmente percebida. M 32 nem tanto. Nas fotos são obvias.  As fotos realizadas com o Newton destacam apenas seu núcleo e com atenção a mancha de poeira no noroeste dos braços.  
3X Drizzle DSS+ PS -- 64 X 30 seg 1600 ASA

2X Drizzle

                A Poluição luminosa é tal que não utilizo daylight com “White balance” da câmera. Se o fizesse teria um fundo de céu fortemente alaranjado. Regulo o White balance para 4200 kelvin. 
Resultado do Stacking feito no Rot n´Stack... 
                Depois disto aproveito a câmera já montada em piggyback e faço algumas exposições reunindo M 41 e Sirius.

                Como já havia visitado algumas das filhas de Atlas (M45 ou as Plêiades...)  e em um tributo a Oxalá faço uma rápida visita as outras filhas do titã que carrega o mundo nas costas e passo pelas Híades.


                Para encerrar nada como um tour visual por Orion nascendo a leste. Com uma lua minguante se juntando a já intensa poluição luminosa M 42 era uma imagem desbotada.  Melhor dormir...

                Infelizmente as noites que se seguiram foram nubladas e a Aporema de Primavera acabou sendo comemorada em uma única noite. Para aqueles que não acompanham o Nuncius Australis “Aporema” é uma festa que é comemorada 4 vezes ao ano nas luas novas mais próximas aos solstícios e equinócios e que remonta ao Cacique Aporema (um cacique Tupinambá provavelmente de visão aguçadíssima). E mesmo com esposa, cunhada, filha e São Pedro jogando contra consegui comemorar o evento em uma noite bem divertida. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

M 5 : O Aglomerado de Burnham-Asimov

           

         Quando falamos em globulares a separação entre o norte e o sul do planeta se acentua ainda mais que a já batida diferenciação econômica que permeou nossas aulas de geografia no ensino médio. Toda aquela besteirada determinista sobre fatores climáticos e o desenvolvimento vai para o brejo. Quando falamos em globulares os habitantes das terras meridionais levam imensa vantagem. Nas terras ao sul do Equador reinam soberanos Ômega Centauro, Tuc 47e M 22.
            Já para os habitantes setentrionais do planeta a trindade é composta por M 13, M 5 e M3.  A Comparação entre os santos é injusta. O terceiro colocado no hemisfério sul é muito maior e vistoso que o primeiro no Hemisfério Norte.
            Como falei no post a respeito de M 9 tudo é relativo ao observador. No caso ao lugar na terra onde o observador se encontra.
            Normalmente quando vou fazer uma apresentação de um objeto do Catalogo Messier a primeira fonte que busco é o Catalogo Messier. Bastante obvio.  Herschel pai e filho geralmente resolveram os objetos e são paradas obrigatória. A seguir geralmente chego a Smith com seu “The Cycles of Celestial Objects – The Bedford Catalog”. Smith é um amador “profissional” e suas descrições são historicamente fundamentais e geralmente bonitas.  E finalmente tenho como escudeiros meus contemporâneos O ‘Meara e Stoyan.  As páginas da SEDS e algumas outras (The Messier Objects e Astronomy Today) também são fontes que tenho na mais alta consideração.
            Mas de tempos em tempos me lembro porque Burnham e seu “Celestial Handbook” (anos de 1970) são meu guia astronômico favorito.  (Só será encontrado usado. Mas a Amazon pode ajudar... https://www.amazon.com/Burnhams-Celestial-Handbook-Observers-Universe/dp/B0020CBL5E/ref=pd_lpo_sbs_14_t_0?_encoding=UTF8&psc=1&refRID=1FG3WKY8V60ZP8P62WDJ )
            Em primeiro lugar porque Burnham é uma figura quixotesca e me identifico muito com conquistadores do inútil. E em segundo porque ele escreve muito bem e em três volumes é difícil deixar algo para trás. E assim ele me recorda que além de Smith existem outros autores clássicos (e que eu possuo no HD) que devem ser lembrados. Ollcot, Webb, Serviss e “last but not least” Mary Proctor são autores fundamentais.
            Finalmente tinha fotografado M 5. Uma das maravilhas globulares para os habitantes das zonas temperadas e desenvolvidas do Hemisfério Norte. Berço natural da Astronomia Amadora (não é exatamente um esporte barato...).
            Para ser sincero eu nem sabia que ele era essa maravilha toda. Mas com a missão auto imposta de fotografar todos os globulares Messier cheguei até ele na última comemoração da Aporema.  O fotografei de forma descompromissada já baixo no Horizonte Noroeste e realizei menos exposições do que eu gostaria e do que ele merece. Mas a poluição luminosa da Armação dos Búzios naquela direção e um céu de transparência duvidosa me levaram a crer que o ruído era excessivo e estava de bom tamanho. Afinal era apenas mais um dos globulares Messier em meio a massa e meu objetivo como astro fotografo está mais para registrar tudo que existe do que para arte...



