sábado, 1 de julho de 2017

De Volta à Stonehenge e o Massacre Raw X Jpeg

               

              Fazia algum tempo que não observava. Murphy e a falta de tempo pareciam conspirar para tal. Em abril e maio, felizmente, tive algum trabalho. Junho costuma ser mais parado mesmo devido ao festival de Cannes. As agencias e produtoras (pelo menos as que me contratam) costumam virar os olhos para o velho mundo e nós, herdeiros dos Tamoios e Tupinambás, ficamos à mingua.  É claro que o tempo nublou na lua nova...
                Finalmente chegou o quarto crescente, já no fim do mês, e apesar da condição aquém do ideal me dignei a cumprir uma tarefa que vinha me agoniando um pouco. Terminar de observar e fotografar todos os Globulares Messier de Ophiucus. Assim teria no meu “quíver” todos os Messier da tríplice fronteira (Sagitário, Ophiucus e Escorpião) e uma significativa amostra de globulares dos céus.
                Com isto em mente e com a cara metade viajando o projeto tem que ser corrido. Só me faltavam dois destes anciões do universo para concluir minha nada hercúlea tarefa. M 14 e M 19. 
                Desta forma me organizo para que na Sexta feira, 30 de junho de 2017 (exatamente no Quarto crescente. 50% disco lunar iluminado) eu consiga abater as vítimas.
                Claro que não foi tudo tão fácil assim.
                As coisas começaram correndo (quase) conforme o script. As crianças não tiveram aula (mais uma paralização dos professores). A babá/governanta/secretária chega só as 11:30. Desta forma por volta de 12:00 eu estou trocando o focalizador do Newton (meu refletor 150mm f8). Na verdade, estou reinstalando o original. Este se empenou há mais de um ano atrás e finalmente mandei ele ao torneiro para ser concertado. Vinha operando com um focalizador muito vagabundo há muito tempo...  Ainda longe de ser o ideal a mudança já melhorou muito as coisas.
                Depois disto me digno a colimar o telescópio com alguma seriedade. Gasto meu tempo. Localizo meu kit de chaves allen e começo ajustando o secundário de forma bem mais precisa do que de costume. Depois gasto o tempo no primário. Mesmo sem um colimador consigo um resultado bem satisfatório. O melhor em muito tempo...
                Vou organizando tudo e deixando todo o equipamento reunido na sala. Hoje a brincadeira será na sobreloja da “Stonehenge dos pobres”. No telhado de meu prédio. Não visitava o local há muito tempo. Mas com os meus sonhos de ir para Búzios destroçados por meu irmão que esta super ocupado e pelo caseiro que vai entrar na faca semana que vem era minha única opção. Sempre ensaio que vou visitar meu tio que possui uma casa com um belo jardim e um horizonte sul bem livre. Mas com os alvos que tenho em mente nascendo a leste acho que a Rocinha será uma fonte de poluição luminosa assassina para os pálidos globulares. Fora o fato de meu carro se encontrar na oficina.
                Finalmente uma grave crise. Ao sentar para almoçar me lembro que ainda não peguei tudo que preciso... E aí sumiu a fonte de Mlle. Herschel (Uma cabeça equatorial HEQ 5). Depois de abandonar o prato na mesa, muitas blasfêmias e uma desesperada excursão ao centro da cidade em busca de uma substituta minha babá/governanta/secretária me manda uma mensagem segundos antes de eu comprar uma nova fonte. Localizou a fonte original entranhada entre o caos que impera nas roupas de minha amada filhota aborrescente. Pena que esta já se encontra de castigo devido a mal comportamento. Seria redundante castiga-la de novo... 
                Finalmente me lembro de que tenho que pagar a conta de meu celular. Uma rápida corrida ao banco e posso começar a trasladar o equipamento para a “laje”. Na verdade na sobreloja não existe uma Laje de fato. É bem pior que isto.... Vejam a foto que abre este post e imaginem a mão de obra que é se equilibrar sobre as telhas e não quebrar nenhuma.
                A derrota está planejada e é audaciosa. Incrivelmente e fugindo a tradição tudo acontece como um relógio...
                Utilizo a passagem de Acrux pelo meridiano para afinar o alinhamento polar. Mas apesar de não observar da Stonehenge dos Pobres há tempos aqui eu faço o alinhamento polar até “de ouvido”.  Assim as 17:44 tenho meu alinhamento polar feito. De dia ainda. É incrível como Acrux é visível de dia... 
                Agora é esperar alguns minutos para ter certeza que vou obter estrelas “boas” para o alinhamento do “go-to”. Já aprendi que dependendo de onde estarão os DSO´s que você pretende capturar é bom escolher estrelas guias para o seu Synscan (o Go-to de Mlle. Herschel) que “cerquem” a região. Utilizo quase sempre a opção de utilizar duas estrelas para isto. A opção três estrelas demanda os horizontes livres e isto é virtualmente impossível da maioria do s locais.  Nesta noite foram Antares a Arcturus as estrelas escolhidas. Se revelaram uma sábia decisão. Mlle. Herschel se comportou de forma brilhante durante esta curta noite. Todos os objetos buscados caíram dentro do campo de visão do sensor de minha câmera. Normalmente trabalho ao contrário. Primeiro localizo os objetos visualmente e depois os fotografo. Mas com o Synscan quase cravando tudo que pedia preferi fazer assim e garantir que o foco não tivesse que ser refeito para cada objeto. Mesmo com o “novo” focalizador cravar o foco é uma ciência inexata... Para que isto ocorra perfeitamente o ideal é utilizar uma estrela brilhante o suficiente para ser percebida no LCD. Mas na maioria das vezes esta estrela não existe no campo a ser fotografado e você precisa utilizar uma estrela mais distante marcar o ponto de foco no tubo do focalizador e depois pedir para que sua cabeça se dirija ao objeto desejado. Como nem sempre ela chega no ponto certo você tem que tirar ela do foco e focar para observação visual. Os DSO´s não chegavam exatamente centralizados mas chegavam sempre no canto inferior direito do sensor. Daí um mais uma ou duas fotos para ajustar e se resolvia tudo...
Antares 3200 ASA 30 Seg.

