quarta-feira, 26 de julho de 2017

M 57 - A Nebulosa do Anel


          M 57 é provavelmente a nebulosa planetária mais famosa do céu. Devido a seu formato é corretamente chamada de “ A Nebulosa do Anel”. Este pequeno círculo esfumaçado é um exemplo didático de uma das mais curtas etapas evolutivas de estrelas com a massa semelhante ao nosso Sol. Estas após consumirem todo seu hidrogênio, se tornarem gigantes vermelhas e expelirem sua atmosfera mais externa tornam-se anãs branca envoltas em anéis de gases originários de suas próprias “cinzas”. O formato pode variar um pouco em função do ângulo de visada e assim as vezes podem ser planetárias bipolares. Mas o termo Nebulosa Planetária surge devido ao característico formato destas nebulosas circulares e que se apresentam como pequenos discos planetário coloridos em telescópios mais modestos e tão comuns nos primórdios da astronomia observacional.
            Recentemente falei por aqui que Messier (que é o verdadeiro descobridor de M 57) possuía telescópios inferiores ao meu. Durante as pesquisas para este post me deparei com um Dollond de 3 ½ polegadas de propriedade de nosso caçador de cometas. Um refrator de cerca de 90 mm feito pelo melhor fabricante de seu tempo. Os refratores Dollond são um marco na evolução dos telescópios. Neil English batizou o primeiro capitulo de seu livro (Classic Telescopes: A Guide to Collecting, Restoring and Using Telescopes of Yesteryear”) com o título de “The Dollond Century”.  John Dollond “criou” o telescópio acromático. Sem mencionar as colaborações teóricas de Euler, Hall ou Klingsternia ele apresentou seu projeto com uma objetiva feita com duas lentes de dois tipos distintos de vidro para a Royal Society em 1758. Ganhou a Copley Medal e o resto é história. Durante o século 18 os “Dollonds” eram os melhores telescópios do mundo.
            O próprio English testou um Dollond de 75 mm já da terceira geração da família de 1905 (circa) em M 57 e nos diz que ele não deixa nada a dever a um atual refrator do mesmo diâmetro.
            Como vinha querendo revisitar A nebulosa do Anel há tempos e fazer algumas fotos destas decidi pesquisar um pouco a respeito da mesma antes de me lançar a campo. Me recordava de ter visto um anel de fumaça onde com bastante ampliação notava um ponto negro na região central. O seja, um pouco mais que um falso disco planetário e de fato o Anel do nome. Com a pulga atrás da orelha se havia sido injusto com os telescópios de Messier decido visitar minha biblioteca em busca da descrição original e de outras descrições clássicas do mesmo.
            Antes de chegar a descrição de Messier na sua segunda edição de seu catalogo no Coinassance do Temps para 1783 (impresso em 1780) esbarrei uma longa história envolvendo diversos astrônomos e cientistas de várias gerações que parece só ter se definido em junho último. Com uma matéria que encontrei na Australian Sky and Telescope para agosto e setembro de 2017.
            Primeiramente fui na minha cópia do Catalogo Original (Um PDF disponível diretamente da BNF). Fracasso... esqueci que minha versão é da primeira edição (1771) e só cobre até M 45.

            O próximo passo é, evidentemente, consultar os mais atuais e meus inseparáveis companheiros quando se trata de Messier “ The Messier Objects” de O´Meara e o “Atlas of the Messier Objects” de Stoyan.
            É aí que a coisa começa a ficar divertida. Desejoso de apresentar M 57 de forma adiantada aqui no Nuncius Australis (reparem que tratados e revistas astronômicas sempre tentam lançar seus projetos com meses e até mesmo anos de antecedência. A segunda edição do Catalogo Messier foi editado em 1780 para um anuário destinado a 1783 e a S&T liberada em junho e que acabou me obrigando a mudar o post todo depois de pronto é destinada a Agosto e Setembro deste ano) descubro que a sua descoberta é atribuída a Antoine Darquier de Pellepoix. Em 1779.  Até mesmo Messier em sua apresentação nos diz isto: “ [ observado em 31 de janeiro de 1779] um remendo de luz entre b e g Lyrae descoberto enquanto observando o Cometa de 1779 (Bode) o qual passou muito próximo. Parece que este remendo de luz, o qual possui bordas arredondadas, deve ser composto de estrelas muito tênues. Não foi possível, entretanto,  ver a estas nem mesmo com o melhor telescópio (o já citado Dollond 90 mm), mas permanece a suspeita que há algumas. M. Messier marcou sua posição na carta para o cometa de 1779. M. Darquier, em Toulouse, descobriu esta nebulosa quando observando o mesmo cometa e reportou: “ Nébula entre b e g Lyrae, extremamente tênue, mas perfeitamente delineada. É tão grande quanto Júpiter e recorda um “apagado” planeta””
            A fim de realizar um “triple check” nas informações escolho vasculhar meu “Burnham´s Celestial Handbook” em busca de mais informações.
            Lá descubro que Darquier utilizou um telescópio de aproximadamente 75 mm em sua observação e confirmo que provavelmente foi William Herschel que percebeu a estrutura de M 57: “ Entre as curiosidades dos céus...  Uma nébula que possui um ponto escuro concêntrico e regular em seu centro... e é provavelmente um anel de estrelas. É oval em seu formato, o eixo mais curto sendo para o mais longo assim como 80 é para 100. ”  Burnham ainda nos diz que M 57 foi a primeira nebulosa planetária descoberta. Não é exatamente verdade M 27 foi descoberta antes, mas devido a sua posição em relação a terra ela não apresenta a forma de um anel perfeito. Nebulosas planetárias, em função de sua orientação para terra podem possuir diferentes formatos. Os mais comuns são as anelares e as em forma de gravata borboleta. As anelares me parecem ser origem do nome para estas estruturas que nascem da morte de estrela de massa semelhante as do Sol.  
            Herschel foi o homem que cunhou o termo nebulosa planetária. Burnham se pergunta se terá a descrição de Darquier colaborado para isto? (posteriormente Don Olson e Giovanni Maria Caglieris na fadada matéria da S&T também citam esta possibilidade...). É uma pergunta que talvez fique sem resposta. Mas como Herschel foi o descobridor de Urano e a muitas destas nebulosas planetárias possuem um tom levemente cianótico como o planeta em questão é possível que seja apenas uma coincidência e que a impressão de Darquier em nada tenho influenciado o famoso astrônomo real.
            As coisas estão neste pé enquanto me preparo para realizar minha viagem de inverno e fotografar M 57 (e outras cositas más). Seria o mesmo fim de semana que ocorreria o encontro Nacional de Astrofotografia lá pelas bandas do planalto central e já que não aconteceria de poder ir tão longe me conformei com um ataque até Búzios. É quando me deparo com a tal da Australian Sky and Telescope para agosto e setembro de 2017. Logo nas primeiras páginas me deparo com a chamada para a matéria na pagina 14. “ Quem descobriu a Nebulosa do Anel? ”