Este é resultado de um Drizzle (2X). O Ruido da captura era absurdo e mesmo depois de passear por muitos softwares não melhorou muito. M 5 merece um outro esforço . A imagem que abre o post não passou por drizzle. São ambas resultado do empilhamento de apenas 10 exposições de 30 segundos  ASA 1600 em RAW. A foto acima foi do DSS para o PixInsight , depois Photoshop ( Vários processos e crop) e finalmente Noiseware. Não adiantou muito. A foto que abre o post É resultado do DSS , uma melhora do gradiente de Fundo no Fitswork e um ajuste de exposição no PhotoShop CS. 

Esta é Resultado do mesmo empilhamento com 2X drizzle no DSS e a seguir tratada apenas no Fitswork (sem crop) . Venho percebendo que em noites de muita umidade o ruido , especialmente na parte mais baixa do horizonte é bem cruel. A umidade (nebulosidade)é uma inimiga pior que a poluição luminosa. 


            M 5 se localiza em Serpens (Serpente). A única constelação do céu que se divide em duas partes e que se enrosca em Ophiuchus. Habita próximo a famosa “Nebulosa da Águia” (M 16). Talvez por isto tenha me passado desapercebido por tanto tempo.
            Burnham inicia nos contando que M 5 é um dos grandes shows do céu de verão (lá para eles. Aqui será inverno) ranqueando  junto com M 13 em Hércules e M 3 em Canes Venatici como um dos três mais belos globulares da metade norte do céu. Seu brilho garante o quinto lugar em todo o céu atrás apenas de Ômega Centauro, 47 Tucanae, M 22 e M 13.
            M 5 foi descoberto por Gottfried Kirch em 5 de maio de 1702 enquanto este procurava por um cometa. Isto segundo um relato de sua esposa. Kirch foi descobridor também de M 11 (Aglomerado do Pato Selvagem) e de um cometa em 1680 (C/1680 V1)
. A seguir Burnham segue o caminho de todos e apresenta a descrição de Messier   que eu não posso deixar de apresentar por aqui:
            “[Observado em 23 de maio ,1764]. Linda nébula descoberta entra Libra e Serpens próxima a estrela de sexta magnitude Flamsteed 5 Serpentis. Não contém nenhuma estrela, é arredondada e pode ser muito bem vista sob bons céus com um refrator simples de 1 pé. M. Messier a localizou na carta paro o cometa de 1753, Memoires de l´Acaddemie 1774 pag. 40. Observado novamente em 5 de setembro 1780 e 22 de março de 1781”
            Burnham segue o caminho natural das coisas e apresenta a bela descrição de Smith que destaca como M 5 possui um núcleo ainda mais brilhante que M 3.
O  Refrator de 1 m de Yerkes....

            Finalmente ele me lembra porque gosto tanto de seu livro. Ele localiza a belíssima descrição de Mary Proctor ( uma das maiores divulgadoras da astronomia amadora no início do século XX) no seu doce e gentil “ Evenings with the Stars” (1924)  onde  ela faz uma apresentação delicada de suas impressões sobre M 5 depois de observar este do maior refrator do mundo ( 1 metro de lente...) localizado no Observatório de Yerkes: “Miríade de cintilantes pontos brilhando sobre um fundo de bruma estrelada, iluminada como pela luz da lua, formando um incrível contraste contra a escuridão do céu noturno. Durante poucos momentos felizes, durante os quais o observador vaga por esta cena, sugere um verdadeiro vislumbre dos céus além…” (https://archive.org/details/EveningsWithTheStars )
            Neste momento Burnham se apresenta . Supondo que você é um astrônomo amador você certamente conhece um conto (que posteriormente se tornou um curto romance) do Isaac Asimov chamado “Nightfall” (“O Cair da Noite” em português. É o único livro até agora citado que foi traduzido para o português. Não é fácil levar as coisas a sério na Pindorama). Ele (Asimov) nos conta a história de um planeta (Kalgash) que habita um sistema sêxtuplo de estrelas e que desta forma só conhece a noite a cada 2049 anos. Desta forma seus habitantes não possuem defesas psicológicas para a escuridão total da Noite. Mas a história nos surpreende e pior que a escuridão é quando eles descobrem que habitam dentro de um imenso aglomerado. Quando o ultimo de seus sóis se eclipsa eles são aterrorizados pela maravilha de milhares de estrelas de primeira magnitude brilhado na sua noite... Quase todos enlouquecem.  
O Ritchey Cretien de 1m do Observatório Naval em Flagstaff