                Para marcar o foco utilizei Antares. Com uma exposição de 30 segundos e 3200 ASA percebo que que o alinhamento polar se não está perfeito está muito bom. Vai segurar 30 segundos ”na boa”. Mesmo porque o claro fundo de céu do Rio de Janeiro (ainda mais com a lua bem presente) não permitiria mais que isto mesmo... E de qualquer forma sem um sistema de acompanhamento e com 1200 mm de distância focal seria muita sorte aproveitar ao menos 25% das fotos com exposições mais longas que isto.  No momento não posso “tourar” US$ 300,00 no brinquedo. As coisas estão bem difíceis.
Como um teste fui visitar M4. Esta ao lado da estrela e é um alvo visual fácil. Mesmo distante ainda do twilight astronômico e com Copacabana já toda acesa atrás dos Morros do Cantagalo e dos Cabritos percebo o globular visualmente me utilizando de atenção e visão periférica.  Faço algumas exposições deste para checar o foco novamente e o ruído. Há bastante nebulosidade no ar, ainda está claro e a poluição luminosa se faz presente. Isto também se traduz em muito ruído. M 4 eu fotografo com apenas 20 segundos de exposição. M 4 apresenta esta espinha dorsal em seu centro que o torna um dos gobulares mais charmosos do céu. 
M4 -16X20 seg. +8 darks 2X Drizzle no DSS.  Nenhum tratamento adicional. 

                Sabendo que ainda é muito cedo arrisco escolher M 19 no comando de mão de Mlle. Herschel. Tiro uma foto e lá está o globular. No canto direito e abaixo do visor LCD. Um pequeno ajuste e poucas fotos depois percebo que existe muito ruído. Especialmente nos arquivos em RAW. Minha câmera permite capturar simultaneamente uma imagem em RAW e uma em Jpeg . Decido tentar baixar a ASA para 1600 e aumentar a exposição para 30 segundos. Melhora bastante.
M 19 -28X30 Seg.+16 Darks 2X Drizzle no DSS. Fitswork.