            Darquier evidentemente.  Mas “só que não”. Os autores (Olson e Caglieris) garantem que todos os livros dão o nome errado do descobridor. O verdadeiro (primeiro a colocar os olhos) foi Messier. Segundo os autores a confusão se dá devido a uma questão semântica em razão do sentido da palavra “descoberta”. Como a linguagem é algo dinâmico (embora na França e em Portugal isto possa ser meio controverso) quando Messier atribui a descoberta a Darquier em sua apresentação não é isto que ele estava dizendo. De qualquer forma a explicação mais detalhada da história parece sustentar a ideia dos autores acima de qualquer dúvida. Messier observou em 31 de janeiro de 1779. Uma carta de Darquier nos conta que “ fui informado da aparição do Cometa (o Cometa Bode de 1779) apenas pela “Gazette de France” em 9 de fevereiro na qual M. Messier informa sua descoberta (nos tempos antes do telefone a informação de que o cometa já fora descoberto antes por um astrônomo na Alemanha demorava mais para chegar em Paris que a “Gazzete” em Toulouse...). Na noite de fevereiro 9-10 eu procurei por ele ao redor da meia noite. O achei na perna esquerda de Hércules. ”
            Em sua carta a Messier o próprio Darquier fala de seu ambicioso projeto a ser realizado entre 10 de fevereiro e o final de abril. Ele pretende criar um catalogo de 270 estrelas ao longo do caminho do cometa com várias que não constam no Catalogo de Flamsteed e para uma Nebulosa que se encontra entre b e g Lyrae.
            É só cruzar as datas e chegamos ao inegável fato de que Messier é o verdadeiro descobridor de M 57. Na carta onde Messier marcou M 57 esta também M 56 descoberto no mesmo dia que este localizou o Cometa de 1779 (18 para 19 de Janeiro).

            Os autores ainda dizem que o erro foi fruto do mal habito de astrônomos copiarem as fontes de outros astrônomos e assim erros (principalmente históricos) se perpetuam... E os rapazes fizeram uma bela pesquisa. Até mesmo Humboldt foi checado. Eu, grande fã do mais holístico dos cientistas “sérios”, fundador da Biogeografia e o primeiro a perceber a influência humana no clima em tempos que negacinonistas do aquecimento global e mesmo a aquecimento eram coisas distantes fiquei muito impressionado com esta nova faceta de meu ídolo. Nos tempos de faculdade existia uma enorme poltrona em nosso diretório onde eu passava horas. Era a “Cadeira de Humboldt”. Me vi obrigado a baixar uma versão digitalizada de seu Cosmos e estou lendo na integra. Lá de fato fala em M 57 e atribui sua descoberta a Darquier. E sabiamente expõe seu método... “ Meu ensaio, Cosmos, trata da contemplação do universo.”
            Dando razão a eles parto em um último arroubo investigativo vou atrás de duas fontes que ainda não visitara.
            Primeiro a desprezada Wikipédia. Esta fora atualizada no dia da matéria de S&T e trazia a história de Olson e Caglieris.
            Resta o antigo e clássico “The Bedford Catalog” que habita o segundo Volume do “Cycles of Celestial Objects” do Admiral Smyth.  Parece que os rapazes estão cobertos de razão e nenhum livro possui a informação correta... Smyth também cita Darquier como descobridor.
             Como já disse aqui e vou repetir M 57 foi uma estrela semelhante ao nosso sol que em se aproximar de seu fim ejetou suas camadas mais exteriores formando o que parece, a partir de nossa perspectiva, um anel centralizado em uma estrela que está morrendo. No caso de M57 este estertor aconteceu a cerca de 20 mil anos atrás. Diversos membros do gênero Homo devem ter presenciado o evento mesmo sem nada terem visto. Localizada 1140 anos luz não deve ter sido um espetáculo muito chamativo.
3 X Drizzle

            M 57 é a mais famosa nebulosa planetária dos céus e merece a honra. Seu anel é perceptível com cerca de 100X de aumento e está ao alcance de pequenos telescópios. Devido ao pequeno tamanho não é um bom alvo binocular.

            Sentada entre b e g Lyrae e mais próxima de b (uma variavel que oscila quase uma magnitude a cada 4 dias) navegar até ela é tarefa fácil. Mesmo que não resolva o anel o aspecto de disco planetário a denúncia mesmo em bem telescópios bem modestos. Na verdade, a descrição de Messier e Darquier me dá motivos para continuar a crer que o “Newton” (um refletor 150 mm f8) tem mais poder de fogo que um Dollond 90 mm.
            A estrela central, a matriz de M 57, é alvo visual difícil e com 15a mag. é um desafio.
            Realizei 44 fotos de M57 com 30 segundos de exposição. ASA 1600. Sem acompanhamento e com uma Canon T. As fotos foram processadas no DSS (Stacking e Drizzle) e seguiram para o Fitswork onde apenas melhorei o gradiente de fundo. Depois Photoshop. Ao longo do texto vimos versões sem nenhum drizzle, com 2 e com 3 X drizzle (processo de ampliação e adição de pixels realizado no DSS)
2X Drizzle

            Fico feliz que perceba uma estrela central (ainda que discreta) no centro da nebulosa. Em fotos do Hubble se veem duas. Uma só que participa do espetáculo. Não sei dizer se é a que registrei.