            Burnham leu o apocalíptico (é este o adjetivo utilizado ...) romance dois dias depois (eu li em uma noite) de observar M 5 pelo belíssimo refletor Ritchey-Chretien de 40 polegadas do Observatório Naval baseado em Flagstaff, Arizona. Burnham considerou a visão estonteante e foi como se “ Os vagalumes de um milhar de noites de verão tivessem se reunido, congelados para sempre no tempo, e suspensos entre as estrelas”.  Segundo ele Asimov não tinha nenhum aglomerado particular em mente quando escreveu “Nightfall” mas para o autor do “ Celestial Handbook” este será sempre M 5.
            Eu admito que para mim será sempre M 22. 
         
         "Nightfall" foi inspirado pelo seguintes palavras de Emerson no seu ensaio "Nature":
            "Se as estrelas pudessem aparecer uma noite a cada mil anos, como poderia o homem acreditar e adorar , e preservar por muitas gerações, a lembrança  da Cidade de Deus que lhe foi mostrada"
       Quem nunca leu o livro deve ler.( http://lelivros.stream/book/o-cair-da-noite-contos-isaac-asimov ).
Observando M 5 com o Newton (um refletor 150 mm) com 70X de aumento das terras de José Eustáquio (Armação de Búzios) eu não tenho tamanha emoção. Mas como já disse a noite era longe do ideal e o aglomerado já ia bem baixo no horizonte. Observei na mesma noite M 3 mais alto no horizonte e este me impressionou mais.  Agora comparando as fotos (especialmente as sem drizzle) M5 é claramente maior. Percebi um núcleo bem brilhante com um halo aonde, com visão periférica, piscam algumas estrelas. Estas sim como vagalumes. Um aqui, outro ali e um outro acolá.... Tudo é relativo e o que você vai ver junto a ocular de um telescópio é uma incerteza. Ele é percebido como uma pequena estrela enevoada pela minha buscadora 8X50 mm.
            M 5 se encontra a cerca de 25.000 anos luz de nós. Possui um grande número de variáveis, em sua maioria as típicas, para globs, RR Lyrae (95) registradas até 1975. Seu período médio é de 0,5 dias e a magnitude média destas é 14.9.
Harlow Shapley, em 1917, utilizou as variáveis de M 5 para testar a hipótese de que a velocidade da luz poderia variar levemente em função de seu comprimento de onda. Medindo a máxima tanto em estrelas amarelas como em azuis foi demonstrado que a maior possibilidade de diferença entre estas não poderia exceder uma parte em 20.000.000.000. É aceito hoje em dia (desde então) que não há diferença detectável e que toda energia radiante viaja a mesma velocidade pelo espaço.
            M 5 é um dos mais antigos globulares conhecidos e como a maioria destes é originando nos mais primitivos estágios da formação de nossa galáxia.  Sua idade é estimada entre 10 e 13 bilhões de anos.

              Localizar M 5 é tarefa relativamente simples. Localize Alpha Serpentis. É a estrela mais brilhante da constelação e facilmente localizável a sudeste de Arcturus. A partir dela caminho  entre dois e meio e três campos oculares ( você deve conhecer sua buscadora...) rumo SSO. O aglomerado será evidente mesmo baixo no horizonte e em una noite ruim. No mesmo campo habita 5 Serpentis  uma estrela dupla de 5 magnitude e visivel a olho nu em locais escuros. 

        Espero ter a oportunidade de observa-lo novamente de latitudes mais setentrionais em um futuro próximo.  E certamente vou dar uma nova chance a ele em condições mais favoráveis na próxima janela de observação.... 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

M 62 : O Globular Pulsante

             

