Translate

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

M 92 : Um Ancião entre Anciões



        M 92 é primo irmão de M 28. São ambos globulares de uma família que nasceu para ser ofuscada pela família dos “Grandes Globulares”. M 28 é praticamente esquecido devido a sua proximidade de M 22 (O Grande Aglomerado de Sagitário). M 92 sofre a mesma sina por habitar ne mesma constelação de M 13 (O Grande Globular de Hércules). Em minha missão auto imposta e já próxima do fim de fotografar todos os globulares Messier ele acabou ficando para trás provavelmente devido a isto e também por passear baixo no horizonte norte aqui pelas bandas do trópico de Capricórnio. Não bastasse isto sua foto acabou esquecida em uma pasta errada de meu HD e este aglomerado pé frio acabou esperando ainda mais tempo para ser aqui apresentado.  Uma Tremenda injustiça...
          Como Burnham nos diz “M 92 é um lindo e rico aglomerado globular que em qualquer outra constelação seria um espetáculo à parte. Mas em Hércules...”. Vocês podem imaginar como termina esta sentença.  
Localizado a cerca de 6o norte de Pi Herculis, que é a estrela que marca o canto nordeste do chamado “Keystone” de Hercules. Este é um asterismo em formato trapezoidal que permite uma fácil identificação da constelação.  Nos meus locais habituais de observação M 92 sofre um pouco com sua baixa altitude e é muito exposto a poluição luminosa. Mesmo assim (em noites boas) ele é perceptível como uma estrela enevoada em minha buscadora (50 mm) e evidente com meu 15X70 mm. Quando observado com o “Galileu” (um refrator de 70 mm) com 90X de aumento desconfio de alguma resolução em suas bordas. Ou ao menos um aspecto granular. Utilizando o Newton (um refletor de 150 mm) e com 120X suas bordas se resolvem e M 92 começa a mostrar seu charme.
       Perceber M 92 não é difícil realmente. É um globular brilhante e certamente deve ser mais interessante ainda se observado do hemisfério norte da terra.  Sua orbita apresenta grande excentricidade e este ao longo de seu passeio de 200 milhões de anos do centro galáctico pode se encontrar a 5000 anos deste ou a 35.000 anos deste. Devido a precessão da rotação do eixo da Terra em 14.000 anos ele se encontrará a menos de 1o  do polo norte celeste e fora do alcance para habitantes da cidade Maravilhosa...  E meu projeto para fotografar todos os “Globs Messier” ou iria para o brejo ou sairia ainda mais caro.
M 92 reside, no momento, a 25.400 ano luz da terra e com um diâmetro aparente de 14 ´ se espalha por um latifúndio de quase 104 anos luz de universo. Sua descoberta se deve a Bode que o observou em 1777. Este foi redescoberto de forma o independente por Messier em 1781 e este nos diz tratar-se de “Uma bela e conspícua nebulosa, bastante brilhante, entre o joelho e a perna esquerda de Hercules. É claramente visível com um refrator de 1 pé (se refere a distância focal do equipamento).  Não contem nenhuma estrela. Seu centro é limpo e brilhante. cercado por nebulosidade e recorda o núcleo de um grande cometa...”. Herschel resolve o objeto e Smith, em 1844, relata: “Um aglomerado globular de pequenas estrelas, precede a perna de Hercules. Este objeto é grande, brilhante e resolvível (Smith utilizou sempre um refrator de 150 mm em seu trabalho), com um centro muito luminoso; e sob as melhores condições apresenta as bordas irregulares e radiantes”. Smith no legou um desenho de M 92.  Trouvelot também desenhou o aglomerado em 1877. Cem anos depois de sua descoberta.
M 92 é um globular muito antigo e sua idade foi durante muito tempo paradoxal. Muito pobre em metais houve um momento que ele seria mais velho que o próprio universo. Em modelos antigos da evolução estelar em globulares acontecia este “pequeno” problema. Mas isto devia-se a modelos cosmológico antigos onde a expansão do universo desaceleraria. De qualquer forma ele é um ancião entre anciões. 14 bilhões de anos....
Smith

Trouvelot

Nos tempos de Hipatia (minha montagem equatorial EQ 2-3) para localizar M 92 eu, geralmente, mirava com meu “red dot Finder” em Pi Herculis e calculava o salto até o aglomerado por esta. Depois partia para a minha buscadora optica (8X50 mm) e geralmente com rápida escaneada chegava até ele. M 92 passeia bem baixo no horizonte e pode ser enganadoramente estelar de Búzios e muito discreto do Rio.  O´Meara nos diz que é facilmente perceptível a olho nu. Com magnitude 6.5 é uma possibilidade. Se você morar em um local muito escuro e ao norte do equador.
As fotos que fiz do globular demonstram bem isto. Foram realizadas em Búzios 21 de julho de 2017. Mesmo com a lua quase nova havia muita nebulosidade no ar e embora a maioria dos mortais acredita-se ser uma noite “limpa” eu sabia que a transparência não estava lá estas coisas. O sensor de minha câmera sabia disto também e o ruído nas fotos evidencia isto mais ainda. 
Existe um recurso no Deep Sky Stacker (um software para astrofografia) que permite “ampliar” os objetos fotografados. Na verdade, você determina uma região a ser empilhada nas fotos capturadas utilizando o recurso de Drizzle deste. Quando suas fotos estão muito boas este pode revelar vários detalhes. Quando não este pode revelar muito ruído. Com “2X Drizzle” este se torna muito evidente e com “3X Drizzle” insuportável.  A técnica de drizzle foi elaborada pela NASA para as observações feitas pelo “Hubble Deep Field”. De maneira simples o que ela faz é que um objeto que na captura inicial ocupava apenas x pixels passe a ocupar 2x pixels (2X Drizzle) ou 3x pixels (3X Drizzle) na imagem processada.

sem drizzle

2 X drizzle

3 x drizzle

Desta forma apresento aqui M 92 em todas as suas versões fotográficas por mim obtidas. Tentei utilizar diversos softwares para melhora a coisa, mas sem grande sucesso. E curiosamente quando tentei utilizar o PixInsight para remover o gradiente das fotos o ruído se tornou ainda pior. Apesar deste ser um programa mais poderoso ele, neste caso, rendeu menos que o Fitswork na tarefa.
Acho importante frisar que a captura sofreu muito com a nebulosidade e diversos objetos fotografados na mesma noite passaram pelo mesmo problema. Evidentemente que DSO´s que se encontravam mais altos no céu foram menos influenciados. O DSS já dava dicas de problemas na captura de M 92. Dos 30 frames capturados ele nunca aceitou mais que 18. E mesmo assim com um limite muito baixo. Nas fotos aqui apresentadas e com um “threshold” de 9% ele só aceitou 11 fotos das 30 realizadas. As exposições foram de 30 segundos e o ISO 1600.
As fotos foram realizadas com o Newton, uma Canon T3 montadas sobre uma montagem equatorial HEQ 5 Pro da Skywatcher. Na observação visual este mal se apresentava na buscadora e havia muito pouca resolução nas bordas com 120 X de aumento.
 Mas missão dada missão cumprida. Faltam-me fotografar M 73 e M 68 no “Projeto Globulares Messier”. Como estou trabalhando até 22 de dezembro em busca do vil metal e com a esperança de poder me dar de presente um sistema de acompanhamento para o Newton este vai ficar para 2018...

                