            M 57 é uma excelente introdução a nebulosas planetárias e um charmoso DSO para temporada que se aproxima.  

terça-feira, 25 de julho de 2017

Duas Noites com Monsieur Messier

          


            Quem já acompanha o blog deve conhecer o significado de “Aporema”. É, supostamente, uma festa que ocorre 4 vezes ao ano. Sempre na primeira lua nova após os equinócios e os solstícios. É uma data meio “ Mandrake”. As vezes acontece na primeira lua nova e as vezes na segunda e as vezes ainda nem é lua nova. O que importa é que neste evento o objetivo é ver longe. Aporema significa “aquele que vê longe”. A origem da palavra é obscura. Tem origem tupi. Já no terreno das lendas o nome parece ter surgido em homenagem ao Cacique Aporema (que deve ter possuído uma visão muito acurada). Foi ele um Cacique Tupinambá e chefão na região nos arredores do que hoje é a Armação dos Búzios. Na antiga Armação dos Peixes habitaram José Eustáquio e Silvano Silva. São estes os autores do Primeiro Catalogo de nebulosas das terras tupiniquins (Posteriormente conhecidas como Brasil). José Eustáquio foi um grande pescador e desta forma aprendeu a navegar pelas estrelas. De alguma forma possui um telescópio naquele refúgio de piratas que era a região. Silvano Silva foi um padre sem vergonha que de tanta sem vergonhice acabou indo catequizar naquela região durante o sec. XVIII. Deste improvável encontro nasceu o Catalogo J.E.S.S de Nebulosas e Objetos Estelares. Antes de sair fugido da Europa este conheceu Charles Messier e foi respeitado astrônomo. Graças a ele José conheceu o que hoje é chamado de Catalogo Messier. Silvano Silva parece ter se inspirado em Herschel e não inclui nenhum objeto Messier na sua versão do Catalogo J.E.S.S.
            Creio ser o único que ainda comemora as quatro Aporemas do ano. Por isto a data é móvel. Depende tanto do clima ( que tem que estar livre de nuvens) como da minha disponibilidade. Seja financeira seja temporal. E como quando tenho muito tempo tenho pouco dinheiro a data se torna quase quântica...   
            Este inverno a “Aporema” foi dedicada a Monsieur Messier. O Catalogo Messier possui entre 103 e 110 “nebulosas” dependendo da fonte. O “original” e publicado pelo próprio possui 103. Burnham em seu “Celestial Handbook” considera 104. E muitos consideram 110. Embora entre estes existam “entradas póstumas” que certamente não foram observados por Messier (O eu profundo) mas somente por Méchain (os outros eus...) e talvez um objeto repetido.
            Muitos (nem tantos) vão dizer que os “Objetos Messier” são batidos. É verdade. Mas também são os mais belos e interessantes DSO´s ao alcance do amador. Juntamente com o catalogo Lacaille e os “ 100 de Dunlop” formam o que de mais belo há no céu. Completando esta lista pode-se incluir os “400 de Herschel”.  Juntando-se tudo e não levando em conta as figurinhas repetidas se chega quase 600 DSO´s ao alcance de um bom refrator de 90 mm ou de um refletor de 150 ou 200 mm (com o 200 fica mais fácil...). Claro que quando se inclui as entradas de Herschel um céu escuro será mandatório.
            Parti em direção das terras tupinambás no dia 21 de julho de 2017. Lua Nova e segundo o “METEOBLUE” (um site meteorológico) a única noite que teria não apresentaria nenhuma cobertura de nuvens. Meteorologia não é uma ciência exata.
            Cheguei no posto avançado do Nuncius Australis as 17: e qualquer coisa. Com minha derrota planejada sabia que poderia ter mau alinhamento polar feito com o auxílio luxuoso de Alpha Centaurus as 18:34:21. Assim o foi. Antes do twilight astronômico.
            Depois foi só realizar o alinhamento do Synscan (uma espécie de piloto de bordo de minha cabeça equatorial) de Mlle. Herschel, a minha cabeça equatorial HEQ 5 pro, utilizando o método de “two star aligning”. Com o tempo vou percebendo que a escolha destas estrelas vai determinar a precisão do “Go-to”. No manual de Mlle. Herschel são apresentados alguns parâmetros para que isto ocorra, as estrelas devem estar do mesmo lado do meridiano, possuírem uma distância entre elas mínima e etc... Pode ser verdade. Mas já sei que nesta época do ano uma dupla infalível é Antares e Arcturus. Não respeitam as regras escritas. Antares ainda se encontra a leste e antares a oeste do meridiano. Mas todos os objetos que peço para a moça aparecem dentro do campo de meu sensor da Canon T3. E com sobras em minha ocular 40 mm. 
            Um dos objetivos do evento seria abater o maior número de globulares do catalogo Messier que ainda não tenha fotografado. Acabei por me esquecer de M53. Mas os restantes foram vitimados. Se quiser completar meu objetivo de fotografar todos os globulares do catalogo até o fim do ano terei que fotografar M 53 da Stonehenge dos Pobres o mais rapidamente possível. Faltam este e M72 para tal.
            E apesar da derrota planejada incluir algumas galáxias de Virgo a verdade era que feito os globulares o resto seria “ Messier”. E com Sagitário alto no céu vários clássicos seriam revisitados.
Um outro objeto que era quase obrigação seria M57. A Nebulosa do Anel. Em um futuro post apresentarei os motivos.
Apesar do METEOBLUE a noite acabou por abrir. Mas com uma transparência bem medíocre. Muita úmida.
Astrônomos amadores acabam por ver nuvens onde a maioria da humanidade vê um céu claro.

M3 - 12 X 30 Seg 1600 asa

Começo a noite de forma feliz. Depois de ajustar o foco da câmera em Arcturus envio Mlle. Herschel em busca de M 3. Ela chega quase “dead center”.   Apesar da transparência e do objeto baixo no horizonte noroeste percebo esta discretamente pela ocular. Foi o primeiro objetivo.



M 5 -9 X 30 seg 1600 asa

Depois M5 toma o mesmo caminho.  E na sequencia M 92.