             M 62 é o último globular Messier de Ophiuchus a ser apresentado aqui no Nuncius Australis.  Apenas por uma daquelas coincidências que nada tem a ver com leis fundamentais do universo. Até porque este é um dos mais estranhos globulares dos céus. Nas palavras de O ‘Meara estranho e místico são os adjetivos que melhor descrevem este DSO.
            Com uma magnitude de 6,7 e uma extrema assimetria M 62 é passível de ser percebido mesmo a olho nu de locais de céu muito escuro.
            É mais um com o selo “Messier Original”. Foi primeiramente observado por ele na noite de 7 de junho de 1771. Mas somente adentrou seu catalogo e teve sua posição determinada em 4 de junho de 1779   provavelmente já finalizando a segunda versão de seu catalogo que seria publicada em 1780:   
            [Junho 4, 1779 .62. 16h 47 min 14 seg (2510 48´24´´) – 290 45´ 30´´]
            “Nebulosa muito bonita, descoberta em Escorpião (posteriormente ela migrou...Reclamações com a IAU), lembra um pequeno cometa, o centro é brilhante e arrodeado de um suave brilho. Sua posição foi determinada a partir da estrela Tau de Scorpio. M. Messier já havia avistado esta nebulosa em junho 7, 1771 sem ter determinado sua posição. Observado novamente em março 22, 1781”.
            Como todos os globulares de Ophiuchus coube a Herschel resolve-lo em estrelas. Porém desta vez demorou um pouco mais. William nos fala que observou o objeto, pela primeira vez, em 1783 com seu refletor de 10 pés (D.F.) quando com 250 X de aumento disse; “Com 250, uma forte suspeita, quase uma certeza, de que consiste de estrelas”. Posteriormente, em 1785, com seus 20 pés ele confirma suas suspeitas.  Nos fala ainda que M 62 é uma “miniatura” de M 3.
 M 62 é o glomerado Messier mais próximo do centro galáctico e habita a população do bojo galáctico, sem nunca se afastar muito do “centrão”. A forte gravidade na região pode justificar sua forte assimetria. John Herschel e posteriormente Jones e Shapley notaram seu curioso formato. Mais especificamente a metade oeste do aglomerado é muito mais brilhante que a metade leste.
A foto que abre o post foi ampliada no DSS em 3 drizzle. Com cerca de 60 X de aumento você verá algo assim na ocular em um céu bem escuro. 

O ‘Meara nos conta que considera M 62 algo místico não devido a sua assimetria, mas porque seu núcleo parece piscar, tendo assim um efeito hipnótico sobre o observador. Ele nos diz que a mesmo tempo que o núcleo parece piscar ele muda de cor. Após algumas explicações sobre a fisiologia do olho humano e um pouco de psicologia (arghhh!!!) ele batiza o aglomerado como “The Flickering Globular”. A fim de manter alguma mística eu achei melhor traduzir isto para “ “O Globular Pulsante”. Meu coração de pedra não vai tão longe, mas, o aglomerado realmente apresenta um interessante degradê. A tradução “literal” do apelido seria uma piada pronta e de muito mau gosto...
Novamente descubro que Stoyan tende a colocar os globulares na região do centro galáctico muito mais distantes que todas as outras fontes. Enquanto o mundo nos diz 22.500 anos luz de nós ele parte para imensos 34.000 anos luz.  E com isto o aglomerado pode ocupar de 64 a 110 anos luz de latifúndio galáctico. M 62 é um globular que sofreu um colapso de núcleo o que o faz extremamente denso. Apresenta ainda outras características cosmológicas interessantes. Um grande número de variáveis (eram 89 RR Lyrae em 1973!!!) bem como alguns pulsares. Não bastando isto há indícios de um buraco negro de massa estelar em seu núcleo.



M 62 é facilmente localizado a cerca de um campo de buscadora (18X50 mm) a sudeste de Antares. Ele será discreto, mas evidente mesmo em condições suburbanas. Do Rio de Janeiro só o percebi pelo telescópio. Mas mesmo com pouco aumento (40 X) é obvio.  Meu bino 15X70 já faz o truque. 

M 9 , suas Distâncias e a "Relatividade"

      

        Continuando a apresentação dos globulares Messier em Ophiuchus chegamos a M 9. Apesar de ter sido um dos primeiros destes a ser fotografados sua imagem acabou ficando guardada no HD e somente agora cheguei até ele. Estou tentando zerar os objetos Messier que já fotografei e apresenta-los todos aqui no Nuncius Australis antes de entrar setembro. A primavera vai chegar com muito trabalho e como já disse quando tenho tempo não tenho dinheiro para observar e quando tenho dinheiro não tenho tempo. Espero chegar em outubro com esta equação mais bem acertada e poder tirar alguns dias para observar em um local bem escuro...
            Messier descobriu M 9 na noite de 28 para 29 de maio de 1764 (seu annus mirabilis) como “ uma nébula sem estrelas” e “ é arredondada e sua luz fraca, 3´de diâmetro. ”  Quase 20 anos depois (na verdade 19 anos ,11 meses e 5 dias) William Herschel descreveu que este é um DSO é, na verdade, um aglomerado estelar muito rico. E seguindo a ordem natural das coisas o Admiral Smyth, nos anos de 1830, o apresenta de forma mais detalhada:  “Este encantador objeto é composto de uma miríade de pequenas estrelas, aglomerando-se em uma chama em seu centro, e maravilhosamente agregadas, com numerosas estrelas externas sendo vislumbradas”. Lorde Rosse (dono do maior telescópio de seu tempo) menciona: “ Seu formato não é redondo; do lado sul há uma porção exterior separada de sua parte principal por uma passagem escura. ”  Heinrich d´Arrest por sua vez fala em um “aglomerado possuidor de um núcleo quase duplo e destaca uma elongação na direção Norte-Sul.
            Curiosamente nenhum destes jamais falou na elipsidade do último globular Messier que foi apresentado aqui no Nuncius Australis. E M 19 é muito mais alongado que M 9.