domingo, 12 de novembro de 2017

M 20 e a Nebulosa de Porter Mason

              
             M 20 é um dos DSO´s mais famosos de todos os céus. É um conjunto de diversas estruturas como a maior parte das nebulosas galácticas. Uma das mais ricas ao alcance de pequenos telescópios. E um daqueles poucos, que havendo uma combinação favorável no tempo e no espaço, poderá apresentar algum colorido para a visão dos amadores. Ou pelo menos mimetizar isto. Pode ser efeito de seus grandes contrastes. Ao combinar luz e trevas ela faz o truque. Assim como a mais difícil de se observar “Nebulosa Cabeça de Cavalo”.  A Cabeça de Cavalo é resultado de uma nebulosa escura a frente de uma nebulosa de emissão. A mistura de IC 434, uma nebulosa de emissão, com uma nebulosa escura (B 33) é que torna possível se perceber o formato característico e que batiza a região. É um caso típico do todo sendo identificado pela parte.
                M 20 é um caso tão complexo quanto a região no entorno de Alnitak em Orion. Neste recanto de Sagitário temos uma nebulosa de emissão, uma nebulosa de reflexão, um aglomerado aberto e uma nebulosa escura bordando a paisagem. A nebulosa escura que é responsável pela aparência que nomeia a região é também uma entrada do Catalogo de nebulosas escuras organizado por Barnard (B 85).    
                Ela é incluída em diversos catálogos. Em alguns apenas a nebulosidade é o registro (Sh 2-30). Em outros se considera o aglomerado que a ilumina como sendo o alvo principal (Cr 360).  
                Algumas fontes irão atribuir a descoberta de M 20 a La Gentil. Mas é hoje opinião amplamente aceita que a observação de Gentil seja um mal-entendido e este tenha visto na verdade M 8.  Bigourdan, já no final do Sec. XIX, parece ser o responsável pela confusão.  
                Messier parece ser o primeiro a registrar o aglomerado que habita a região. M 20 não nasceu como “A Nebulosa Trífida”. Messier nos fala na sua 20a entrada, em observação realizada em 5 de junho 1764, de “um aglomerado de estrelas, levemente acima da eclíptica, entre o arco de Sagitário e o pé de Ophiuchus.” Posteriormente Messier observa M 20 novamente em 22 de março de 1781, mas não acrescenta nada de novo.
                William Herschel é o primeiro a perceber com certeza nebulosidade na região. Mesmo observando da Inglaterra.  Sua latitude muito austral faz de M 20 um alvo ingrato para os observadores muito boreais. Webb no “Celestial Objects for Common Telescopes” nos diz que o objeto foi pobremente observado tanto por ele como por Smyth. Na verdade, este último sequer apresenta uma entrada própria para o conjunto que é apenas citado vagamente na apresentação que este faz de M 23. Tenho a impressão que Smyth não chegou a observar M 20 de fato. Ele fala em um aglomerado cruciforme que Messier suspeitava ser cercado por nebulosidade.
                De volta a Herschel, com seu maior poder de fogo, é o primeiro a perceber algo da natureza tríptica de M 20. “Três nebulosas, fracamente unidas, formam um triangulo. No meio há uma estrela dupla.” Posteriormente (26 de maio 1786) ele acrescenta uma nota falando de uma parte ao norte separada.
                Seu nome mais popular “A Nebulosa Trífida” remonta a John Herschel que dando continuidade ao trabalho de seu pai a observa da Cidade de Cabo. “Trífida, três nébulas com um vácuo por entre as brumas, no qual está centralizada uma estrela dupla. “
                É curioso que John não tenha percebido a quarta parte (a mais ao norte) citada por seu pai observando de latitude tão favorável.
                Mas o azar de um é a sorte de outro. Na mesma época que John Herschel desenvolvia mapas descritivos de nebulosas visando perceber alterações nas mesmas e dar suporte a hipótese nebular um jovem e quase desconhecido astrônomo americano vinha desenvolvendo um trabalho semelhante e de forma independente.
                Dizer que Ebenezer Porter Mason foi um cara de sorte é uma mentira deslavada. Ele foi uma daquelas figuras geniais e marcadas pela tragédia. Um gênio precoce que na história recente me recorda Noel Rosa.  
                Para se confirmar ou não a hipótese nebular desenvolvida por William Herschel (que defendia que estrelas se formavam pela contração e condensação do fluido nebular) era necessário que criassem mapas confiáveis para comparar-se a estrutura das nebulosas ao longo do tempo.
                Porter Mason criou uma técnica que permitia uma precisão incrível e uma proposta original no registro de nebulosas.  Ia o ano de 1839. Ele se utiliza de linha de isofotons ou linhas de igual brilho para registrar as nebulosas por ele escolhidas para sua tese e legado. A técnica de isolinhas é muito utilizada em mapas topográficos.
                Mason, em sua curta vida, (1819-1840) foi um prodígio desde a mais terna infância e aos 16 anos adentrou em Yale.  Lá construí diversos telescópios e finalmente acabou construindo aquele que foi o maior telescópio nos Estados Unidos durante sua curtíssima passagem por aqui. Um refletor Herscheliano de 300 mm.
Desenhos de Porter Mason -M 20

                Com este ele observou M 20 durante 6 noites em julho e agosto de 1839.  Durante as duas primeiras noites ele percebeu apenas a mais conhecida e brilhante nebulosa de emissão que forma a parte sul de M 20 (Ngc 6514) “onde percebem-se as três fendas que a dividem sem nenhuma dificuldade.  Então na noite de 7 de agosto ele vislumbrou a parte norte desta e que hoje sabemos tratar-se de uma nebulosa de reflexão. Embora a pequena nota de William Herschel, Porter é o primeiro a registrar de forma gráfica esta sessão da nebulosa.  “eu e Sr. Smith que a grande estrela imediatamente adjacente (à nebulosa principal) estava cercada com uma nebulosa distinta não muito inferior ao brilho da Trífida.  Não podia ser negligenciada e foi percebida no primeiro vislumbre do campo. Seus limites são quase tão grandes quanto os da nebulosa Trífida com os quais está quase em contato.  Parece-me que M 20 é a primeira nebulosa onde Mason utiliza suas linhas de “isofótonicas”. Parece também ter sido a única. Embora um desenhista muito competente o único registro deixado por ele com esta técnica foi de M 20. As outras nebulosas por ele estudadas a fundo foram a Porção Leste da Nebulosa do Véu (Ngc 6992 e 6995) e M 17
                Infelizmente em pouco mais de um ano depois ele perde sua batalha para a tuberculose. Ebenezer Porter Mason falece na noite de 26 de dezembro de 1840. Com 21 anos.
Em 1841 é lançado seu grande legado ““Observations on nebulae with a fourteen feet reflector, made by H.L. Smith and E.P. Mason, during the Year 1839”.  Neste estão todos os seus desenhos bem como o apanhado de técnicas que ele utiliza para realiza-los. E diversas conclusões...
                Porter Mason, em sua curta vida, parece ter impressionado a muitos. O próprio John Herschel rasga elogios ao rapaz e seu professor e mentor em Yale Denison Olmsted escreve uma bela biografia onde resgata seus maiores trabalhos (Life and Writings of Ebenezer Porter Mason: Interspersed with Hints to Parents and Instructors on the Training and Education of a Child of Genius).
                Sua observação da parte norte de M 20 acabou por tornar esta pequena área de M 20 também conhecida como a “Nebulosa Porter Mason”. Este apelido parece ser fruto de observações feitas 40 anos depois de sua morte por Swift, que ou confunde as coisas ou vê algo que não foi até hoje revisitado. Ele nos diz: “Para minha extrema surpresa eu detectei ainda uma outra grande nébula que segue próxima a Trífida, a qual, é estranho dizer tem também um caráter tríptico.  E que possui uma língua ou uma conexão como “Nébula de Mason and Smith”.
 É importante lembrar que na dupla Smith era o rico que permitiu custear o  telescópio de 300 mm ( foi talentoso astrônomo também e segue uma bela carreira. Não confundir com o Admiral Smyth que foi autor do “Cycle of Celestial Objects” e sócio aqui no Nuncius Australis). Mas Mason foi o prodígio... Foi ele o responsável pelas observações e desenhos.
A porção da nebulosa a esquerda da foto é a "Porter Mason". Esta foto  é resultado de 28 exposições de 30 Seg. 1600 ISO Julho de 2017. Foi destacada a região em questão. Fotos capturadas em RAW e tratadas como escala de cinza.A foto que abre o post foi realizada em Julho de 2015. Não recordo mais quantas exposições...
                Tendo chegado até Mason através do “Observing and Cataloguing Nebulae and Star Clusters: From Herschel to Dreyer’s New General Catalogue” escrito por Wolfgang Steinicke fiquei curioso sobre como estes detalhes de M 20 me haviam passado. E fascinado pela figura poética de Porter Mason vou atrás de algumas fotos recentes que tinha feito de M 20.  Com alguns ajustes no Photoshop e ressaltando o brilho da porção “Porter Mason” de M 20 eu achei que Swift pode apenas ter  se emocionado um pouco com o que viu. Com o auxílio da fotografia eu consigo entender que a porção norte de M 20 tenha mesmo um caráter de tríptico em escondido por ali. Nada tão evidente com sua porção principal, mas regiões escuras fazem um recorte interessante e passível de imaginação pelo observador. E creio que esta região não tenha sido incluída no que Barnard denominou como B 85.