M 92 11x 30 seg 

A transparência começa a piorar e ainda por cima Mlle. Herschel acaba por tropeçar em uma das pernas de seu tripé quando em busca de M 57. Lá se vai o alinhamento do Synscan.
Antares e Arcturus não são mais uma opção viável para refaze-lo. Arcturus já vai baixa demais no Oeste. Tento várias combinações e não consigo mais a mesma precisão no “Go-to”, posso adiantar que nada combina bem com Altair...  
Hora de partir para o lado mais fácil. Em Sagitário achar algo é bem fácil. M 17 está no campo da buscadora e claramente visível. É, quiçá, minha nebulosa favorita. Embora não tão majestosa como a Trilogia composta por Eta Carina, M42 e M 8 ela é um espetáculo. Não é à toa que possui dois apelidos muito apropriados. O Cisne e Ômega.  Faço dezenas de exposições.


M 17 33X 25 seg 3200 asa

Finalmente me converti a captura em RAW. Mas acho que ainda falta aprender algumas coisas. Ao importar as imagens para o DSS percebo que este me informa que são “light frames” RAW Gray. As fotos são em escala de cinza. Para tirar cor destas é terra incógnita. Outro detalhe importante é que meu “novo” lap top tem 1 T de HD. E na dúvida capturo todas as imagens tanto em Jpeg como em RAW. A câmera permiti isto. No final da noite possuir 400 arquivos de imagem é a regra.
O fim da noite será clássico. Perco para a condensação. Finalmente o “Newton” (meu refletor 150 mm f8) se encharca e nada mais é visível. Será um problema recorrente. A parte externa do tubo do telescópio costuma apresentar “sereno”. Mas quando as partes internas (leia-se o espelho primário) embaça fica difícil. Aprendi algo interessante e certamente ligado as leis mais fundamentais do universo. Quando fotografando objetos no zênite o primário embaça mais rapidamente do que com o tubo ótico em posição menos favorável. Já falei a respeito dos processos que levam a esta pedra nosapato dos observadores. No inverno estes se acentuam...
Para encerrar coloco o Newton para secar e tento algumas fotos com minha lente 75-300 mm., mas o tempo já ia nublando, a condensação se instalava rapidamente na lente também e eu estava exausto...
Segundo a meteorologia o sábado seria bem nublado na parte da noite. Mentira!
Depois de um dia de praia fracassada devido ao vendaval (mas com muito sol) e de apostar que não observaria acabei, à tarde, fazendo churrasco e bebendo várias cervejas. A noite anoitece muito mais clara que a anterior. Murphy é um FDP.
Ao perceber o equívoco monto a Mlle. Herschel (o tripé tinha ficado no lugar) e ainda meio embriagado alinho o Go-to novamente com minha dupla vencedora. Murphy pode ser um safado, mas eu sou pé quente.
O Sábado acaba rendendo mais que a sexta e a transparência, embora não perfeita, estava boa. Tudo que ficara pendurado é abatido.
M 16 -61X 30 seg 1600 asa

Um objeto que queria re-fotografar foi o começo da noite.  M 16. Os resultados ficaram aquém do esperado. Queria utilizar a foto para seguir ao pé da letra um tutorial do Samuel Muller sobre o PixInsight. Com 61 capturas de 30 segundos com ASA 1600 empilhadas no DSS eu rapidamente percebo que não vai dar certo. Visualmente é um aglomerado aberto que para quem sabe possui regiões onde percebe-se um tom mais negro de negro. Uma espécie de versão às avessas do clássico do Procol Harum.
Nesta noite tive visitas. Um amigo e duas “filhas postiças”. Saturno sempre faz sucesso.


M 57 - 44X 30 seg 1600 asa

Na empolgação acabei por esquecer de M 53. Na verdade esqueci deste glob na derrota programada. E assim parti direto para M 57. Na véspera esta me deu uma rasteira e errar uma vez é humano. Duas...
M 71 - 19X 30 seg 1600 asa


M 56 outro glob na mira. Mais um para o projeto "Globulares Messier". Discreto na buscadora. 
M 56 - 11 X 30 seg 1600 asa


Com a planetária capturada parto para M 71. Visualmente difícil e invisível na buscadora.
Depois disto tento a sorte em C 33 (escolhida ao acaso no Stellarium). Uma grande galáxia, mas que certamente demanda céus mais escuros e uma transparência mais generosa. Tiro duas fotos e vejo que será perda de tempo. E assim voltamos a Sagitário. No inverno é inevitável.


M 20 30X 30 seg 1600 asa

M 20. A Trífida. E erro duas vezes. Muito próxima a zênite e lá vem a condensação. Novamente parto para a 75-300 mm. Mas agora mais embriagado a região de Antares ficou meio fora de foco. Fim de jogo.
Anatres Regio 

Como não poderia deixar de ser a meteorologia erra de novo e no domingo (que deveria estar nublado desde cedo) se revela a melhor noite. Mas eu percebo isto já no meio da Via Lagos e já engarrafado na estrada.


Foram duas noites na companhia de Monsieur Messier. Sempre muito agradável e com os DSO´s mais camaradas em volta de nós.  

