segunda-feira, 15 de maio de 2017

Brincando de ATM

                O Saara é popularmente conhecido como o maior e mais quente deserto do mundo. Ambas as informações são incorretas. O maior deserto do mundo é um lugar frio e gelado. É a Antártida. E o lugar mais quente do mundo é Bangu. (Brincadeirinha ... O Local mais quente da terra é o Deserto de Lut. No Irã. O Lugar é tão desolado que até recentemente não possuía medições confiáveis e constantes de sua temperatura.)
                Mas como carioca sei que a região da Saara merece o nome que tem. (Na verdade “a nossa” Saara vem de Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfandega.) Caminhando pela região em meados de fevereiro tinha a nítida sensação que Bangu, O Deserto de Lut, O Dead Valley e El Azizia no Saara original são oásis de delicias.
                Nas ruas decoradas por “Fatas Morganas” eu caminhava sentindo-me como um tuaregue malvestido. E em meio as minhas andanças adentro uma lojinha em busca de um pouco de ar condicionado. Fazendo de conta que procurava por algo na loja acabei por me deparar com um interessante Kit de experiencias astronômicas e astronáuticas. O preço era baratérrimo. Não me recordo exatamente o valor, mas foi menos de R$ 50,00. Nada, mas nada mesmo supera os preços dos “Salims e Jacobs” do Saara Carioca.  A região não possui seu nome somente devido a sigla formada pela sua representante legal. A colônia libanesa é proprietária de muitos dos negócios instalados na região. Por lá árabes e judeus convivem na mais perfeita paz.




                Uma das maiores surpresas que tive é que o pequeno e barato kit não é de fabricação Chinesa. Made in Germany. Quase inacreditável...
                Como era de se imaginar tudo encaixa, funciona e o manual é bem traduzido. Um choque cultural.
                Meu filho ainda é um pouco novo para muitas das experiencias possíveis terem graça. E minha mais velha é um fruto de seu tempo e experiências a desqualificam socialmente. E assim ela faz de conta que nada a interessa. Pelo menos até o pequeno começar a se divertir...
                Uma experiencia com um balão alongado, um pedaço de barbante e um canudo apresenta de forma rápida e didática a terceira lei de Newton (Lex III: Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi.). O pequeno adorou o brinquedo e está rindo até agora do meu latim... Só consigo falar o texto acima se imitar “sotaque de padre”.
                Depois disto um foguete movido a Cebion faz a alegria da galera.
                E finalmente o momento mais esperado. Vamos brincar de ATM. A construção de um telescópio.  Ou quase...

                Depois de um pouco de cola branca e algumas dobraduras de papel possuímos uma pequena luneta de 300 mm de distancia focal com uma lente primaria de 15 mm. Ou seja um refrator com lente de plástico f 20 (razão focal). A ocular por nós também construída me parece tratar-se de uma Kellner (ou uma Ramsden "melhorada") de 30 mm. Isto nos leva a possuir nas mãos uma luneta que amplia em 10X as imagens.







                Finalmente chegou a noite em que resolvi brincar com o brinquedo. Rapidamente descobri algumas coisas além do obvio ululante (que a luneta é um brinquedo e uma porcaria...)
                Seu campo de visão é bem maior do que eu supunha. Mais de 1o. Cabem duas luas cheias e um pouquinho mais em seu campo de visão.
                O conceito de seeing é muito bem explicado pelo brinquedo. Agora você percebe algum detalhe e logo depois não. Nunca tinha visto algo tão sensível as vontades da atmosfera terrestre.
                Feita de papel cartão ela é muito sensível também a flexão. Tem que ser tratada com muita delicadeza. O foco (realizado correndo um tubo de papelão dentro de outro) é possível. Mas não flexione o tubo...
                Não posso deixar de imaginar que as lunetas utilizadas por Lacaille em seu levantamento dos céus austrais eram apenas um pouco melhores que o "Cacareco". Tudo bem que as lentes não eram de plástico. Mas ele descobriu M 83 com elas. Inacreditável...
                Deixando tudo isto de lado e  dando uma de São Tomé apontei o “Cacareco” para os céus e tive algumas surpresas.
                Acrux é mesmo uma estrela dupla.  Alpha Centauro é suspeita (o seeing brinca com ela...).
                Na Lua as grandes estruturas são evidentes. Mares, as Montanhas da Lua e as maiores crateras “comparecem”.  Ou quase.  Os Montes Caucasus e Apeninos bem como o “estreito” que é definido por eles e que liga os Mares Imbrium e Serenitatis são claramente visíveis (nos momentos de seeing). Archimedes é possível.  As raiações de Copérnico são evidentes embora a cratera em si seja mais difícil. A aberração cromática, surpreendentemente , fica nas baias... 
                Pensando em Lacaille e seu catalogo de nebulosas aponto o brinquedo para a Caixinha de Joias. Percebe-se que não é uma estrela apenas embora se torne uma espécie de local confuso com algo vermelho no centro. Kappa Crucis, BU Crucis e MU Crucis lutam para se resolver uma da outra...  Cada vez respeito mais Lacaille. Já observei o Catalogo inteiro com meu 15X70. Mas ele é infinitamente superior as lunetas de Lacaille. A descrição do equipamento utilizado por ele se aproxima muito mais do “Cacareco” que de meu Skymaster...
                   Jupiter é uma estrela amarelada com quatro estrelas "escorts" bem fracas. Nos momentos de seeing bom.
                   Muito mais do que eu apostaria. 
                 Depois de muito insistir calculei que  a magnitude limite do brinquedo ( em noite de lua quase cheia e da Stonehenge dos Pobres [Bortle8] ) é entre 7,5 e 8a magnitude. 



                O brinquedo deixou meu filho curioso e eu também. Pretendo tentar montar algo como a luneta de Galileu na próxima brincadeira de ATM...
                    

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