                M 20 é um objeto riquíssimo e que demanda noites e noites de observação para revelar todas as suas nuances. Mesmo registros fotográficos serão distintos dependendo do que se decidir buscar neste celeiro de estruturas celestiais que atende em conjunto pelo nome de M 20. Observar a “Porter Mason” é um objetivo possível para donos de pequenos telescópios . Mas demanda atenção e especialmente não ser distraído pela porção mais óbvia e brilhante do conjunto da obra. Um excelente exercício para o astrônomo visual obstinado...  

terça-feira, 31 de outubro de 2017

M 35 , Meteorologia e um Vizinho


         M 35 é um dos mais belos aglomerados abertos dos céus. E é um local repletos de coincidências, que ao contrário da maioria destas podem ser relacionadas a algumas leis fundamentais do universo.
                O aglomerado é considerado como um arauto do bom tempo. Conseguir perceber M 35 a olho nu significa uma transparência absurda e é sinônimo de tempo seco.  Uma das coincidências é que a astronomia e a meteorologia caminham juntas desde a antiguidade.  Aratus (270 A.C.) em “O Céus” (Phenomena) nos apresenta o legado de Eudoxus e o conhecimento dos fenômenos celestes nos tempos de Platão. No mesmo compêndio ele apresenta “A Previsão do Tempo” (Diosemia) . Em forma de poesia ele reúne as duas ciências em um único volume. Não me parece coincidência.
“Known are their laws ; in harmony unroll
The nineteen-orbed cycles of the Moon.
And all the signs through which Night whirls her car
From belted Orion back to Orion and his dauntless Hound
                          Aratus na tradução de E.Poste


                Aratus nos apresenta o caminho do sol pelo céu e as constelações do Zodíaco. Curiosamente ele nos mostra como o sol se encontra em Gêmeos no Solstício de verão (A História como a conhecemos costuma se passar no Hemisfério Norte) .
                É aí que as coisas começam a ficar interessantes. Alguns milênios mais tarde Serviss (O Carl Sagan do séc. XIX) nos conta em seu antológico “Astronomy with na Opera Glass” que no momento que o sol atinge sua maior declinação norte ele se encontra sobre M 35. Na verdade a frente de M 35.  “No brilho do pôr do sol aquele enxame estelar é escondido de nossa visão, mas com os olhos da mente podemos olhar através e além do nosso sol pelo abismo incompreensível do espaço e o contemplar ainda brilhando, seus raios misturados ao nosso grande Deus do Dia o fazendo então parecer apenas mais um vagabundo solitário na extensão do Universo”.
                Não bastasse isto Serviss ainda nos lembra que apenas alguns graus a sudoeste deste (lembrem-se: o zodíaco e a eclíptica são "quase"  mesmo lugar) William Herschel descobriu Urano na noite de 13 de março de 1781.
                M 35 é ainda (e também por isto. Era grande fã de Serviss) o aglomerado aberto preferido de Walter Scott Houston, este o criador e autor da coluna Deep Sky Wonders por várias décadas na revista Sky and Telescope.  Scott nos conta na sua coluna de março de 1964 (dias antes do Golpe de 1 de abril aqui nas terras tupiniquins) que aprendeu as constelações lendo o livro de Serviss.  Nesta ele fala que não possuía um binoculo de ópera, mas sim uma luneta de 25 mm feita com uma lente subtraída de um óculos materno e com uma lupa obtida de seu pai. Foi assim que ele viu M 35 pela primeira vez. E mesmo assim a impressão que ficou foi de maravilha...
                Todos os autores (desde Smith) falam que M 35 é perceptível a olho nu como uma pequena região nebulosa em noites favoráveis. Mas nenhum dos autores mais antigos jamais afirmou ter, de fato, visto M 35 a olho nu.  Houston tinha  por hábito em suas explorações examinar o que era possível observar sem recursos extraordinários.  Em sua apresentação de M 35 (A Gema de Gêmeos) ele nos fala “... amadores rotineiramente se testam tentando observar o aglomerado a olho nu. Isto o coloca na mesma classe que a galáxia M 33 e a Luz Zodiacal.  Skiff contou 434 estrelas entre as magnitudes 8.2 e 15.3 e conclui que a magnitude total do aglomerado seria de 5.1. Portanto ao alcance da vista humana. Mas com o brilhante fundo composto pela via láctea pode ser um pouco mais difícil do que parece.  De qualquer forma numa madrugada limpa de setembro de 1984, Dennis de Cicco (Editor de S&T) enquanto aguardava pelo “nascer” do Cometa Austin buscou por M 35. e ele estava lá. Eu o vislumbrei assim, mas com o auxílio de um filtro para nébulas (não especificado) de meu quintal em Connecticut.  Poderia alguém identificar estrelas individuais no aglomerado sem auxilio ótico? “
                O biônico Stephen James O´Meara, em seu “Deep Sky Companions- The Messier Objects” nos fala que embora ela tenha certeza de resolver algumas estrelas ele não consegue as localizar com absoluta precisão e teme estar sendo enganado por sua mente. E assim parece que o desafio ainda esta de pé...
                Eu, no meu modesto astigmatismo, consegui perceber M 35 (com uso de visão periférica) algumas vezes em Búzios. Somente como uma leve nebulosidade bem pequena. Mas de um existir acima dos padrões de Espinoza. Portanto ele estava lá mesmo. No dia seguinte deu praia. Definitivamente há uma relação entre a observação a olho nu de M 35 e o clima no planeta. Quase uma lei fundamental se considerarmos o bater da asa das borboletas como desprezível em nosso modelamento.
                Quanto a minha a observação visual de M 35 tenho que levar em conta uma coisa. Parafraseando Smyth “Muitas coisas, consideradas invisíveis, são simples demais para quem sabe aonde olhar”. O fato de não haver nenhum registro de M 35 a olho nu durante a antiguidade não garante que isto não tenha acontecido. Aristóteles percebeu M 41 a olho nu e desta forma este continua sendo o mais tênue objeto conhecido na antiguidade clássica. M 35 possui magnitude 5.1 e M 41 de 4.5. É uma diferença considerável.   E naqueles tempos ninguém sabia aonde estava M 35... (A frase de Smyth, em uma tradução ipsis litteris, que encontrei na abertura do “Celestial Objects for Common Telescopes” de Webb é esta: Muitas coisas, consideradas invisíveis aos instrumentos secundários, são simples suficiente para quem sabe como vê-las.).
                A descoberta oficial de M 35 é alvo de alguma discussão, mas é atualmente o mais aceito que sua primeira observação tenha sido feita por De Chéseaux em 1745 ou 1746.  Mas como sua lista de nebulosas não foi publicada (foi apenas apresentada uma vez a academia em 6 de agosto 1746) e tornou-se mais conhecida apenas após sua investigação por Bigourdan em 1892 muitos autores atribuem a primeira observação a John Bevis. Este o inclui em seu Uranographia Britannica que foi completado em 1750.
                É este o caso de Messier, que elegantemente cita o trabalho de Bevis: “Aglomerados de muito tênues estrelas, próximo ao pé de Castor (o gêmeo mais a oeste), não longe de m e h   nesta constelação. M. Messier marcou sua posição na carta para o cometa de 1770.  Posição foi “plotada” no Atlas Celeste Inglês (o Uranographia Brittanica de Bevis).

Eu não consigo ver aonde esta indicad a posição de M 35 na carta de Messier para o Cometa de 1770 . 

                É bem interessante o acesso de Messier ao Atlas de Bevis.  Seu atlas nunca foi publicado por formas tradicionais. O editor do Atlas, John Neale, faliu antes da conclusão do projeto. Porém alguns “plates” para a impressão foram feitos e impressões feitas antes da ruina de Neale. Estas foram posteriormente vendidas e se tornaram volumes “completos”. O Uranographia Brittanica de Nevis é um livro raríssimo. De 17 cópias feitas resta hoje somente uma. (Claro que foi digitalizada e qualquer um pode ter acesso a essa “raridade”.) 
Uranographia Brittanica . Plate 24 -M 35 esta discreto ,mas claramente marcado junto ao pé de Castor.  


              M 35 também ranqueia alto nas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do Universo. Seu descobridor não publicou sua descoberta (Cheseaux), seu primeiro registro foi em um Atlas “não publicado” que Messier teve acesso e este mesmo marcou sua posição na Carta do Cometa que mais perto já passou da terra e que atualmente encontra-se perdido...
                A melhor descrição e uma que eu gostaria de ter escrito para o aspecto de M 35 visto por uma buscadora é a de Serviss: “O aspecto geral é como um pedaço de prata fosco sobre o qual uma luz cintilante esta a passear”. Ele segue nos dizendo “que o esplendor desta congregação cósmica, vista por um telescópio mais poderoso, pode ser entendido a partir da pitoresca descrição do Admiral Smyth:  Este apresenta um magnifico campo estelar, da nona até a décima sexta magnitude, mas com um centro de massa menos rico que o restante. Estrelas pequenas se inclinam formando curvas de três ou quatro membros geralmente com uma grande estrela na raiz destas curvas. Lembra um pouco um a ignição de um foguete."
                 De fato, a descrição de Smyth casa muito bem com o que observo com o Newton. (meu Refletor 150 mm f8).
              A melhor forma de observar M 35 no meu set up é com minha ocular de 40 mm. Mesmo assim ele preenche uma boa parte do campo. Este ocupa uma área igual a lua cheia. Se resolvem  varias dezenas de estrelas e o "buraco central" empresta uma aparência de rosquinha ao aglomerado. 
                
                Analisando seus membros M 35 possui uma idade entre 100.000.000 e 200.000.000 de anos. Relativamente jovem. Ele possui 20 membros com magnitude inferior a 10, 120 membros com esta até 13 e 2700 estrelas que pertencem ao aglomerado considerando-se até a magnitude 21. Sua estrela mais brilhante é uma gigante branco azulada de magnitude 7.5. É uma estrela do tipo espectral B3. As mais antigas estrelas genuinamente ainda na sequencia principal são do tipo B6 e B7 e possuem magnitudes de 8.8 e 9.2
                Atualmente a distância mais aceita para M 35 é de 2710 anos luz. Disto podemos derivar um tamanho físico de 22 anos luz.  Isto implica em uma densidade estelar média de 3 estrelas por ano luz cubico.
A foto que abre o post e esta são a mesma. Resultado de 15 frames de 20 segundos com ASA 3200. 4 Darks. DSS+PixInSight+ PhotoShop+ Noiseware.
Realizadas em Buzios em janeiro de 2016. 