domingo, 16 de julho de 2017

M 14: Um Globular Distante

Sempre achei que a observação astronômica é uma atividade solitária. Como já disse o filosofo “ A necessidade da maioria supera a necessidade do indivíduo”*. E assim me incomodo quando   viro uma pessoa desagradável e obrigo (ou ao menos tento) aos próximos a serem privados da luz quando observo. Tanto minha esposa como minha cunhada tecem severas críticas a meus gritos e resmungos quando se acendem as luzes na cozinha ou nos fundos da casa de Búzios enquanto observo. A maioria não é fã da escuridão.  Outro detalhe que me irrita é que quando localizo um pequeno esfuminho escondido em Ophiuchus (ou qualquer outra constelação) e convido alguém a dar uma olhada na ocular e este não se maravilha com aqueles poucos fótons que viajaram milhares de anos luz até seu nervo ótico. Isto quando vê alguma coisa. Logo acho melhor observar sozinho e guardar para mim estas emoções.
Quando observo da Stonehenge dos Pobres não me é possível apagar as luzes de todos os apartamentos em meu condomínio. Mas ao menos possuo a certeza de que com exceção das luzes do 16o andar do Bloco 1 nenhuma mais vai me perturbar. E também sei que não aparecerá ninguém para vir reclamar embora minha presença deva incomodar a alguns moradores. Muitos devem achar que sou um tarado... para minha felicidade sou o único morador autorizado a visitar o telhado do prédio durante a noite. Um direito adquirido desde os tempos da antiga sindica e que não foram revogados nem mesmo com o suicídio de um descontente morador do bloco 3.
E assim acabei por conseguir observar M 14. A meu ver o 
mais tímido dos globulares Messier de Ophiuchus.  Importante frisar que o observei em condições de extrema poluição luminosa. A Stonehenge dos Pobres é na Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma cidade com mais de 6 milhões de habitantes. (Bortle 7ou 8). Não bastasse isto ainda era bastante cedo e o disco lunar apresentava 50 % de seu disco iluminado.  Mas observei M 107 em condições semelhantes e achei este um pouco mais evidente. De qualquer maneira os objetos do catalogo Messier são (em geral) viáveis mesmo em condições bem ruins. Fotograficamente são todos viáveis mesmo quando registrados  de áreas ainda mais centrais da cidade.
M 14 é uma descoberta original de Messier. Observado pela primeira vez em 1 de junho de 1764.  Com um de seus modestos telescópios Messier observou o seguinte:  “ Nebulosa sem estrelas; nebulosa não é grande; sua luz é tênue. É arredondada. Próximo a uma estrela de 9a magnitude. 7´de diâmetro. ”

As descrições de Messier me parecem sempre muito realistas para possuidores de pequenos telescópios e que habitam áreas urbanas. Certamente devido ao fato de este observar com pequenos telescópios e de uma grande cidade. Paris em no século XVII já era iluminada e o Hotel de Cluny (onde era seu observatório. Este em uma área central e que já habitada a vários séculos. Já estive lá (atualmente é o Museu da Idade Média e apresenta uma belíssima coleção de tapeçarias) E com a iluminação feita a base de óleo de baleia e soltando muita fumaça não deveria ser muito melhor (ou pior) que a Stonehenge dos Pobres. Acredito que o “Newton” (meu telescópio refletor de 150 mm f8) seja muito superior a qualquer telescópio que Messier tenha usado.

Coube a William Herschel resolver M 14 em estrelas e o Admiral Smyth na segunda parte do Cycles of Celestial Objects (também conhecido como “The Bedford Catalogue”) nos fala de uma “lúcida cor branca”.
M 14 é ao menos uma magnitude mais pálido que seus “vizinhos celestiais” M 10 e M 12 e M 9.  Porém é, de fato, em termos absolutos o mais brilhante dos quatro. Sua tímida aparência se deve a extinção causada pela poeira interestelar e sua maior distância que seus companheiros. Imaginava-se que este assim como os outros se  encontrasse  a meros 25.000 anos luz. Medidas atuais o afastaram para 55.000 anos luz. Desta forma ele possui uma massa consideravelmente maior (1,2 milhões de massas solares) que seus amiguinhos e ocupa um latifúndio de 180 anos luz de universo.  M 14 é também um dos únicos globulares com uma nova registrada em plates fotográficos. A nova aconteceu em 1938, mas só foi descoberta em 1964 com o estudo de placas que cobriam o período entre 1932 e 1963. Nas placas entre 21 e 28 de junho se localizou uma nova que atingiu 16a magnitude. Nem mesmo o Hubble localizou a estrela responsável posteriormente...

Segundo Stoyan M 14 é perceptível com binóculos de 30 mm. Talvez de locais muito escuros mesmo assim com características estelares.

Não o percebi com minha buscadora (50 mm) mesmo de Búzios. Pelo “Newton” com 120 X ele recorda a descrição de Messier ainda que com alguma granulosidade nas bordas. 

Acredito que em condições ideais e visão periférica vão se resolver algumas estrelas no seu entorno.Utilizando recursos fotográficos M 14 se resolveu com 35 exposições de 30 segundos com ASA 1600 . Foram utilizados 10 dark frames e a foto que abre este post foi processada   no DSS ( 3 X drizzle) e no Fitswork + Photoshop CS 6.  

Partindo de Beta Ophiuchi (3a magnitude) caminhe dois campos de buscadora (10 o) até para sudoeste e localize 47 Ophiuchi. Vai ser a estrela mais brilhante na buscadora e talvez a única... M14 vai estar a pouco mais de meio campo de buscadora (3o) a nordeste.  Mag. 7.8


* Não sou um Trekkie de carteirinha, mas a frase é do Spock em “A Ira de Khan”.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Globulares Messier na Tríplice Fronteira

          

