domingo, 16 de julho de 2017

M 14: Um Globular Distante

Sempre achei que a observação astronômica é uma atividade solitária. Como já disse o filosofo “ A necessidade da maioria supera a necessidade do indivíduo”*. E assim me incomodo quando   viro uma pessoa desagradável e obrigo (ou ao menos tento) aos próximos a serem privados da luz quando observo. Tanto minha esposa como minha cunhada tecem severas críticas a meus gritos e resmungos quando se acendem as luzes na cozinha ou nos fundos da casa de Búzios enquanto observo. A maioria não é fã da escuridão.  Outro detalhe que me irrita é que quando localizo um pequeno esfuminho escondido em Ophiuchus (ou qualquer outra constelação) e convido alguém a dar uma olhada na ocular e este não se maravilha com aqueles poucos fótons que viajaram milhares de anos luz até seu nervo ótico. Isto quando vê alguma coisa. Logo acho melhor observar sozinho e guardar para mim estas emoções.
Quando observo da Stonehenge dos Pobres não me é possível apagar as luzes de todos os apartamentos em meu condomínio. Mas ao menos possuo a certeza de que com exceção das luzes do 16o andar do Bloco 1 nenhuma mais vai me perturbar. E também sei que não aparecerá ninguém para vir reclamar embora minha presença deva incomodar a alguns moradores. Muitos devem achar que sou um tarado... para minha felicidade sou o único morador autorizado a visitar o telhado do prédio durante a noite. Um direito adquirido desde os tempos da antiga sindica e que não foram revogados nem mesmo com o suicídio de um descontente morador do bloco 3.
E assim acabei por conseguir observar M 14. A meu ver o 
mais tímido dos globulares Messier de Ophiuchus.  Importante frisar que o observei em condições de extrema poluição luminosa. A Stonehenge dos Pobres é na Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma cidade com mais de 6 milhões de habitantes. (Bortle 7ou 8). Não bastasse isto ainda era bastante cedo e o disco lunar apresentava 50 % de seu disco iluminado.  Mas observei M 107 em condições semelhantes e achei este um pouco mais evidente. De qualquer maneira os objetos do catalogo Messier são (em geral) viáveis mesmo em condições bem ruins. Fotograficamente são todos viáveis mesmo quando registrados  de áreas ainda mais centrais da cidade.
M 14 é uma descoberta original de Messier. Observado pela primeira vez em 1 de junho de 1764.  Com um de seus modestos telescópios Messier observou o seguinte:  “ Nebulosa sem estrelas; nebulosa não é grande; sua luz é tênue. É arredondada. Próximo a uma estrela de 9a magnitude. 7´de diâmetro. ”

As descrições de Messier me parecem sempre muito realistas para possuidores de pequenos telescópios e que habitam áreas urbanas. Certamente devido ao fato de este observar com pequenos telescópios e de uma grande cidade. Paris em no século XVII já era iluminada e o Hotel de Cluny (onde era seu observatório. Este em uma área central e que já habitada a vários séculos. Já estive lá (atualmente é o Museu da Idade Média e apresenta uma belíssima coleção de tapeçarias) E com a iluminação feita a base de óleo de baleia e soltando muita fumaça não deveria ser muito melhor (ou pior) que a Stonehenge dos Pobres. Acredito que o “Newton” (meu telescópio refletor de 150 mm f8) seja muito superior a qualquer telescópio que Messier tenha usado.

Coube a William Herschel resolver M 14 em estrelas e o Admiral Smyth na segunda parte do Cycles of Celestial Objects (também conhecido como “The Bedford Catalogue”) nos fala de uma “lúcida cor branca”.
M 14 é ao menos uma magnitude mais pálido que seus “vizinhos celestiais” M 10 e M 12 e M 9.  Porém é, de fato, em termos absolutos o mais brilhante dos quatro. Sua tímida aparência se deve a extinção causada pela poeira interestelar e sua maior distância que seus companheiros. Imaginava-se que este assim como os outros se  encontrasse  a meros 25.000 anos luz. Medidas atuais o afastaram para 55.000 anos luz. Desta forma ele possui uma massa consideravelmente maior (1,2 milhões de massas solares) que seus amiguinhos e ocupa um latifúndio de 180 anos luz de universo.  M 14 é também um dos únicos globulares com uma nova registrada em plates fotográficos. A nova aconteceu em 1938, mas só foi descoberta em 1964 com o estudo de placas que cobriam o período entre 1932 e 1963. Nas placas entre 21 e 28 de junho se localizou uma nova que atingiu 16a magnitude. Nem mesmo o Hubble localizou a estrela responsável posteriormente...

Segundo Stoyan M 14 é perceptível com binóculos de 30 mm. Talvez de locais muito escuros mesmo assim com características estelares.

Não o percebi com minha buscadora (50 mm) mesmo de Búzios. Pelo “Newton” com 120 X ele recorda a descrição de Messier ainda que com alguma granulosidade nas bordas. 

Acredito que em condições ideais e visão periférica vão se resolver algumas estrelas no seu entorno.Utilizando recursos fotográficos M 14 se resolveu com 35 exposições de 30 segundos com ASA 1600 . Foram utilizados 10 dark frames e a foto que abre este post foi processada   no DSS ( 3 X drizzle) e no Fitswork + Photoshop CS 6.  

Partindo de Beta Ophiuchi (3a magnitude) caminhe dois campos de buscadora (10 o) até para sudoeste e localize 47 Ophiuchi. Vai ser a estrela mais brilhante na buscadora e talvez a única... M14 vai estar a pouco mais de meio campo de buscadora (3o) a nordeste.  Mag. 7.8


* Não sou um Trekkie de carteirinha, mas a frase é do Spock em “A Ira de Khan”.

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