                Como podemos perceber nas fotos M 35 apresenta um interessante companheiro cósmico diretamente a sudoeste. Ngc 2158. Este descoberto por William Herschel. Residindo a uma distância muito maior (12.000 anos luz) é um dos mais distantes abertos conhecidos. Possui magnitude 8.6 e é um alvo visual difícil e muito suscetível a poluição luminosa. Com uma idade estimada na de 2 bilhões de anos faz parte daquele grupo de aglomerados abertos que possuem um parentesco no seu diagrama H-R com globulares.  Sua longevidade pode ser atribuída a evidente concentração estelar que é óbvia na imagem.  Arp (um dos Dons quixotes da astronomia) relaciona a formação deste (junto com M 188, M 67 e Ngc 752) a sua posição na galáxia e os coloca como uma transição entre globulares e abertos. A metalicidade destes parece corroborar com a ideia. Estes abertos “antigos” teriam se formado próximos ao halo em um momento anterior na evolução galáctica e assim menos “contaminados” por metais mais abundantes próximos ao centro da galáxia e posteriormente na história química da mesma.  Seu tamanho físico é muito semelhante ao de M 35 e assim é um par que serve bem como exemplo para a relatividade das coisas.Nas fotos ele tem um que de "Globular"... 
                    Observando com a mesma 40 mm que utilizo em M35 o aglomerado se disfarça no campo. Demanda atenção para ser percebido. Utilizando a 10 mm e isolando o mesmo ele ameaça se resolver mas jamais na integra. Não é um alvo fácil visualmente. especialmente com pequenos telescópios. No meu 15X70 é apenas uma suspeita névoa. Creio que em céus muito escuros seja uma presença mais obvia.  



                M 35 é um dos mais ricos aglomerados que conheço e creio que qualquer um que tenha um primeiro contato com o mesmo, independente do aparelho utilizado na observação, não passe por um momento de assombro e admiração e até humildade perante tal maravilha.   E se o observar a olho nu pode ter certeza que é uma grande noite para se buscar por alvos mais difíceis...

domingo, 29 de outubro de 2017

M 56 , Catálogos e Guias Observacionais


             A noite de 19 de janeiro de 1779 deve ter sido bem agitada no Observatório de Cluny. Charles Messier descobriu um cometa e logo em seguida se deparou com outro suspeito. O cometa era um cometa mesmo. E já havia sido observado por Bode em 6 de janeiro (quase duas semanas antes). Como naqueles tempos pré-telegrafo as notícias viajavam em um ritmo tão lento que poderiam chocar aqueles que nasceram nos tempos da “internet discada” ele não sabia disto.
                Já o suspeito não era um cometa. Ao retornar na noite de 23 de março para inspecionar o elemento este percebeu que a pequena bola enevoada não havia se movido em relação as estrelas e logo tratava-se de mais uma nebulosa.   E assim acabou se tornando a entrada de número 56 de seu catalogo de “impostores de cometas”.                
                Messier o descreve da seguinte forma (temo parecer um pouco repetitivo): “[Observação de 23 de janeiro, 1779]. Nebulosa sem estrelas, a qual é muito tênue. M. Messier descobriu esta precisamente no mesmo dia que descobriu o cometa de 1779, em 19 de janeiro. No dia 23 determinou sua posição por comparação com Flamsteed 2 Cygni. Repousa próxima a Via-Láctea e próxima a uma estrela de 10a magnitude.  M. Messier marcou sua posição na carta para o cometa de 1779”.
                Este cometa foi acompanhado por diversos astrônomos e ao longo de sua orbita foram encontradas diversas nebulosas que adentraram o Catalogo Messier (M 56, M 57, M 58, M 59, M 60 e M 61). Messier não publicou esta carta até 1782 e incluiu diversas nebulosas de seu catalogo na mesma.           

Parte ampliada . Podemos perceber as posições de M 56 e M 57 plotadas.

                M 56 é uma entrada discreta nos guias observacionais clássicos.  Dito isto gostaria de abrir um parêntese a fim de apresentar algumas conclusões que cheguei ao longo de vários anos explorando os céus, sua história, seus catálogos e seus guias observacionais.
                Os ditos catálogos são a matéria prima para o moderno astrônomo amador. A maior, senão todas as maravilhas celestes ao alcance destes foram descobertas e registradas nos que vou chamar de Catálogos Clássicos. Nestes todos os objetos são descobertas ou redescobertas de DSO´s originais. Estes autores mapeiam de fato os céus e são verdadeiros pioneiros celestiais.  No meu entender podemos iniciar a lista de Catálogos Clássicos com o Catalogo Lacaille. Embora seja discutível que esta poderia começar com o catalogo deixado por Hodierna ( que só foi “descoberto” nos anos de 1980) e posteriormente incluída também a pequena lista feita por Halley ( sete objetos. ). A seguir vem o mais clássico de todos eles e chegamos ao Catalogo Messier. Depois surge o embrião do General Catalog (que embora embrião é a maior parte deste) e as 2500 nebulosas descobertas por William Herschel, com o auxílio luxuoso de sua irmã Caroline, que amplia em muito o nosso conhecimento do universo. Depois disto, especialmente para os habitantes austrais, deve-se incluir o catalogo elaborado por Dunlop e finalizando esta fase áurea os Objetos descobertos por John Herschel (filho de William) que conclui o trabalho de seu pai e dá corpo a General Catalog em si. Posteriormente tudo isto e mais um pouco é organizado por Dreyer e surge o mais utilizado e completo catalogo em uso hoje em dia. O New General Catalog , chamado pelos íntimos de NGC.   
                Depois deles vem os chamados Guias Observacionais clássicos. Os dois mais importantes e que, com poucas exceções, são os únicos que consulto são o “Cycles of Celestial Objects” e o “Celestial Objects for Common Telescopes” do Admiral Smith e do Rev. T.W. Weeb respectivamente. A título de justiça “Evenings with the Stars” de Mary Proctor e o “Astronomy with na Opera Glass” do Serviss são também historicamente importantes. E as vezes me lembro de visita-los.                                  “Cycles” é um belíssimo trabalho e Smith é mais prolixo e poético em suas apresentações. Mas o trabalho de Weeb traz a grande vantagem de já adotar a numeração do New General Catalog na apresentação dos objetos. E para o astrônomo amador atual o formato do antigo General Catalog (adotado por Smith) com sua notação Herscheliana é quase como ler hieróglifos.
                Depois destes dois e provavelmente o primeiro Catalogo moderno à altura destes e que nos traz para o século 20 é o magnifico e completíssimo trabalho de Burnham  . “The Burham´s Celestial Handbook” marca o começo de um outro tempo para os guias observacionais. O Próprio Burnham nos diz o porquê em poucos parágrafos de sua curta introdução (em uma tradução livre): “Este (o “Celestial Handbook”) pretende ser o catalogo padrão e o detalhado guia descritivo de muitos milhares de objetos observáveis para amadores com telescópios de 50 a 300 mm. Seu domínio é todo o universo além do sistema solar. E vai lidar com os objetos celestiais hoje em dia conhecidos com “objetos de céu profundo”. Diversos livros foram produzidos no passado tratando da matéria sendo o mais completo e bem-sucedido o “Celestial Objects for Common Telescopes” (ele se refere especialmente a versão revisada lançada pela Dover em 1962. O Original é de 1894).
                Ao lado do obvio fato que todos os livros mais antigos se encontram muito datados e desatualizados cosmologicamente existem outras razões porque um novo Guia Observacional se faz necessário. A Primeira é que os primeiros guias foram escritos para possuidores dos telescópios padrões em 1900. Estes seriam em sua maioria acromáticos de até 75 mm. Hoje em dia o telescópio padrão pode ser considerado refletores com algo entre 150 e 300 mm.  Isto abriu um imenso mundo de DSO´s para o amador.
                Em segundo lugar o imenso aumento do conhecimento astronômico causou uma mudança no foco de interesse dos amadores nas últimas décadas. Os antigos guias se concentravam muito em objetos mais locais como estrelas duplas e variáveis e as nebulosas e aglomerados mais espetaculares eram incluídos, mas sua descrição se limitava em muito ao visual já que carecíamos de fatos. galáxias não eram sequer mencionadas como tal já que desconhecíamos a natureza das “Nebulosas espirais”. “
                E assim nasce o “Burnham´s celestial Handbook” que embora hoje também já levemente datado é o mais completo e interessante guia observacional que conheço. Um eterno favorito. E como trata-se de um guia observacional e não de um livro de cosmologia suas informações continuam, no geral, completamente validas.     Uma distância aqui e uma idade acolá não me parecem falta grave.   
                A partir do Burnham o mercado editorial cresceu muito e os guias foram se tornando mais especializados e/ou mais completos.  Entre os completos eu indicaria o         “Webb Society Deep Sky Observer´s Handbook “. Este um guia observacional por excelência. Cinco Volumes englobando quase tudo que existe. Cada um dedicado a um DSO especifico. (Estrelas duplas, Galáxias, Aglomerados, nebulosas planetárias e Aglomerados de galáxias). Apresentação descritiva de todos os objetos por diferentes equipamentos. Outro na mesmo linha é “Observing Handbook and Catalogo f Deep Sky Objects” de Lunginbuhl e Skiff. Embora bem mais conciso trás o que pode-se chamar de “o filé”.
                Depois disto temos os que chamo de Guias temáticos. O modelo padrão é a série “Deep Sky Companions” do O´Meara. Cada um vai abordar um catalogo especifico e são livros que além de apresentarem uma descrição visual irão adentrar pela história e cosmologia de cada um dos objetos além de impressões de cunho mais pessoal. Algo que remonta até Smith.
                De volta a M56 este é um objeto que tem modesta descrição tanto no “Cycles” como no “Common Telescopes”.  Abaixo sua apresentação no “Cycles”.