            Segundo Stoyan M 9 esta a aproximadamente 14.000 anos-luz do centro galáctico, situado do seu lado mais distante, além do bojo galáctico e a uma distância de nós de 46.000 anos luz. Em todas as outras fontes (e não foram poucas) que consultei este se encontra entre 5 e 7.000 anos luz do centro galáctico e entre 22 e 26.000 anos luz de nós. Pelo se tamanho aparente e brilho é difícil concordar com Stoyan. O que é curioso já que considero seu “Atlas of the Messier Objects-Highlights off the Deep Sky” (Cambridge Press 2008) um dos mais completos e belos trabalhos sobre Messier.  Sua massa total é ao redor de 300.000 sóis (desta vez sem muitas divergências).  21 variaveis RR Lyrae já foram catalogadas em M 9 e uma Cefeida do tipo II. Devido a sua localização no braço mais interno e oposto ao nosso M 9 sofre de muita absorção intergaláctica o que o apaga cerca de 1,5 magnitudes e pode tornar difícil o cálculo de distância. Mas nada tão exagerado como parece supor Stoyan (ele apresenta como justificativa para a distância por ele apresentada observações de algumas desta RR Lyrae feitas em 1999). Na verdade, M 9 é cercado por duas nebulosas escuras que são evidentes quando o observamos com binóculos. (B 64 e B 259). Sua idade é de aproximadamente 12 bilhões de anos.
            Apesar de sua magnitude (no Stellarium e outra fontes é de 8,4) e de diversas descrições falando que M 9 é um objeto Messier difícil eu sou obrigado a discordar. Concordo aqui com O´Meara e acho que sua magnitude é , na pior das hipóteses, de 7,8 (acho que 7,5 é um bom valor).   O observei de Búzios em noite de Lua nova. Em um mundo perfeito seria um céu Bortle 6. E este era pequeno, porém obvio em minha buscadora 8X50mm.  Utilizando o Newton (um refletor 150 mm f8) com 120X de aumento resolvi várias estrelas em sua borda mesmo com visão direta. Apesar de muito comentada não achei sua elipsidade tão óbvia (pelo menos nada comparável a M 19). A foto que ilustra este post é resultado de algumas dezenas de fotos e foi empilhada no Deep sky Stacker. Foi utilizado 3 drizzle de ampliação o que pode dar impressão de uma grandiosidade exagerada. M 9 não é grande, mas seguramente tem 5 a 6 ´de arco de diâmetro aparente. Reza a lenda que telescópios a partir de 300 mm o resolvem na integra. Acredito que é possível com bem menos que isto.  É importante frisar que a maior parte das descrições feitas é de observadores muito a norte. Desta forma são um pouco pessimistas. Sob a maior parte dos céus da Pindorama M 9 passa alto no céu  e ele nos revela bem mais detalhes do que dizem...


            Localiza-lo é fácil. Encontra-se a   cerca de 3o a sudeste de Sabik ou Eta Ophiuchi, uma estrela de 2a magnitude e a segunda mais brilhante da constelação. Outra possibilidade é imaginar uma linha entre Antares e Altair e almejar por um lugar no primeiro terço da viagem. Com binóculos é a melhor forma. O campo é lindo. Sempre que posso visito a região com meu 15X70. Neste M 9 é “quase granular”. E seus "apêndices" lhe dão um aspecto espiral. Quase galáctico. 
            M 9 é supostamente um dos mais apagados globulares Messier. Embora eu ache M 71 e diversos outros que viajam mais baixos no horizonte norte bem mais difíceis. Então aproveite para capturar um “DSO difícil” sem muito esforço. Tudo é relativo ao observador...