                Normalmente (sou um preguiçoso) só faço as capturas em Jpeg. Mesmo sabendo que vou conseguir extrair mais detalhes com o formato cru. Mas como atualizei meu Deep sky Stacker (3.4.4) e posso agora trabalhar em RAW sem ter que passar todas as fotos no Adobe DNG para trabalhar acho que daqui para frente passarei a utilizar as imagens sem compressão. Outra vantagem (esta inimaginável)) é que o processo de stacking se dá muito mais rapidamente utilizando-se arquivos em RAW em vez de Jpeg. Enquanto o Deep Sky Stacker (com o mesmo valor de threshold) detecta em torno de 17 estrelas em cada uma das fotos em RAW utilizando-se os arquivos gerados em Jpeg o programa contabiliza mais de 100. Desta forma a “leitura” dos dados para o processo de empilhamento se arrasta por mais de 30 minutos contra 3 ou 4 em RAW. Chego à conclusão que o DSS confunde estrelas com artefatos.... Quando chegam os resultados (especialmente de M 14) é definitivo. Nunca mais deixarei de fazer os registros em RAW. Ainda que para publicar as fotos seja inevitável a conversão.... Foi um massacre. Até mesmo o número de fotos aceitas pelo DSS foi muito maior com os arquivos em RAW.
                Tenho estado menos maníaco e alterado velhos hábitos. Atualizei o Câmera Raw do Photoshop, larguei o Chrome para utilizar o Opera e assim vai. Aliás tenho que fazer um elogio a este browser. Seu VPN “built in” é uma mão na roda e apesar de evitar o Pirate Bay tenho me conformado com os tempos de crise e utilizado praticas pouco ortodoxas para botar meu cinema em dia. Fora o fato que a qualidade da imagem na Netflix é muito ruim...
M14-35X30seg+ 16 darks Asa 1600 2X Drizzle DSS  -Fitswork

                Depois disto ainda falta M 14. Este bem mais tênue e difícil que M 19. Ainda baixo no horizonte (são 19:13 horas ainda) arrisco enviar Mlle. Herschel em seu encalço. E lá está ele. Discreto mesmo para o CMOS (tipo de sensor digital que equipa minha câmera).  Faço 38 fotos deste. Não creio que vá se resolver nem no empilhamento. Muito baixo no horizonte e ainda no bafo de luz da cidade. Percebo também uma leve névoa indo até alto no horizonte.
                Depois de tirar todas as fotos retiro minha câmera do telescópio e parto para inspeção visual destes dois novos amigos. M 14 é um espirito com a ocular de 25 mm. Uma daquelas coisas que recordam as reflexões de Spinoza sobre o existir. Mas está lá. Com muita visão periférica e hiperventilação. Depois M 19. Este bem mais material que seu colega. Com a 25mm ele está no limiar da resolução. Desconfio de algumas estrelas “flicando” na ocular com visão periférica e percebo uma modesta condensação com visão direta.  
                 Fico feliz com o resultado da rápida missão na Sobreloja. As 17:44 minutos estava com meu alinhamento polar pronto. As 18:21 tirei a foto de Antares. Cincos mais tarde estou fotografando M 4. As 18:42 tenho minha primeira foto de M 19 e as 19:46 a última de M 14. Pouco depois das 20:00 estou com todo o equipamento dentro de casa e posso ar atenção ao meu pequeno. Afinal já está há uma semana sem ver a mãe. E saindo assim cedo do telhado nem sou acusado de ser o tarado do Bloco B. Mas confesso que gostaria de ter feito um ataque também aos abertos entre Centaurus e Lupus. Não chega a ser preocupante. Eles devem permanecer por ali durante bastante tempo ainda...
                É incrível que se consegue fazer hoje em dia. Depois de algum processamento tenho estrelas resolvidas em M 14. Não achei que isto aconteceria. Acredito que se deu devido não só a uma captura de imagens um pouco mais caprichada (ainda que as pressas), utilizando uma ASA mais baixa do que costumo trabalhar (1600 em vez de 3200) e também um pós processamento mais paciente. A versão 3.3.4 do DSS á bem superior à anterior. Além de trabalhar com o RAW nativo da Canon (.CR2).  
                As duas fotos de M 19 abaixo foram submetidas a exatamente o mesmo tratamento. Foram empilhadas no Deep Sky Stacker, tiveram o gradiente de fundo reduzido no Fitswork, foram convertidas de Tiff para Jpeg no Photoshop e visitaram o Noiseware . A única diferença é que a da esquerda foi resultado das fotos capturadas em RAW enquanto a da esquerda foi vítima do Jpeg.  Por algum motivo (que desconheço) até o enquadramento é diferente...
Raw                                                                                                   Jpeg


                O revival da Stonehenge dos Pobres foi um sucesso. Em um daqueles raros dias que tudo funciona consegui a captura de dois DSO´s que podem ser considerados difíceis sob um céu Bortle 7/8. Especialmente M 14 foi uma grata surpresa. 

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