A apresentação de M 56 no "Cycles". Pode-se perceber um pequeno erro de Smith. M 56 foi descoberto por Messier em 1779.  Quando ele fala em uma profundidade de "344th order" significa que Herschel calculou a distancia do aglomerado como 344 X mais distante que Sirius. 


                Já Webb nos diz que “Mais para o tênue, talvez resolvível com minhas 3 7/10 polegadas, em um belo campo em rica região.  Entre 3o e 4o de Beta Cygni”.

                É curioso que Webb tenha tido a impressão de resolver M 56 com tão modesto telescópio. Me parece muito otimista.  Lunginbuhl em seu conciso, porém realista “Handbook” nos diz que o mesmo é “visível um telescópio de 60 mm em um rico campo com uma estrela de 10a magnitude no canto oeste. Com um 150 mm ele é granuloso com 50 X de aumento e começa e se resolver parcialmente            com mais aumento... Se resolve completamente com 200X em um aparelho de 250 mm”.
                Minhas observações me levam a concordar em gênero, número e grau com as descrições de Luginbuhl. Mesmo sendo um aglomerado pouco denso não vejo a menor chance de solução com nada menor que 150 mm.
                M 56 é um globular da classe x na escala Shapley. Isto faz dele o terceiro menos concentrado globular do Catalogo Messier. É mais denso apenas que M 55 e M 71.  Com uma orbita bem excêntrica, porém pouco inclinada M 56 pode estar a 40.000 anos luz do centro galáctico para daqui há alguns milhões de anos se encontrar a pouco milhares de anos luz do mesmo. No momento está na parte mais externa de sua orbita e se encontra a 27.000 anos luz de nós.  No ano 2000 foi descoberta uma “cauda” de raio x que segue M 56 em sua orbita. Isto pode indicar uma interação entre este e o gás existente no halo galáctico conforme este se move. Mas é um caso em estudo...
                Com cerca de 200.000 massas solares (segundo Stoyan. Outro guia nos moldes atuais . Trata do Catalogo Messier e é um primor...) não chega a ser um grande aglomerado. Sua estrela mais brilhante atinge magnitude 13. Sawyer-Hoog calculou uma magnitude média de 15.3 para as estrelas mais brilhantes de M 56. Sua estrela mais brilhante é uma variável do tipo RV Tauri. Foram encontradas mais 5 estrelas do tipo no globular. Estas estão presentes também em Ômega Centauro, M2, M 5, M10 e M 28.


                Localizar M 56 não é difícil. Geralmente parto de Albireo (Beta Cygni) em direção a Vega (Alfa Lyra) junto a buscadora. E acabo esbarando por ele enquanto passeio pelos belos campos estelares da região. Ele será percebido como uma pequenina bola de algodão com 10x5omm.
                 As fotos aqui apresentadas foram resultado do stacking de 22 fotos com 30 seg de exposição ASA 1600 . Foram utilizados 6 dark frames para calibragem. A foto que abre o post passou por u processo de 2 Drizzle no Deep Sky Stacker e posteriormente teve seu gradiente resolvido no PixInsight. A foto que passou pela astrometria não passou pelo drizzle e foi tratada no Fitswork. 

                O´Meara o considera M 56 seu “impostor de cometas” favorito. Não posso negar que ele se presta realmente bem ao papel.  

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Ngc 752 - Um Antigo Aglomerado em Andrômeda

     
        
        Ngc 752 é um aglomerado aberto atípico e que sofre da “síndrome de vizinhança”. Localizado em Andromeda e não sendo as Plêiades é difícil que alguém vá visitar um disperso aglomerado aberto logo ao lado de M 31, uma das grandes damas da noite. Mas como é de grande valor cosmológico e aparência curiosa recebe tratamento especial em quase todos os catálogos clássicos. Mas é fato que este foi um aglomerado visitado por recomendação. A apresentação deste no “Burnhan´s Celestial Handbook” torna este um butim inevitável.  
                Lá descubro que trata-se de um aberto muito antigo (para os padrões de aglomerados galácticos.) Seu aspecto denota isto. Cobre grande área sem maiores concentrações e parece se dividir em duas metades. A bela dupla Andromedae 56 enfeita a paisagem, mas não é um membro do aglomerado.  Curiosamente a dupla é descrita por Smith no “Cycles of celestial Objects- Vol-2 – The Bedford Catalogue”, mas nenhuma palavra é dita sobre o aglomerado. Burnham ao explicar os motivos que o levou a escrever o seu “Handbook” fala justamente disto: “... Secundariamente, a vasto aumento do conhecimento cosmológico resultou em uma grande mudança dos interesses do amador nos últimos 50 anos. Os livros mais velhos (na verdade o guia tradicional para Burnham é um pouco posterior ao de Smith. Trata-se do Celestial Objects for Common Telescopes de T.W. Webb) concentram-se fortemente em objetos relativamente locais como estrelas duplas e fortes variáveis....”
                A melhor forma de observa-lo foi com minha 40 mm e engloba bem o conjunto da obra. Com a 25 mm é necessário passear um pouco para ver todo aglomerado.
                Esta característica deve explicar como este conjunto escapou a Messier. A “descoberta” de Ngc 752 coube a Herschel.
                Como James Mullaney nos conta em The Herschel Objects and How to Observe Them “dado os estreitos campos (de visão) dos grandes refletores de Herschel é duvidoso que ele tenha visto esta adorável comunidade em toda sua glória.
                Confesso que mesmo conseguindo englobar toda a comuna e mesmo And 56 no mesmo campo não fiquei exatamente de queijo caído. É um obvio aglomerado aberto. Bem disperso, mas ainda evidentemente um aberto.   
                O que faz Ngc 752 uma DSO “obrigatório” é sua idade. Ele forma juntamente com M 67 e Ngc 188 o conselho ancião dos aglomerados galácticos. Confesso M 67 esta mais bem conservado apesar de ser ainda mais velho. (Ngc 188 é provavelmente o mais velho de todos. Nunca o observei) A natureza “muito aberta” de Ngc 752 entrega claramente sua velhice. Ao contrário de globulares cuja as centenas de milhares de estrelas membros exercem mutua gravidade e as mantem bem juntas (tipo os trens da central em horário de rush), aglomerados abertos tendem a se diluir conforme vão envelhecendo. Estrelas nas margens destes vão sendo perdidas devido a puxões gravitacionais de outras estrelas passageiras, nuvens moleculares e de outros aglomerados. Estas estrelas “perdidas” acabam por se mesclar nos populosos braços estelares da Via Láctea e o aglomerado acaba perdendo sua identidade.

                Embora não seja visualmente um “blockbuster” Ngc 752 mostra sua riqueza devido a sua importância cosmológica. Sua população estelar, como demonstrado em seu diagrama H-R ou Diagrama Cor- Magnitude, parece o colocar em um limbo entre os aglomerados abertos e os globulares no que se refere a idade e desenvolvimento evolucionário. Sua estrutura e movimento pelo espaço definitivamente o classificam como um aglomerado galáctico (ou aberto) mas suas estrelas parecem estar evoluindo para um padrão típico apresentado por diagramas HR de globulares. A maioria de seus membros são subgigantes do tipo F as quais residem bem acima da sequência principal e seguem adiantadas ruma a sua fase gigante.
                Estudos recentes calculam uma idade para Ngc 752 de 2 bilhões de anos. Um deles demonstra que entre seus membros já se encontram 18 gigantes vermelhas. O ROSAT detectou 49 fontes de raios X na região do aglomerado sete das quais foram associadas a membros visíveis do aglomerado. Três destes objetos são binarias de curto período, um é uma “blue straggler” e um é uma rápida giradora (rapid rotator). Estas descobertas demonstram claramente que trata-se de um aglomerado que teve tempo o suficiente para seguir diversos caminhos evolutivos para seus membros.