                Recentemente falei por aqui que o meu episódio favorito do “Cosmos” original (com o Sagan) é batizado de “ A Espinha Dorsal da Noite” (The Backbone of the Night). Ele trata da maior estrutura que podemos observar a olho nu no céu. A própria Via Láctea em si.  E imaginando esta como a coluna do um ser humano a região dominada pela tríplice fronteira formada pelas constelações de Sagitário, Ophiucus e Escorpião poderia ser “A Décima Terceira Vertebra”. É apenas uma licença poética e nada tem a ver com os problemas causados pela evolução e o bipedismo.
                A distribuição de aglomerados globulares em nossa galáxia concentra-se ao redor desta região central.  Dos 138 globulares listados no Sky Atlas 2000.0, do Tirion e Sinnott, (do qual eu sou o feliz proprietário de uma edição de luxo que me enche de orgulho) 71 deles habitam nesta área.  29 em Sagitário, 24 em Ophiucus e 18 em Escorpião.  Em levantamentos mais recentes o número de globulares na nossa galáxia atingiu um número total entre 151 e 157. A diferença deve-se ao fato de que alguns globulares nesta conta podem ser creditados a Galáxia Elíptica Anã de Sagitário e a Galáxia Anã de Cão Maior.  De qualquer maneira estes globulares estariam em processo de captura e vão acabar por tornar-se habitantes do halo galáctico da Via Láctea. Considerando que sejam 157 globulares 141 destes habitam o hemisfério centrado em Sagitário (89.5%). Nesta contagem atual 35 globulares residem em Sagitário, 33 em Ophiucus e 23 em Escorpião. Para manter a contabilidade em dia a soma dá 91 e isto significa que 57.9% dos globulares residem na região. Não deve tratar-se de uma daquelas coincidências que nada tem a ver com as leis fundamentais do Universo.  Coincidência seria se fossem 42...
                Como não poderia deixar de ser estes números se refletem no Catalogo Messier. Este um catalogo de nebulosas organizado no Século XVIII pelo caçador de cometas Charles Messier e que reuniu 110 objetos Nebulosos que não deveriam ser observados. Seu objetivo era que estes não fossem confundidos com seus amados blocos de gelo que habitam o sistema solar e que não se perdesse tempo vendo se estes impostores se moviam contra as estrelas de fundo (isto é uma meia verdade...). De qualquer maneira dos 29 globulares que integram o Catalogo Messier 16 residem na Tríplice Fronteira.  55.2% destes...  Fugindo um pouco do esquadro 2 destes em Escorpião, 7 em Ophiucus e 7 em Sagitário. Há um empate técnico entre Sagitário e Ophiucus. Embora M 62 (que fica em Ophiucus segundo a maioria) seja listado por alguns como residente em Escorpião. Um horror para quem tem T.O.C.... afinal sagitário deveria ter mais globulares que os outros membros da fronteira. 
                A conjunto é representativo para apresentarmos algumas características cosmológicas, morfológicas e históricas deste tipo de DSO.
                Aglomerados globulares são concentrações coesas gravitacionalmente de dez mil a um milhão de estrelas que se espalham por um volume de diversas dezenas até duzentos anos luz de espaço. Hoje em dia existe uma área cinzenta entre globulares, galáxias anãs e até mesmo abertos superdensos. Quanto mais descobrimos sobre o universo mais difícil se torna classificar com precisão as suas formas organizacionais. Estruturas como Westerlund 1 são aglomerados jovens que em alguns bilhões de anos poderão ser globulares...  Mas para o objetivo deste post basta sabermos que além da curta e grossa definição acima os globulares são membros anciões do universo e sua idade atinge muito bilhões de anos. Até pouco tempo alguns eram quase paradoxos. Existiriam a mais tempo que o universo...
                Globulares embora com características semelhantes não são iguais. Quem viu um globular não viu todos eles. Ainda que em pequenos telescópios as diferenças a vezes não sejam obvias.
                 
                Quando Messier conclui seu Catalogo Globulares ainda não eram assim chamados. Na verdade, todos os DSO´s respondiam pelo termo geral de nebulosas. Quem cunha o termo é William Herschel que ao contrário de Messier achava que catalogar nebulosas era uma tarefa válida por si mesma.
                Embora sem nome (embora Messier tenha conseguido resolver estrelas em M 4) sempre se suspeitou que globulares eram agrupamentos de estrelas unidos gravitacionalmente.  O primeiro globular a ser observado foi M 22 por Abraham Ihle em 1665. Quando Messier concluiu seu catalogo eram conhecidos apenas 34 globulares. Herschel em seu imenso levantamento ampliou o incluiu mais 36. Em 1915 Mellote lista 83. Shapley (1930) nos fala em 93 (sendo um extragaláctico).
                Shapley com Hellen Sawyer Hoog (que conhecia 99 globs...) criam uma classificação utilizando parâmetros físicos e estruturais   que leva em conta o grau de condensação dos globulares. A Escala Shapley -Sawyer é expressiva e bastante representativa para você imaginar o que vai ver junto a sua ocular.  Vai de I (mais concentrados e quase impossíveis de se resolver em estrelas. Mesmo grandes telescópios não resolvem suas áreas mais centrais) até XIII (parecerão um aglomerado aberto rico).
                Como desde sua descoberta e a partir do momento que se resolveram estrelas os globulares eram supostamente objetos físicos e enxames estelares. Todas muito próximas e a mesma distância. Provavelmente por isto Shapley derivou da forte anisotropia dos Globulares em nossa galáxia que o centro de nossa galáxia está a uma considerável distância na direção de Sagitário e não próxima a nosso sistema solar como se supunha anteriormente. Apesar de superestimar as distâncias foi um grande passo para encerrar o “Grande Debate” e de ampliar as fronteiras do universo...
Gosto muito de realizar projetos temáticos para minhas observações. Desta forma vou me familiarizando com o que estou observando e começando a perceber as diferenças entre um dois de espadas e um dois de paus mesmo ao longe. Entre os vários projetos que tinha para o inverno finalmente acabei com um deles. Este era fotografar todos os globulares Messier que me faltavam em Ophiucus. Uma coisa leva a outra e assim acabei com todos os globulares Messier na Tríplice Fronteira fotografados. Com isto reuni material suficiente para apresentar a diversidade destes tão importantes DSO´s. Globulares são uma das primeiras estruturas a se organizar em uma galáxia e seu estudo é fundamental para a compreensão do quadro maior que atende pelo nome de evolução galáctica. Quem desejar se aprofundar mais na astrofísica e história dos globulares pode e deve visitar a Página da SEDS ( leia Hartmut Frommert )  http://messier.seds.org/glob.html#Messier   e procurar pelo livro “ The Complex Lives of Star Clusters” -David Stevenson – Springer ( https://www.amazon.com/Complex-Lives-Clusters-Astronomers-Universe/dp/331914233X )  Recomendo correr . Só restam 2 em estoque na Amazon.  Este é um raro post no Nuncius Australis com bibliografia. Mas seria vergonhoso não dar estes créditos aqui e agora...


                Dito tudo isto chegamos ao que interessa: Os aglomerados Messier e a 13a vertebra. Vamos visitar cada um deles e neste tour aprender o caminho das pedras para conhecer estes senhores. Todos são alvos visuais possíveis mesmo com bastante poluição luminosa e fotográficos fáceis (daí a fazer boas fotos já é outra história...)
              