                Localizar Ngc 752 é fácil. Em céus bem escuros ela será uma nebulosidade visível a sudoeste de Almach. (Gama Andromedae), esta mesma uma bela dupla que por si só já vale o passeio. Em locais de poluição luminosa e com uma buscadora ótica de um passo de buscadora para sudoeste e localize 56 Andromedae. Ngc 752 estará lá também. A dupla é evidente na buscadora assim como os membros mais brilhantes do aglomerado.  O aglomerado também é um excelente alvo binocular e acho que gostei mais dele como meu     15X70 mm que com o conjunto Newton (Meu telescópio 150 mm f8) + 40 mm que me dá 30X de aumento.

sábado, 21 de outubro de 2017

M 31 - A Grande Galáxia de Andrômeda

             

         Por uma daquelas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do Universo eu fotografei, pela primeira vez com alguma dignidade, a Galáxia de Andrômeda (M 31) as vésperas da divulgação do primeiro registro visual de uma junção de duas estrelas de Nêutrons. Tanto a galáxia como a junção têm relações diretas e são responsáveis por muito do que sabemos sobre as tais leis fundamentais. E são dois marcos históricos de gigantescas proporções para o que hoje sabemos sobre o universo em que habitamos e para outras questões que parecem nos acompanhar desde sempre e provavelmente para sempre (Tipo: De onde viemos? Para onde vamos? A Vida, o Universo e Tudo Mais...). Quando compreendemos as implicações do entendimento de tais estruturas e suas relações com o universo entendemos porque a resposta para tudo isto não é 42. Embora a piada seja boa... ( http://www.independent.co.uk/news/yes-the-answer-to-the-universe-really-is-42-1351201.html )
                Mas enquanto observar a colisão de Estrelas de Nêutrons e confirmar a  existência de ondas gravitacionais (e a relatividade) seja algo inalcançável para astrônomos amadores (dá para tirar uma casquinha aqui:  https://www.ligo.caltech.edu/page/press-release-gw170817 ) , ,mesmo que milionários, M 31 é um alvo ao alcance de qualquer mortal. Mesmo sem telescópio ou sem residir no meio de um deserto. A Galáxia de Andrômeda é o objeto mais distante visível a olho nu de nosso planeta para 99,99% da população. Uma pequena parcela dos outros 0,01% vão se digladiar entre M 83 e o par galáctico formado por M 81 e M 82. Difícil acreditar. M 33 que é apenas um pouco mais distante que M 31 é possível, mas, somente em locais extremamente escuros, para olhos bem acostumados e que saibam onde e pelo que procurar (evidentemente sendo você um membro da parcela realista daqueles 0,01 % da população mundial e que já gastou inumeráveis noites tentando capturar M 83 a unha).
                Mas como em fim consegui um registro fotográfico aceitável de M 31 (as coisas estão ficando difíceis para astro fotógrafos amadores “duros”. Sem sistema de acompanhamento e sem câmera dedicada tá complicado de acompanhar a evolução da coisa...) resolvi aproveitar as coincidências e apresentar uma das Grandes Damas do Céu. Confesso que há tempos aguardava por esta oportunidade. Não sem receio. M 31 é um marco para qualquer amador e uma das mais longas histórias que habitam o céu. Uma dama que merece respeito e completude.
                Durante a primavera o horizonte norte do céu conta uma das mais conhecidas e belas histórias nos legadas pelos gregos. Não à toa já foram realizados diversos remakes Hollywoodianos da mesma. Recordo-me garoto da imensa fila que peguei para ir (creio que pela primeira vez sozinho) ver no Cinema Leblon a versão de 1981 de “Fúria de Titãs”.  Neste uma versão pouco fiel da mitologia é contada. Na lenda grega original Cepheus (da bela “Estrela Carmim” Mu Cephei) se vê obrigado a dar sua filha Andromeda em sacrifício para salvar seu reino do terrível monstro Marinho (na versão cinematográfica o Kraken) que é representado pela constelação atual de Cetus (de M 77 e Mira) devido as bobagens e ofensas feitas por sua mãe, Cassiopéia (uma constelação cheia de aglomerados abertos e muito baixa no horizonte do sudeste do Brasil...)  às Nereidas (Filhas de Poseidon). Perseu (constelação lar de M 34) desafia Poseidon para salvar a princesa e no caminho mata a Medusa (representada nos céus pela estrela variável Algol) amansa o Cavalo Alado Pegasus (outra constelação cheia de galáxias escondidas) e salva Andrômeda.

                Ao olhar-se para o horizonte norte no mês de outubro um dos asterismos mais evidentes será o “O Quadrado de Pegasus”. Formado pelas estrelas Markab, Scheat, Algenib e Alpheratz (esta é na verdade Alfa Andromeda) é fácil perceber a nordeste da última um pequeno esfuminho. Uma “pequena nuvem”. É M 31.  Não é difícil imaginar uma linha ligando as estrelas que formam a constelação de Andrômeda como o penhasco onde nossa pequena e branca dama se encontra acorrentada e entregue a seu destino. E menos ainda o Cavalo Alado se aproximando por cima deste com Perseu indo em seu resgate. Bem... Talvez seja necessária alguma imaginação. Mas com o tempo você vai se acostumar. Há milênios boa parte da humanidade o faz. É interessante ressaltar que a princesa embora branca era de onde hoje se encontra a Etiópia. Jodi Bowker a representou na versão primeira do cinema.

                A história de M 31 é uma das linhas mestras por onde evolui tanto a tecnologia como o conhecimento astrofísico da humanidade.  
                Embora seja evidente que em tempos pré-telescópicos (e antes da luz elétrica) a pequena nebulosa era claramente visível e deve ter sido percebida por nossos antepassados desde a pré-história não existem registros evidentes destas na maior parte das culturas e civilizações antigas.  
                As descrições e explicações antigas dos fenômenos astronômicos e/ou celestiais eram em parte mito em parte teologia. Os céus eram vistos como um playground dos Deuses. Em quase todas as culturas as constelações, padrões de estrelas brilhantes e planetas eram Deuses ou Entes Mitológicos lá colocadas por ordem de um Deus maior. No Caso de Andrômeda por Zeus... Neste cenário nebulosas, novas e supernovas fogem muito do status quo e da ideia de um céu eterno para serem levadas em conta.  E assim M 31 ficou relegada a apêndice ou nem mesmo a isto entre os “primeiros astrônomos” (que eram mais conhecidos como astrólogos...).
                Antes da invenção do telescópio mesmo nos grandes “observatórios” (como Uraniborg de Tycho Brahe) ninguém podia ter uma visão ampliada da Lua e suas crateras. Júpiter era uma “brilhante estrela” que caminhava de forma errante pelo firmamento, mas não possuía luas. Vênus não apresentava fases...  O céu era limitado ao que os olhos podiam ver. A grosso modo (e para 99,99% da humanidade) isto significa estrelas de até 6a magnitude.  Um local pequeno e nebuloso de 4a magnitude não seria exatamente foco de muito debate ou de vários registros.
                Além do gregos diversas culturas nos deixaram registros de estarem familiarizadas com a região do céu aonde habita nossa grande dama. Em petróglifos de diversas etnias indígenas norte americanas as regiões que incluem as atuais constelações de Perseu, Cassiopéia, Pegasus Leão e consequentemente Andrômeda apresentam registros. Os chineses, egípcios e outras culturas pré-históricas também conheciam bem a região e deixaram registros disto. Mas da nebulosa em si não. 
                Há, entretanto, uma possível referência a esta em uma taboa babilônica datada de algo entre 2500-3000 A.C. Nesta existe fala-se de uma constelação semelhante a um veado ou a um cavalo. Isto parece semelhante a Pegasus. Esta tabua então faz referência a “estrelas empoeiradas que estão nas tetas do Cavalo” Supõe-se que esta seja a primeira referência conhecida de M31. E que o cavalo visto pelos babilônicos era uma égua...
                Embora os gregos tenham criado a lenda não existem descrições ou relatos gregos sobre as constelações ou sobre a nebulosa.  C.M. Bowra, diretor do Colégio Wadham em Oxford, no seu “A Experiência Grega” ressalta que os Gregos, que deram a humanidade os seus mitos mais bem imaginados, tornaram-se eles próprios quase um mito... Quase tudo quanto é helênico foi tão transfigurado, através de séculos inteiros de louvores, que é difícil ver os gregos com um olhar puro ou conhecê-los como realmente foram. O processo começou na altura em que os Romanos, conscientes de seus princípios, um pouco rudes, elevaram os Gregos à categoria duma raça de artistas e de filósofos e não foram capazes de ver que a arte e a filosofia não podem ser totalmente compreendidas, separando-as das condições que a criaram.
                Desta forma a donzela de nosso mito tem sua descrição Grego Romana feita provavelmente por um romano e não por um grego...  O Poeta Festus Avienius (circa 400 A.C.) fala de uma constelação acorrentada e cita que nuvens finas amarram seus braços com nós torcidos”. Avienius traduziu para o latim o texto de Aratus (270 A.C.)  “O Céus e Previsões do Tempo” onde este apresenta todas as constelações. Mas apesar de apresentar claramente as Plêiades nada é dito sobre M 31 embora toda a constelação seja citada.
Al Sufi

                Para desespero da bancada evangélica o primeiro registro acima de qualquer dúvida de M 31 cabe a Al-Sufi (astrônomo muçulmano...) em seu “Constelações de Estrelas Fixas” (964 D.C.) Em sua representação da Constelação de Andrômeda ele inclui a nebulosa como as narinas de um peixe. Ele chama M 31 de “pequena nuvem”.
                Posteriormente na versão latina (a versão original não a cita) do Almagesto de Ptolomeu uma mulher e um peixe são novamente utilizadas para representar a constelação e M 31 é representada não pelas narinas do peixe, mas como uma pequena mancha logo abaixo do nariz.   
Almagesto Latino

                Durante a Idade média a região foi diversas vezes citada como “um local nebuloso”. Um mapa holandês de 1500 destaca sua existência, mas nada é dito a respeito. Hodierna, Astrônomo da corte do Duque de Montechiaro, carrega a honra de ter redescoberto a Galáxia de Andrômeda e ter escrito o que pode ser considerado o Primeiro catalogo de Nebulosas da Humanidade. De Admirandis Coeli Characteribus. Neste ele divide as nebulosas em três categorias: Luminosae, Nebulosae e Occultae. M 31 se situa na terceira.  Isto em 1654.
                A primeira observação telescópica de M 31 é anterior a Hodierna e a “pole-position” vai para Simon Marius na noite de 15 de dezembro de 1612.  Sua descrição é bem acurada e semelhante ao que se percebe em atuais telescópios de origem suspeita e pequenas buscadoras.  “parece com a luz de uma vela sendo difundida através de um chifre (pratica comum na época) ...assemelhasse a uma nuvem consistindo de 3 raios esbranquiçados, irregular e tênue.” A descrição é bem descritiva e precisa.  
                A história segue seu ritmo com o avanço da tecnologia e dos telescópios Cada vez se percebem mais detalhes em M 31. Mas nada sobre sua real natureza.
                Halley a observa em 1716 e nos diz: “nada além de luz vindo de um extraordinariamente grande espaço no éter, através do qual um meio luminoso é difundido e brilha com seu próprio esplendor.”
                Depois disto chegamos a La Gentil em 1742 que destaca a existência da sua pequena vizinha e que virá a ser M 32.
                Messier finalmente a inclui em seu catalogo em 3 de agosto ,1764. Nasce M 31. Em sua descrição podemos perceber que já trata-se de uma nebulosa de grande reputação e bem conhecida: “A linda nébula na cintura de Andrômeda, na forma de uma agulha de fiar; M. Messier a examinou com diferentes instrumentos e não identificou nenhuma estrela: Recorda dois cones ou pirâmides de luz opostas por sua base, o eixo das quais se orienta na direção de Noroeste para sudeste; as duas pontas ou vértices se encontram afastados 40 minutos de grau. E a base comum das pirâmides 15 min.  Esta nébula foi descoberta por Simon Marius em 1612. M. le Gentil nos deixou um desenho desta no “Memoirs de L´academie” de 1759. Foi reportada no “Atlas Inglês” (?)”. 
                       Por "Atlas Inglês" eu suponho que Messier se refira ao trabalho de Flamsteed " Atlas Coelestis"´de 1729. Realmente existe uma pequena marca no local onde habita a galaxia. Muito discreta e não esta nomeada. Na verdade o único DSO nomeado  nos mapas de Flamsteed é M 45 (As Plêiades). 
Logo a direita de v andromedae já fora do desenho da Princesa. 
                       Cabe uma duvida se Messier não se refere neste momento ao mais raro Uranographia Brittanica onde também esta claramente marcada a nebulosa. E é fato notório que Messier teve acesso a este devido a citação posterior em M 35 sobre o raro Atlas. 
               
            Posteriormente Herschel a observa e denota que “as estrelas que estão espalhadas sobre a mesma parecem estar atrás da mesma e perdem parte de seu brilho ao passar pela nebulosidade”. O grande Herschel não captura a verdade. As estrelas de campo são membro de nossa galáxia e encontram-se muito a frente desta.
                Finalmente Lorde Rosse, antes ainda de seu “Leviatã de Parsontown”, faz em 1871 o primeiro desenho onde percebe-se claramente uma região central envolta em braços espirais.
Lorde Rosse desenho.

                Então, no final do século XIX, a forma de M 31 emerge e juntamente com esta as “nebulosas espirais” que vão ser palco de muita controvérsia e pedras fundamentais para o entendimento das dimensões e forma do nosso universo como hoje o conhecemos. M 31 será a mais fundamental destas pedras. É a “Nebulosa Espiral” mais próxima. É bom realçar que neste momento ela ainda não é entendida como uma galáxia.
                Até 1920 ainda não se tinha certeza ou prova que o universo não consistisse de apenas uma galáxia. No caso a nossa Via Láctea. A idéia de universos ilhas já caminhava entre nós a muito tempo. Giordano Bruno que o diga. Mas as mais consistentes idéias em defesa de que o universo era muito mais amplo do que imaginavam os astrônomos do final do século XIX e começo do XX (e quase todos antes disto) foram formuladas por Kant em seu “História natural universal e Teoria do Céus”. Neste ele defende que muitas de nebulosas que existiam nos céus eram sistemas iguais ou semelhantes a nossa Via Láctea. Isto em 1755. Kant é profético em suas previsões e propõe a existência de planetas além de Saturno 27 anos antes de descobrirem Urano. Sua ideia de Universos ilhas como outras galáxias só se confirma nos anos de 1920... Não é à toa que muitos consideram seu “Crítica da Razão Pura” (1781 e depois 1787) o livro mais importante já escrito no Ocidente.
De qualquer forma no final do século XIX era consistente com as observações acreditar que o universo era composto por uma única galáxia e que a equação “Via Láctea= Universo” seria verdadeira.
Na verdade, a Teoria de Kant foi batizada de “Teoria dos Universos- Ilhas” por ninguém menos que Edwin Hubble. Foi este que acabou de vez e provou que o universo era composto de diversas galáxias e que este era muito maior do que jamais sonhou a vã filosofia.  E M 31 esteve na linha de frente de todo este processo.
Mas de volta ao final do século XIX William Herschel foi um dos primeiros a realizar um estudo intensivo sobre nebulosas (juntamente com sua Irmã Caroline descobriu mais de 2400 DSO´s) e entre estas estava M 31. Inicialmente ele concordava com a maioria e acreditava que todas as nebulosas eram constituídas de estrelas e dado o equipamento necessário seriam resolvidas em estrelas (uma ideia que perseguiu a muitos desde Galileo). Eventualmente ele concedeu que talvez algumas nebulosas fossem parte gás. M 31 seria um destes casos. Mas mais importante ele calcula uma distância para a “Nebulosa de Andromeda”. De acordo com ele esta não estaria mais distante que 2000 X a distância de Sirius (Alfa Canis Majoris), a estrela mais brilhante do firmamento. 
Smith, em seu “The Cycles of Celestial Objects – Volume II- The Bedford Catalog” de 1881 dedica 3 páginas a M 31. Numa destas ele nos fala: ...Sir William Herschel, o Príncipe entres todos os examinadores da construção dos céus, nos dá um rígido escrutínio sobre este fenômeno e conclui que esta é a mais próxima de todas as grandes nebulosas. “Sua parte mais brilhante” ele nos diz, “ aproxima-se da nebulosidade resolvível e começa apresentar uma tênue coloração vermelha; a qual após diversas observações da magnitude e coloração da nébula me faz acreditar que indica que a parte mais colorida não exceda 2000 vezes a distância de Sirius”. Que não exceda esta distancia! Isto é tão distante de nós que a luz viajando190.000 milhas em um segundo de tempo ou doze milhões de milhas em um minuto vai requerer mais de 6000 anos para atravessar tão medonho intervalo. Para as velocidades terrestres, tão comumente citadas, a bala de um canhão , com seu passo de 500 milhas por hora não teria a chance de percorrer tal espaço e menos de 9 ou dez milhões de anos.   O que tão esmagadora ideia nos dá sobre a surpreendente mente do Todo poderoso.
Apesar de infinitamente pequena a distância calculada por Herschel é um aumento tão grande para a percepção geocêntrica e cristão do final do século XIX que chega a chocar. As distancias universais começam a ser medidas em anos luz no lugar de milhas ou quilômetros... O universo começa a expandir-se novamente.
 