  M4 -  Escorpião - Shapley IX - É um dos mais charmosos globulares dos céus e o segundo mais próximo da terra. Foi o primeiro globular a ser resolvido (por Messier) e sua dorsal central de brilhantes estrelas é facilmente percebido mesmo com telescópios de 75 mm em céus escuro e com mais de 120X de aumento. Localizado muito próximo a Antares é um dos globulares mais fáceis de ser localizado. Um “ must” para os iniciantes. Perceptível pela buscadora e mesmo a olho nu (estelar) em céus muito escuros.  Foi o primeiro objeto Messier que observei (na mesma noite observei M 7 e M 6. Estes dois abertos na cauda de Escorpião) Mag. 5.4
               

  M 9 – Ophiucus- Shapley VIII -. Bem mais discreto e com uma navegação mais delicada é um globular pequeno. Em pequenos instrumentos vai-se perceber um núcleo mais brilhante envolto em um halo não resolvível. Com um telescópio de 150 mm resolverá algumas estrelas em seu entorno.  Localize Eta Ophiuchi e o M 9 estará a 3 ½ o a sudeste desta. Eta Ophiuchi possui magnitude 2,5 e é perceptível em céus suburbanos. Ou parta de Antares e calcule 15o rumo nordeste. Aproximadamente 3 campos de buscadora 10X50 mm. Nesta e em binóculos M 9 será quase estelar. Com atenção (use visão periférica) parecerá uma estrela levemente desfocada. Mag. 7.8
              
  M 10 –  Ophiucus – Shapley VII - Um nobre globular. Com pequenos telescópios não espere resolver estrelas. Mas o núcleo será bem brilhante e o globular será uma condensação razoavelmente extensa com 90 X de aumento. Com 150 mm e 60X de aumento você irá começar a resolver estrelas em seu halo.  Com uma brilhante estrela alaranjada de 5magnitude bem próxima (30 Ophiuchi) é facilmente localizável em locais de céu escuro. Senão parta de Zeta Ophiuchi e caminhe aproximadamente um campo e buscadora para 23 Ophiuchi (5magnitude) e mais cerca de meio campo na mesma linha até 30 Ophiuchi. Todas são facilmente percebidas pela buscadora. O Globular em si dependerá de quão escuro é o seu céu. No Rio de Janeiro é difícil vê-lo claramente com menos de 70mm e 15X.   Mag. 6.6



M 12 – Ophiucus – Shapley IX – Um aglomerado pouco concentrado que se resolve facilmente. Por isto um brilho de superfície mais baixo e sofre com poluição luminosa. Com o 150 mm ele se resolve até o centro (ou quase) e tem um aspecto espiralado. Bem interessante embora apagado em céus suburbanos. Próximo a M 10 parta também de Zeta Ophiuchi rumo 12 Ophiuchi. O globular vais estar a meio campo(2 ½ o) de buscadora a leste – nordeste desta. E a 3 ½ o de M 10. Ele é perceptível pela buscadora em céus suburbanos, mas demanda atenção. Mag. 6.5


               
  M14 – Ophiuchus – Shapley VIII -  Só o observei do Rio. E em condições bem ruins (baixo no horizonte e com a lua já crescente). Foi o último globular desta lista que visitei. Em céus urbanos é pouco mais que uma assombração na ocular. Se resolve em fotos. Creio que em locais mais escuros seja um alvo visual mais fácil.  Imperceptível na buscadora (há registros de observações binoculares em condições melhores). Partindo de Beta Ophiuchi (3a magnitude) caminhe dois campos de buscadora (10 o) até para sudoeste e localize 47 Ophiuchi. Vai ser a estrela mais brilhante na buscadora e talvez a única... M14 vai estar a pouco mais de meio campo de buscadora (3o) a nordeste.  Mag. 7.8


 M 19 – Ophiuchus – Shapley VIII – Foi o penúltimo globular observado. Apesar das condições semelhantes (mesma noite) a M 14 e serem ambos Shapley VIII a impressão é muito diferente. Curiosamente este é um pouco mais distante. Mas M 19 é mais brilhante (uma magnitude) e maior   e cheguei a perceber estrelas no limiar da resolução em seu entorno com 48X de aumento. M 19 é um globular bem alongado. Foge um pouco da esfericidade tão comum. Localiza-lo pode ser um pouco difícil em céus urbanos. Parindo de Antares localize Theta Ophiuchi (Garafsa) a poucos mais de 3 campos de buscadora (17o). Aproximadamente no meio do caminho vias passar por uma dupla ótica composta por 26 Ophiuchi (5.7 mag.)   e uma companheira levemente mais alaranjada (HIP 83176). M 19 vai estra dentro do campo da buscadora cerca de 2o a leste da dupla. Em céus escuros ele será notado na buscadora. Em céus suburbanos não. Mag. 6.8


M 22 – Sagitário – Shapley VII – O mais magnifico dos globulares Messier e o meu eterno favorito. Somente Ômega Centauro e Tuc 47 são a sua altura. Tolkien se refere a ele como uma joia no céu no “Hobbit” (The Arkenstone of Thrain). O grande Globular de Sagitário. Perceptível a olho nu mesmo em céus não muito generosos foi o primeiro globular a ser observado telescopicamente e registrado como estrela desde a mais remota antiguidade. Um alvo fácil e obrigatório para iniciantes e iniciados. Localiza-lo é bem fácil. A pouco mais de um campo de buscadora a leste de Kaus Borealis (Lambda Sagitarii) é evidente na buscadora mesmo em centros urbanos. Mag. 5.2

              
  M 28 – Sagitário – Shapley IV – Bem concentrado sofre com a proximidade de Kaus Borealis. É importante tirar esta do campo, especialmente se usando binóculos. Esta lava o aglomerado. A menos de meio campo de buscadora de Kaus Borealis (Lambda Sagitarii) é um alvo muito fácil e um bom trino para iniciantes trinarem sua visão em áreas muito lavadas. Já o visitei muitas vezes, mas a proximidade de M22 acaba sempre deixando este mais modesto aglomerado um pouco esquecido. Mag. 6.9