3X Drizzle no DeepSkystacker+PixInSight 1.0+Photoshop
A foto que abre o post tem o mesmo tratamento mas somente 2X Drizzle no DSS.
Astrônomos hoje em dia referem-se a M 31 como a Galáxia de Andrômeda. A M 33 como a Galáxia de Triangulo. A M 83 como “A Galáxia do Cata-vento Austral. E não mais como Nebulosas. Entre as ideias de Herschel, a constante de Hubble e o universo em expansão aconteceram alguns fatos notáveis.
A primeira delas foi a descoberta por Henrietta Leawitt da relação entre período e luminosidade de uma classe de estrelas conhecidas como “Variáveis Cefeídas” que permitiu que se pudessem medir distância estelares que estavam muito acima do método por paralaxe. Este pode até funcionar para objetos próximos como Sirius. Mas não para as “nebulosas espirais”. Na verdade, sua descoberta vai selar a sorte deste termo e transformar estas em galáxias...  A tecnologia e os telescópios neste momento ainda não tinham poder de fogo suficiente para resolver estrelas em Andrômeda. Mas ela consegue perceber variáveis nas muito mais próximas nuvens de Magalhães. E descobre que quanto maior é o período entre o brilho máximo e o brilho mínimo e variáveis Cefeidas, maior é o brilho absoluto da mesma.  Resta descobrir a distância de uma cefeida próxima o suficiente para se utilizar o paralaxe e “shazam” ...  Temos uma vela padrão para medir distancias estelares maiores que as permitidas até então.
Em 1920 0correu o “Grande Debate” entre Curtis e Shapley. Um (Shapley) defendendo uma imensa Via-Láctea enquanto o outro apoiava a ideia de universos ilhas. Shapley alega que se distantes estrelas (novas) forem de fato conectadas as nebulosas e possuírem brilho semelhante as estrelas de nossa galáxia isto implicaria que M 31 teria de estar ao menos 1.000.000 de anos luz de nós e esta possuiria ao menos 50.000 anos luz. Ele considera os valores impossíveis.
Ele não poderia estar mais errado. Embora o debate não tenha sido conclusivo a tecnologia ia resolver a questão e sendo a astronomia uma ciência a observação e a tecnologia iriam resolver de vez a questão.
George Hale foi o nome por trás da construção do Telescópios de 60 e 100 polegadas de diâmetro localizados no Mont. Wilson. Hubble pôs as mãos nestas belezinhas durante os anos 20. Sua dissertação era sobre astrofotografia e nebulosas. Ele se beneficiou da evolução das películas bem como do maior poder de fogo do telescópio de 100 polegadas concluído em 1917. Somando-se isto aos céus do Monte Wilson na época e as cefeídas de Henrietta não demorou muito para ele fotografar estrelas na “Nebulosa de Andromeda”.  Em outubro de 1923 tirou uma foto com 40 min de exposição de M 31.  Achou ter descoberto mais uma Nova e marcou com um “N” ao lado da foto. Depois o fato foi se repetindo e em vez de marcar com um “N” ele marcou com “Var”. (Variável). Fotografou as primeiras cefeidas em uma nebulosa espiral. Estas viraram galáxias e o universo se expandiu muito. Apesar de um erro de cálculo posteriormente corrigido Hubble descobriu que M 31 se encontrava a pelo menos 900.000 anos luz. Era uma nebulosa extragaláctica. Ou melhor, outra galáxia. Anos se passaram, as contas foram melhorando, a tecnologia também e Hubble descobriu que o Universo não só era maior do que se imaginava como estava se expandindo. E tudo começou fotografando M 31.
63 exp. X 3 seg + 1 Exp 1 min 1600 ASA. A foto foi processada no DSS sem drizzle e posteriormente teve seu gradiente de fundo melhorado no Pix In Sight bem como curvas foram aplicadas. convertido de TIF para Jpeg no Photoshop. Tratamento bem simples . É a foto mais semelhante a o que se deve esperar ver em uma ocular de cerce de 32 mm. 

                Para o astrônomo amador que reside em local de forte poluição luminosa M 31 vai se apresentar junto a buscadora como um grande globular sem nenhum sinal de resolução. Na verdade, você vai perceber somente seu núcleo. Mas este é muito resistente a poluição luminosa e será facilmente percebido mesmo em locais de extrema poluição luminosa. Esta será percebida a olho nu mesmo em subúrbios claros (Bortle 7). Navegar até ela é muito fácil e com o auxilio de qualquer programa planetário ou atlas celeste mesmo o iniciante chegará facilmente a esta mesmo em cidades grandes. É um alvo ótimo para binóculos.
                Entre as observações modernas de M 31 a que mais me agrada e que considero a melhor e mais realista foi apresentada por Luginbuhl & Skiff no seu “Observing Handbook e Catlogue of Deep Sky Objects” (1990): “M 31 é um a grande, muito brilhante galáxia do Grupo local. É visível a olho nu mesmo em noites medíocres e com a luz do luar. Em locais escuros sua extensão apresenta um incrível contraste com o primeiro plano estrelado. Uma muito tênue estrela (6.9) na sua ponta sudoeste é um excelente teste para adaptação ao escuro e qualidade do céu. Em condições ideais a galáxia se estende além desta; o que implica em perceber-se uma extensão de 3 ½ o. Com um telescópio de 6 cm apresenta-se um halo de 135´, mas o halo externo é fraco e não possui limites definidos. O halo contém algumas fracas condensações, mas o núcleo se apresenta liso e bem concentrado. Com 15 cm revela-se um halo de 120´´X20´ com um pronunciado núcleo com 10´ de diâmetro. Uma faixa escuro a noroeste do centro pode ser vista sem dificuldade com alguma bruma além desta. Com 25 cm o halo possuirá 140´X40´. A região central do núcleo é bem circular e parece opaca no centro como outros objetos que não se resolvem e com grande brilho de superfície ( ex. M 87 em virgo) . A faixa escura do lado NO é mais distinta conforme passa pelo núcleo mas é claramente visível se estendendo par sudoeste e passando por duas estrelas alinhadas NE-SO. Cerca de 15´do centro. Duas faixas mais indistintas são perceptíveis. Uma mais a NO e outra ao longo do lado SE.” A descrição continua com um aparelho de 30 cm..., mas esta parte eu vou passar. Começa ser possível percebere-se diversos globulares de M 31. Bem com agrupamentos estelares e regiões HII. Ngc 206 é o mais evidente destes e ao alcance de telescópios mais modestos.
Desafios em Andrômeda. 
                     Não poderia deixar de apresentar como prova de que M 31 é um alvo perfeito para qualquer mortal sua apresentação no delicado "Astronomy with an Opera Glass" de Serviss. Neste ele nos fala: " Esta é a mais antiga ou a primeira a ser observada nebulosa e , colocada de lado a Grande Nebulosa de orion (M 42), a maior visivel deste hemisfério (norte). Claro que não muito deve ser esperado de um binóculo de ópera  na observação de tal objeto; e ainda assim um bom binóculo , boas condições climaticas e a ausência da lua faz desta um belo espetáculo. Olhando de rabo de olho a nebulosa pode ser vista como uma tenue e fina luz muito alongada de ambos os lados de seu nucleo. " Curiosamente serviss fala também da supernova de 1885 mas afirma que esta não poderia estar fisicamente relacionada a nebulosa em si.


                Observando de Búzios em céus bastante poluídos pela iluminação publica a faixa escura a noroeste é juntamente com o núcleo a parte mais óbvia e o detalhe mais difícil discernível. O núcleo é grande e liso. É curioso Herschel ter achado este no limite da resolução. Mesmo Hubble não conseguiu este feito. Isto coube a Walter Baade já em 1944. Que se aproveitou de novas emulsões fotográfica bem como dos apagões causados pela segundo guerra mundial. Há males que vem para bem... 

                  M 110 é facilmente percebida visualmente. M 32 também, mas mais próxima a matriz e com alto brilho de superficie demanda atenção para não ser confundida com uma estrela de campo. Ngc 206 é apenas uma suspeita nas fotos. 


                Minhas fotos aqui apresentadas são bem mais modestas embora se aproveitem de tecnologias digitais que seriam impensáveis na época de Hubble.  Com 32 minutos de exposições de 30 segundo somadas consegui algum detalhamento mesmo sob céus bastante medíocres durante o último feriado. As fotos aqui apresentadas foram realizadas na sexta feira 13 de outubro de 2017. O equipamento utilizado foi uma Canon T3 e uma lente Canon EF 75-300 mm @250 mm. Montada sobre uma cabeça equatorial HEQ 5 pro da SkyWatcher. Foram realizadas 63 fotos com 30 segundos de exposição e 1 com 1 minuto ( um total de 32 minutos de exposição) com ISO 1600 em RAW. Foram realizados também 15 dark frames para calibração das imagens. E diversos softwares foram utilizados no processamento destas (quase todos freeware) . Isto prova que M 31 apesar de toda sua importância histórica e cosmológica (e também por isto) é um alvo ao alcance da maioria dos mortais. Mesmo fora daqueles 0,01 % da população já citada. Céus escuros tem muito mais peso que a dimensão de seu equipamento (evidentemente respeitando as leis da física e o bom senso).  

         Espero revisitar M 31 em condições ideais ainda nesta primavera e realizar mais exposições e de maior duração. A vantagem de utilizar uma lente no local de meu telescópio é que os 1200 mm do "Newton" demandam alguma forma de acompanhamento. Já com 300 mm um bom alinhamento polar e um acompanhamento feito a moda antiga (utilizando o telescópio para guiar) exposições bem longas serão viáveis. Além de que cobrindo mais de 4 graus de firmamento meu telescópio não engloba  toda galaxia e suas satélites.