      
          M 54 – Sagitário – Shapley III – M 54 é um pequenino Globular. É o mais distante globular Messier a 70.000 anos luz e é na verdade membro da Galáxia Anã de Sagitário. Esta está sendo canibalizada pela Via Láctea. Localizado a 1 ½Ascella (Zeta Sagitarii) na base do “bule” (o asterismo que caracteriza a constelação de Sagitário) é um alvo fácil. Ele vai parecer estelar em sua buscadora. Como existirão outras estrelas em campo é só ter um pouco de paciência para achar a certa. Com mais ampliação não chega a se resolver estrelas, mas o aglomerado recorda uma pequena galáxia.  Um desafio para quem possui céus muito escuros e grandes telescópios é perceber a Galáxia Anã de Sagitário presente no quadro. É um dos maiores desafios propostos por Phil Harrington em seu “Cosmic Challenges”. Está mais para uma mudança de gradiente no fundo do céu que para um objeto real... Mag. 7.5


             
   M 55 – Sagitário – Shapley XI – É o menos denso dos globulares Messier e parece muito com um aberto. Cobre uma bela área de céu. Se resolve facilmente devido à baixa densidade. Mas requer atenção devido a brilho de superfície mais modesto e a pouca concentração central (quase nenhuma). É um dos objetos mais ao sul do Catalogo Messier e foi descoberto por Lacaille. Chegar até ele pode ser difícil. A melhor escolha e partir de Ascella (Zeta Sagitarii) e percorrer três campos de Buscadora rumo leste. Com atenção e céus um pouco generosos ele vai aparecer na buscadora. Lacaille o descobriu com uma luneta de 30 mm. Mag. 6.3
               
M 62 – Ophiuchus – Shapley IV – Um aglomerado bem brilhante  e cidadão de dois países. Habita o limite de Ophiuchus com Escorpião e embora não muito grande é bem brilhante. Especialmente seu núcleo. Resolvo estrelas somente em sua borda e mesmo assim com periférica. Para localiza-lo parta de Épsilon Scorpii indo rumo Norte Noroeste por pouco mais de um campo de buscadora (6 o) e seguindo um grupo de três estrelas bem brilhante você chegará a ele. Comparece na buscadora embora que com características estelares. Com visão periférica dá para se notar algo errado nesta estrela... Mag. 6.5


  M 69 – Sagitário – Shapley V -  M 69 é mais um habitante da base do Bule. É um pequenino aglomerado que não desperta grandes paixões. É provavelmente a pior foto desta coleção. Apesar de muito próximo de Épsilon Sagitarii não é tão fácil assim de se perceber em céus urbanos. Fica a 3 ½a nordeste de Épsilon. Parece estelar na buscadora. Mesmo com grandes aumentos não revela muitas feições. Como diz O ‘Meara parece um velho artefato bem gasto. É uma descoberta controversa de Lacaille.  Mag. 7.7
                

M 70 – Sagitário – Shapley 5 -. Bem mais interessante que o anterior.. . Apesar de bem brilhante para sua magnitude (alto brilho de superfície devido a sua concentração ele possui um “apêndice” de estrelas e um formato mais irregular. Se resolve bem com meu 150 mm em 120X.  Se afasta muito rapidamente de nós. A melhor forma de localizá-lo e calcular o meio do caminho entre Ascella E Épsilon Sagitarii. Ele reside um pouco a norte desta linha imaginaria e é perceptível ainda que bem estelar pela buscadora. Mag.  7.8

    M 75 –  Sagitário -  Shapley I –  M 75 é o mais concentrado dos globulares Messier. Embora pequeno dos poucos a atingir o máximo da escala. Isto faz seu núcleo bem brilhante. É também o mais difícil de se achar. Localizado perdido entre Sagitário e Capricórnio e sem nenhuma estrela mais brilhante no caminho sua melhor chance é partir de Beta Capricorni (3.6 Mag.) em direção a um pequeno asterismo formado por Terebellum I, II, III e IV em Sagitário. M 75 reside no meio desta linha imaginária. Demanda paciência e sorte. Nos tempos de Hipatia (minha cabeça equatorial 3-2) demorei quase uma noite inteira de tentativas e erros É um) ele parecerá uma fraca estrela pela buscadora. Só retornei depois que Mlle. Herschel se tornou parte de meu equipamento. Uma equatorial HEQ 5 com “Go-to” torna a passeio mais agradável. Mag. .8.6
  
               
M80 – Escorpião - Shapley II – Bastante concentrado também é um objeto adorável. Devido a sua concentração é difícil resolver algo além das estrelas mais externas, mas o globular é bonito e muito brilhante embora pequeno. Saindo de Antares e seguindo por várias e obvias estrelas que conduzem até Acrab na garra do escorpião chegar nele é fácil. Mas com o rico campo difícil saber quem é o aglomerado e quem é estrela pela buscadora. Atenção e paciência resolvem o problema.  Mag. 7.3


 M 107 – Ophiuchus – Shapley X – O último aglomerado a ser incluído no Catalogo. É uma entrada póstuma e já realizada no sec. XX. Foi descoberto por Mechain e há dúvidas se foi de fato observado por Messier. É um discreto aglomerado, mas que embora não tenha sido percebido pela buscadora era uma presença obvia no Newton (meu telescópio 150 mm f8) com 48 X de aumento em noite de lua quase cheia. Só o visitei uma vez. O registro foi feito às pressas e com muita nebulosidade e condensação já se instalando no espelho. Merece uma segunda chance.  Partindo de Zeta Ophiuchi ele reside a pouco mais de meio campo de buscadora (3 ½  o) a sul sudoeste. Mag. 7.8


   Globulares são muito interessantes e existem diversas hipótese a seu respeito. Uma das mais aceitas e que serve para encerrar o nosso tour conta que nossa galáxia (e outras...) começou a 15 bilhões de anos como uma esfera de gás que eventualmente colapsou na sua forma visível no presente – um bojo central e um disco -   e que os anciões globulares que formam um halo esférico a redor do disco marcam o tamanho original desta nuvem primordial. Em sua riqueza de formatos, tamanhos, e composições contam uma das mais longas histórias da galáxia.   
                Espero até o fim do ano terminar de registrar todos os globulares de Messier.


    Vida longa e próspera.